Lula lança
mão da força do governo para assegurar uma nova prorrogação
da CPMF
Diego
Escosteguy
Ricardo
Stuckert/PR
Lula
discursa para prefeitos em Brasília: 1,3 bilhão de reais é
o preço do apoio
A
CPMF, tributo criado para durar pouco e arrecadar recursos para gastos emergenciais
com saúde, sempre causou polêmica. Sigla para contribuição
provisória sobre movimentação financeira, ela há muito
deixou de ser provisória e tampouco pode ser chamada de contribuição.
Quando o presidente Fernando Henrique Cardoso instituiu o tributo, em 1996, houve
uma grita generalizada. O PT, por exemplo, disse que o tributo era inconstitucional
e foi reclamar até no Supremo Tribunal Federal, sem sucesso. Seguiram-se
quatro renovações, a última delas em 2003 todas sob
a estridente oposição dos setores produtivos da economia. Em dezembro
deste ano, a CPMF perderá a validade, a não ser que o tributo seja
prorrogado pela quinta vez. Para assegurar uma nova renovação, o
governo botou o bloco na rua. Nos últimos dias, o presidente Lula fez acordos
com governadores, prometeu dar uns caraminguás aos prefeitos e ameaçou
demitir apaniguados da base aliada no governo tudo para garantir que o
Congresso aprove a prorrogação da CPMF até o fim de seu mandato,
em 2010. O que mostra que, na reforma tributária, aquela que não
existe, o único interesse do governo é sempre o mesmo: prorrogar
a CPMF.
Cada vez pior
Há dez anos, a mordida da CPMF correspondia
a0,74%
do PIB. Hoje, corresponde a1,38%
do PIB
O
governo tem motivos de sobra para tentar manter viva a contribuição.
Atualmente, a CPMF responde por 8% de tudo o que a Receita Federal arrecada. Somente
no ano passado, a contribuição rendeu 32 bilhões de reais
aos cofres públicos. É o equivalente ao orçamento anual da
Pasta da Saúde, o mais colossal da Esplanada dos Ministérios. Hoje,
toda vez que uma pessoa ou empresa faz uma operação bancária,
0,38% do valor dessa transação vai parar nas contas do governo.
A característica perversa da CPMF consiste em arrancar o mesmo 0,38% dos
ricos e dos pobres, além de atingir todas as etapas da produção
de um bem, como a fabricação, a distribuição e a revenda
o que encarece o preço final de qualquer produto. "A CPMF é
um tributo injusto e deveria acabar, mas o estado se tornou refém dele",
diz Gilberto Amaral, presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário.
"O governo vai fazer de tudo para prorrogá-lo."
No mais recente lance desse vale-tudo, Lula prometeu, em discurso na semana passada
para 3.000 prefeitos em Brasília, empenhar-se para que o Congresso aprove
um aumento na participação dos municípios na arrecadação
do governo federal em troca, é claro, do apoio dos prefeitos para
que a CPMF seja renovada. O agrado do presidente poderá render 1,3 bilhão
de reais aos cofres das prefeituras. No mês passado, também em busca
de apoio político, Lula já prometera aos governadores dividir parte
da receita do tributo com os estados. Enquanto fazia promessas em público,
o presidente distribuía ameaças nos bastidores. Numa reunião
com aliados na segunda-feira, disse que não vai admitir vacilos na votação
da CPMF no Congresso, sob pena de retaliar com demissões nos tão
disputados cargos de indicação política do segundo escalão.
Tanto esforço deverá resultar em mais cinco anos de tunga no bolso
do contribuinte.