O pragmático
Nicolas Sarkozy é o favorito no primeiro turno da eleição
presidencial na França, onde três candidatos disputam a segunda
vaga e a metade dos eleitores ainda não decidiu em quem vai votar
Antonio
Ribeiro, de Paris
Jean
Paul Pelissier/Reuters
Sarkozy
quer uma França que acorde cedo e trabalhe. O eleitor gosta dele, mas está
em dúvida sobre acordar cedo
Mais
de 100 pesquisas de intenção de voto para a eleição
do presidente da França foram realizadas desde o início do ano.
A escolha desperta nos franceses interesse sem paralelo em meio século.
Os eleitores inscritos aumentaram, proporcionalmente, acima do crescimento populacional.
As projeções prevêem um índice de abstenção
o voto não é obrigatório três vezes menor
do que na última eleição presidencial. Uma semana antes de
44 milhões de franceses irem às urnas, no próximo domingo,
22, as sondagens indicam uma disputa fratricida entre três aspirantes a
uma vaga no segundo turno. Já a posição de favorito é
ocupada pelo mesmo postulante desde 2003, quando Nicolas Sarkozy, o candidato
de centro-direita, contou aos seus compatriotas em um programa de TV que ao se
barbear diante do espelho via a imagem do futuro presidente da França.
A franqueza em um país onde políticos prolixos dizem quase nada
de substancial contribuiu para colocar Sarkozy em evidência. No jogo da
verdade, marcou seu milésimo gol ao identificar os vândalos das periferias
das grandes cidades como "escória" da sociedade francesa. As propostas
do candidato para debelar o desemprego crônico, reformar o decrépito
estado provedor, reduzir o colossal déficit público e promover um
crescimento econômico robusto são consideradas brandas em muitos
países. No entanto, essas medidas necessárias são ousadas
para os padrões franceses, ainda que a maioria dos eleitores agora flerte
com a direita, muitas vezes, em segredo pelo temor da patrulha ideológica.
Ministro do Interior do apático governo de Jacques Chirac o padrinho
político com quem teve confrontos notórios , Sarkozy baixou
a criminalidade, preocupação número 1 nas últimas
eleições presidenciais. Mas é pela desenvoltura ao abordar
temas sensíveis e controversos, como o controle da imigração,
a falta de apego ao trabalho e os limites dos direitos individuais, que o candidato
causa um misto de medo, respeito e, às vezes, espanto. Como ao declarar
ser genética a origem da pedofilia. Quando é considerado o mais
ambicioso político da Europa, Sarkozy não se queixa. Diz ele: "Minha
vida, minha paixão, é a ação; piso fundo e continuo
acelerando". Pragmático, ele acha a França, atolada pelo imobilismo,
carente de "ruptura" com o passado. Acredita que sem voluntarismo o dele,
evidentemente o país irá de mal a pior.
Jean-Christophe
Verhaegen/AFP
O
belo sorriso de Ségolène: a proposta de mais assistencialismo não
convence a maioria
Quatro
em cada dez eleitores franceses ainda não decidiram em quem votar. Por
duas razões. Nenhum candidato suscita uma adesão natural. As sociedades
democráticas são propícias à indefinição
eleitoral porque têm o livre-arbítrio como princípio fundamental.
Esse conceito permite a impressão de que a decisão de última
hora está mais próxima do acerto ou do erro menor. Por outro lado,
a tradição mostra que a distribuição dos votos indecisos
se dá de forma equivalente à dos já decididos. A segunda
colocada na corrida presidencial, a socialista Ségolène Royal, diz
ter gasto metade da campanha ouvindo os franceses para elaborar seu programa.
Por "franceses" leia-se militantes do Désirs d'Avenir, movimento criado
por ela fora do Partido Socialista, cujos caciques foram contra sua candidatura.
