Filósofo
fundamental do pensamento moderno, o alemão Immanuel Kant é complexo
nas idéias e árido no estilo. O francês Luc Ferry, no entanto,
leu a Crítica da Razão Pura quando tinha 15 anos. "Não
entendi rigorosamente nada, mas tive a impressão de que aquele era um pensador
importante, de que havia ali uma espécie de tesouro escondido", disse a
VEJA o filósofo e ex-ministro da Educação da França,
hoje com 56 anos. Ferry é autor de Aprender a Viver (tradução
de Véra Lucia dos Reis; Objetiva; 304 páginas; 37,90 reais), um
livro de divulgação filosófica que discute, de forma acessível
mas séria, autores como Nietzsche, Husserl e Heidegger. A obra vendeu impressionantes
230.000 exemplares na França e respeitáveis 14.000 no Brasil. Já
aparece há seis semanas na lista de mais vendidos de VEJA. Feito talvez
mais extraordinário do que a precocidade de sua formação
filosófica, Ferry transformou a filosofia em best-seller.
O desejo de ampliar a audiência da filosofia vem desde os anos 70, quando
Ferry dava conferências públicas sobre o tema. Seu renome intelectual
deve-se sobretudo à polêmica lançada por um livro escrito
em conjunto com o colega Alain Renaut: O Pensamento de 1968 Ensaio sobre
o Anti-Humanismo Contemporâneo, de 1985, atacava as doutrinas da "crise
do sujeito" defendidas pelas vacas sagradas da academia francesa de então
Foucault, Derrida, Lacan, Bourdieu e propunha uma "refundação"
do humanismo. Embora os dois autores tenham sido tachados de "jovens reacionários",
Ferry também tem um bom trânsito entre os socialistas franceses.
Por seu apartamento em Paris costumam passar figuras tão diversas quanto
o atual candidato presidencial da direita francesa Nicolas Sarkozy, o ex-primeiro-ministro
socialista Laurent Fabius e a modelo-e-cantora Carla Bruni. Ferry teve uma breve
passagem pela política, como ministro da Educação do governo
conservador de Jacques Chirac, entre 2002 e 2004. Enfrentou intermináveis
greves de professores e causou polêmica ao impor a proibição
de símbolos religiosos nas escolas francesas, incluindo o lenço
que o islamismo tradicional prescreve para as mulheres. "Só os fundamentalistas
se opuseram a essa medida", diz Ferry. "Milhares de jovens muçulmanas se
sentiram liberadas do jugo intolerável que os avós, os pais, os
irmãos e os imãs impunham a elas."
É
claro que Ferry não é nem o único nem o primeiro "popularizador"
da filosofia. O norueguês Jostein Gaarder foi best-seller mundial ao recontar
a história da filosofia com uma simpática moldura ficcional em O
Mundo de Sofia. O suíço radicado na Inglaterra Alain de Botton
tem se firmado como um "filósofo popular" embora não tenha
ainda freqüentado as listas de mais vendidos , recorrendo a Sêneca
ou Schopenhauer para consolar o leitor que sofre uma desilusão amorosa
ou inveja o sucesso do vizinho. Nenhum dos dois, porém, vem de uma carreira
acadêmica, como Ferry, que estudou nas tradicionais universidades de Sorbonne,
na França, e Heidelberg, na Alemanha. Nos livros de Botton, em particular,
a filosofia é reduzida a uma coletânea de citações
cosméticas. Aprender a Viver, pelo contrário, explica sistematicamente
o pensamento dos autores abordados. Ferry acredita que o sucesso de seu livro
se explica pela premência que ele confere às idéias filosóficas:
"A obra demonstra que a filosofia não é um mero exercício
de reflexão crítica. É uma busca de saúde, da vida
boa, uma tentativa de salvar nossa própria pele".
Salvação é a palavra-chave do livro. A filosofia, na visão
de Ferry, é uma alternativa laica à religião: busca respostas
para a angústia fundamental que todo ser humano tem ao tomar consciência
de sua irremediável finitude. Aprender a Viver investiga as respostas
que diferentes escolas filosóficas deram a esse problema (leia o quadro
abaixo), encerrando-se com a alternativa do próprio Ferry, sua proposta
talvez excessivamente otimista de um novo humanismo secular, que
supere os becos sem saída construídos pela dúvida radical
de pensadores como o alemão Friedrich Nietzsche. São idéias
que o autor já apresentou, de forma mais "técnica", em livros anteriores,
como O Homem Deus e especialmente O que É uma Vida Bem-Sucedida?,
publicados no Brasil pela Difel. Aprender a Viver, porém, é
voltado especificamente para o leigo, e em particular para o leitor jovem. O título,
com certo jeitão de auto-ajuda, tem um apelo inegável, que talvez
responda por parte do sucesso da obra e talvez prometa mais do que este
ou qualquer livro pode dar. A busca da vida boa, virtuosa, é de
fato uma ambição ancestral dos filósofos. Qualquer resposta,
porém, será sempre provisória e insuficiente. O entusiasmo
de Ferry por seu humanismo secular não basta para matar a charada dessa
esfinge antiga.