Missionários
evangélicos já são maioria no
trabalho de catequização de índios no
país
Marcelo Bortoloti, de Sidrolândia
Oscar Cabral
O pastor Basílio e seus fiéis
na tribo terena (acima) e o quadro A Primeira
Missa no Brasil(abaixo): troca de papéis
Museu Nacional de Belas
Artes
A imagem de silvícolas
em volta de um padre, no altar, como no quadro A Primeira
Missa no Brasil, de Victor Meirelles, é coisa do
passado. A cena é outra na maioria das tribos indígenas
do país. Índios com a Bíblia sob
o braço, e não mais braços nus. Aderiram
ao figurino protestante, com trajes mais conservadores. Não
raramente, entoam cânticos de louvação
ao Senhor. Os índios brasileiros estão se tornando
evangélicos. O trabalho de catequese há décadas
deixou de ser uma exclusividade da Igreja Católica,
que perdeu terreno nessa área. Pastores evangélicos
tomaram seu lugar e hoje operam um vigoroso esforço
de conversão em massa. Já superaram os católicos
no número de missionários e contam com uma estrutura
logística completa, que inclui aviões e lingüistas
contratados para traduzir a Bíblia aos nativos.
Existem 222 tribos no país. Os católicos estão
em apenas 107 delas. Protestantes de denominações
como Batista, Adventista, Quadrangular e Assembléia
de Deus, por exemplo, já estão presentes em
153. Seu objetivo é claro: chegar a cada etnia "não
alcançada" por Jesus, fincar uma igreja e conduzi-la
pelo que consideram o caminho da salvação.
Na década
de 70, a Igreja Católica decidiu mudar sua posição
histórica em relação à catequese
indígena. Em 1972, criou o Conselho Indigenista Missionário
(Cimi), para gerir a relação com os índios,
e passou a pregar que a cultura nativa deveria ser preservada,
inclusive em suas crenças. Foi um flanco aberto para
que os missionários evangélicos avançassem
em peso por entre as aldeias mais remotas do país.
No Censo de 2000, 20% dos índios brasileiros se declararam
evangélicos. Em 1991, eles eram 13%. O porcentual dos
que se professam católicos caiu de 64% para 59% no
mesmo período. Hoje, os padres fazem apenas um trabalho
laico, de orientação política e assistência
social.
Um exemplo da força
da catequese evangélica é a tribo terena, que
possui nove aldeias na cidade de Sidrolândia, em Mato
Grosso do Sul, a 70 quilômetros de Campo Grande. É
uma das primeiras tribos brasileiras catequizadas por evangélicos,
que iniciaram os contatos na década de 40. Hoje, 75%
dos terenas se declaram "crentes". Os cultos acontecem quatro
vezes por semana. Eles têm uma rádio FM evangélica
e até uma banda gospel, a Kosseanu Ituko'ovit (em português,
Misericórdia de Deus). Também ali se repete
a prática da cobrança do dízimo. "Se
eu vendo dez frangos, um deve ser para a igreja", explica
o índio Benício Jorge. Os índios se orgulham
de ter-se distanciado do seu ritual sagrado, a pajelança.
Acreditam que, somente depois da Bíblia, o desenvolvimento
chegou às aldeias, que hoje têm luz elétrica
e água encanada. Seus usos e costumes também
cederam às diretrizes pentecostais. "É indecente
as mulheres usarem vestido curto ou short. O cabelo delas
também deve ser comprido. Está tudo escrito
na Bíblia", professa o índio pastor Basílio
Jorge, 57 anos. Ele deixou de beber aos 20 anos para se converter.
E hoje ministra cultos e sessões de exorcismo.
A Fundação
Nacional do Índio (Funai) não incentiva a entrada
dos evangélicos nas aldeias ao contrário.
Mas os próprios índios aceitam e defendem a
presença do pastor. Os protestantes se utilizam de
um expediente não explorado pelos católicos:
deixam a cargo dos nativos o trabalho de cuidar de suas igrejas
e arrebanhar novos fiéis. Existem no mínimo
quatro escolas evangélicas de formação
indígena, que ordenam uma média de vinte pastores
por ano no país.
Há pelo
menos 650 missionários evangélicos atuando na
catequização. O número é maior
que o de católicos do Cimi, que somam 420. A dinâmica
evangélica difere da prática jesuítica
em outro aspecto importante: para eles, traduzir a Bíblia
é uma prioridade. Nada menos que 34 povos já
ganharam o livro sagrado em seu idioma e existem outros 54
projetos em andamento. É um trabalho que leva em média
vinte anos e custa cerca de 600.000 reais por tradução.
O dinheiro, segundo eles, vem de doações de
fiéis. Sua estrutura logística também
salta aos olhos. Para levar os pastores a cada canto do país,
os evangélicos contam com a ONG Asas de Socorro, que
tem onze aviões, sendo três hidroaviões
que não necessitam nem de pista de pouso. Com uma engrenagem
assim, não há pajé que resista.