Economistas dizem
que o Brasil vai mal na educação por um motivo: falta pensar
no futuro
Camila
Antunes
Maira
Soares/Folha Imagem
Escola
pública: a qualidade do ensino é assunto secundário
Cinco décadas separam a educação brasileira da de países
emergentes como a China e a Coréia. A comparação com os países
ricos coloca o Brasil em situação ainda mais constrangedora: nesse
caso, o atraso é de 120 anos. O que falta aos brasileiros é uma
visão de longo prazo sobre o problema, afirmam os economistas Eduardo Giannetti
da Fonseca e o irlandês Dan O'Brien, especialista em nações
emergentes. A velha ineficácia do país em oferecer bom ensino será
o ponto de partida para uma palestra que os dois economistas farão na próxima
quinta-feira, a convite da Fundação Lemann (do ex-banqueiro Jorge
Paulo Lemann), em São Paulo. Ao estudar as raízes do fracasso brasileiro,
Giannetti detectou um padrão comum às autoridades que deram as diretrizes
à educação ao longo dos séculos, nos vários
níveis de governo: a mentalidade predominante sempre foi perseguir resultados
imediatos aos investimentos na escola sem focar em medidas cujos efeitos
positivos pudessem se dar depois da troca de poder. Isso explica o fato de parte
do orçamento para a educação ter se esvaído em obras.
Diz Giannetti: "No Brasil, encara-se a educação como um problema
de construção civil: as autoridades competem para saber quem mandou
erguer a escola mais vistosa".
A experiência de países onde a educação funciona, segundo
Dan O'Brien, reforça a idéia de que as escolhas brasileiras têm
passado longe do que de fato importa a um bom ensino: metas acadêmicas,
professores capazes de executá-las e um sistema preparado para cobrar os
resultados. É um conjunto aparentemente simples, mas que só foi
alcançado por países que, ao contrário do Brasil, souberam
canalizar os recursos às (menos visíveis) questões pedagógicas
e esperar pelos resultados ao longo de décadas. Um bom exemplo,
de acordo com O'Brien, vem de seu país de origem, a Irlanda. Na década
de 70, quando os irlandeses atolavam num índice de analfabetismo de 35%,
os líderes dos três maiores partidos políticos sentaram-se
à mesa para estabelecer metas detalhadas a ser cumpridas em sala de aula
nas décadas seguintes. O tal "pacto para o ensino", como ficou conhecido,
sobreviveu a quatro trocas de presidente e alçou a Irlanda a modelo de
boa educação. O Brasil, por sua vez, continua a ser lembrado por
um mau motivo: é o pior da turma nas comparações internacionais.