Pesquisa mostra
que freqüentar o jardim-de-infância tem efeito positivo ao longo
da vida escolar
Camila
Antunes
Saiu uma pesquisa que ajuda
a esclarecer uma questão angustiante da maternidade: mandar os filhos ainda
pequenos para a escola pode ser uma má decisão? O estudo chega a
duas conclusões sobre o assunto. A primeira serve de alerta aos pais que
optam por deixar os filhos longe das classes de jardim-de-infância
e é um alívio para as mães que trabalham fora: ingressar
cedo na escola não só não é prejudicial às
crianças como costuma ter conseqüências positivas no aprendizado
a longo prazo. Não é a primeira vez que um trabalho acadêmico
descortina os efeitos benéficos da escola nos primeiros anos de vida. O
mérito do atual estudo foi ter demonstrado isso por meio do mais detalhado
banco de dados já produzido sobre o assunto. Patrocinados pelo governo
americano, os pesquisadores monitoraram 1 300 crianças, da maternidade
aos 12 anos, a cada quatro meses. A metade delas ficou em casa até os 5
anos, entregue aos cuidados da mãe ou de uma babá, enquanto a outra
parte freqüentou a escola. Até a chegada da pré-adolescência,
os dois grupos foram submetidos a provas para medir o desempenho escolar. Resultado:
os estudantes enviados ao jardim-de-infância antes do ensino fundamental
se saíram melhor em todas as disciplinas testadas. Resume o psicólogo
James Griffin, um dos autores do trabalho: "Está claro que ir à
escola no princípio da vida faz parte de um conjunto de fatores que definem
o sucesso nos estudos".
O
segundo dado valioso da pesquisa joga luz sobre outra dúvida comum aos
pais: a melhor idade, afinal, para matricular os filhos. Muitas famílias
protelam essa decisão até as vésperas do ensino fundamental,
por volta dos 6, 7 anos (veja o quadro abaixo). O
trabalho revelou, no entanto, que é a partir dos 3 anos que a escola passa
a ser mais proveitosa. Antes disso, o que mais pesa em favor do desenvolvimento
intelectual das crianças são o afeto e a atenção individual
não importando se vêm de casa ou da creche. Depois dessa fase,
estar num ambiente com outros adultos e crianças funciona como alavanca
ao aprendizado e isso repercute ao longo do restante da vida escolar. Eis
um exemplo extraído da pesquisa americana: aos 12 anos, os estudantes que
haviam freqüentado a pré-escola apresentavam vocabulário mais
rico do que o restante da turma. Uma das explicações, defendida
por esses e outros especialistas, é que, ao se limitar ao contato com a
mãe ou babá, a criança toma familiaridade com um único
jeito de se expressar e tende a se concentrar no vocabulário mais empregado
em casa. "A escola, por sua vez, a expõe à diversidade", afirma
Griffin.
O que resta aos pesquisadores
compreender melhor são as conseqüências do ingresso na escola
para o desenvolvimento emocional. Nesse campo, está claro que uma passagem
pelo jardim-de-infância favorece a autonomia e antecipa o aprendizado sobre
a convivência em grupo. Outro fato comum às crianças matriculadas
na escola antes dos 5 anos chamou atenção no estudo americano: aos
12, elas são mais agressivas em sala de aula do que os colegas, de acordo
com a avaliação feita pelos professores com base num conjunto objetivo
de questões. A observação sistemática dessas crianças
em seus primeiros anos de vida sugere que, na escola, elas se lançam mais
cedo à luta por atenção do que aquelas que ficaram entregues
aos cuidados maternos (mesmo quando há irmãos em casa). É
uma hipótese a ser investigada. O que os especialistas já sabem
e o novo estudo confirma por meio de uma fartura de dados qualitativos
é que o cenário mais favorável ao desenvolvimento
pleno das crianças, dos 3 anos em diante, combina dois fatores de pesos
semelhantes: um ambiente familiar rico em estímulos e uma boa escola. Conclui
o psicólogo Jay Belsky, um dos autores do trabalho: "Os melhores resultados
escolares se dão quando a família é parte ativa na educação".