Num primeiro momento, Ségolène prometeu um estado de bem-estar social
ainda mais assistencialista. Transformada em realidade, sua promessa vai cavar
mais fundo o buraco de 1,2 trilhão de euros da dívida pública
e colocar mais recursos nas mãos do estado, que atualmente fica com 46%
de toda a riqueza produzida no país. Agora, Ségolène propõe
uma bandeira francesa em cada lar. Se isso não reduz um tostão dos
impostos pesados, demonstra o patriotismo, tema querido à extrema direita
de Jean-Marie Le Pen.
Enquanto Ségolène capricha para ganhar simpatizantes no campo adversário,
ela perde votos para François Bayrou, o candidato do centro. Bayrou tem
chances como azarão porque o eleitor desconhece para onde Ségolène
vai e sabe muito bem aonde Sarkozy quer chegar. O centrista propõe a troca
da velha batalha entre a esquerda e a direita por uma temática suprapartidária,
sob seu comando. A proposta tropeça no tamanho de seu partido: apenas 27
deputados dos 577 da Assembléia Nacional. Ele não conseguiria formar
um governo no regime parlamentar francês sem aliar-se a um de seus adversários
atuais ou mesmo a ambos. Uma curiosidade: Bayrou está 6 pontos porcentuais
atrás de Ségolène. Se chegar ao segundo turno, as pesquisas
o apontam vitorioso contra qualquer adversário.
Na semana passada, em uma rara e discreta visita a território hostil, Sarkozy
assistiu à cerimônia de concessão de cidadania francesa a
quarenta imigrantes num subúrbio de Paris. Le Pen aproveitou para dar uma
estocada no adversário que lhe tira votos. Dias antes, ele flanou pela
periferia para mostrar que não é recebido nos bairros pobres, cheios
de imigrantes de origem árabe, com a mesma animosidade que Sarkozy. Le
Pen insiste que o presidente da França deve ser como ele, ou seja, de cepa
100% nacional. Sarkozy, filho e neto de imigrantes húngaros, não
dispõe do pedigree. Esse tipo de abordagem provoca polêmica, mas
passa longe das principais expectativas dos franceses nestas eleições:
as propostas para criar empregos e garantir a eficiência do sistema previdenciário.
Todos os candidatos foram unânimes em criticar a indenização
de 8,4 milhões de euros paga a Noël Forgeard, ex-presidente da Eads,
holding da Airbus. A crise da Airbus e dela deriva o plano para demitir
10 000 franceses deve-se, sobretudo, à opção por decisões
políticas, influenciadas pelos acionários estatais, em detrimento
dos imperativos comerciais. Nenhum candidato ousou tocar na ferida. O caso Forgeard
serviu para reforçar a caricatura do patrão endinheirado, cuja exploração
eleitoreira rivaliza com os recorrentes ataques ao "poder global dos EUA". Em
termos de antiamericanismo, Sarkozy representa outra exceção na
classe política francesa. Os mais ponderados viram como um despropósito
a visita do candidato à Casa Branca. Os mais radicais encararam como traição.
O futuro presidente da França, seja quem for o escolhido, e a julgar pela
campanha eleitoral, não está inclinado a aliviar as barreiras alfandegárias.
Isso significa que os produtos agrícolas brasileiros continuarão
onerados por sobretaxas na França. O Brasil, o maior parceiro comercial
da França na América Latina, tampouco deve esperar dela agrados
nas negociações da Rodada de Doha, sobre comércio internacional.
Se eleito, Sarkozy deseja executar reformas nos dois primeiros anos de seu mandato
de cinco. No bojo das propostas está a abolição da jornada
de trabalho de 35 horas semanais, uma extravagância francesa. "Eu me comprometo
a reduzir o desemprego de 9% para 5%, como os ingleses fizeram", diz ele. Sarkozy
já escolheu o seu primeiro-ministro. Será o senador e ex-ministro
da Educação François Fillon, autor da reforma previdenciária,
conhecido por enunciar, no calor de um debate, a regra simples: "Quanto mais impostos,
menos empregos".