Entrevista: Fabio
Colletti Barbosa O lucro é verde
Para o novo presidente da Febraban,
empresas que respeitam leis ambientais duram mais, lucram mais e ainda
pagam menos juros
Giuliano
Guandalini
Fabiano Accorsi
"É
possível respeitar o meio ambiente e ser lucrativo, crescer e ser socialmente
responsável"
Há oito anos, o banqueiro Fabio Colletti Barbosa tomou uma decisão
aparentemente contrária aos interesses dos acionistas do Banco Real, instituição
que preside. Barbosa decidiu criar linhas de crédito em condições
especiais para clientes com boas políticas ambientais, e recusar empréstimos
a empresas que, embora tivessem capacidade de pagamento, desrespeitassem o meio
ambiente ou fossem tolerantes com práticas trabalhistas inaceitáveis.
A decisão, que se mostrou acertada, transformou Barbosa, que acaba de ser
empossado na presidência da Federação Brasileira de Bancos
(Febraban), em uma das maiores referências em sustentabilidade no mundo
dos negócios. Não apenas pelos critérios éticos de
sua orientação, mas por conciliá-los com perfeição
na busca por lucros. O Real é hoje o terceiro maior banco privado do país
em ativos e passou a responder por 17% dos resultados de seu atual controlador,
o banco holandês ABN AMRO. Formado em administração pela Fundação
Getulio Vargas, casado e com três filhos, Barbosa, 52 anos, diz que uma
de suas prioridades na Febraban será desfazer a má imagem
segundo ele, injusta que os brasileiros têm dos bancos.
Veja Um país como o Brasil
pode crescer sem afetar negativamente o meio ambiente? Barbosa
Esse é um falso dilema. É possível respeitar o meio
ambiente e ser lucrativo, crescer e ser ambiental e socialmente responsável.
Mesmo na China, onde até pouco tempo atrás não havia essa
preocupação, isso já começou a mudar. Os chineses
criaram o seu Dia da Árvore e estão investindo em reflorestamento.
O que percebemos na prática é que as empresas que gerenciam melhor
o impacto ambiental são justamente as que representam o menor risco de
crédito. E, por isso, pagam menos juros.
Veja
Por que isso ocorre? Barbosa Porque essas
empresas também gerenciam melhor outros aspectos de suas atividades. Prova
disso é que os fundos dedicados a investimentos sustentáveis, criados
recentemente, têm registrado um retorno financeiro acima da média.
Ou seja, os investidores confiam mais na gestão financeira de empresas
ambientalmente sustentáveis. O professor de Harvard Michael Porter, uma
referência internacional na área de negócios, analisou justamente
o elo entre vantagem competitiva e responsabilidade social e ambiental. Ele afirma
que não se trata de uma coisa "ou" outra. Estamos no mundo do "e"
ou seja, crescimento "e" responsabilidade. A empresa pode e deve fazer os dois,
porque ela se torna melhor quando faz os dois. Por isso, trata-se de um falso
dilema.
Veja O senhor não teme que a sustentabilidade se transforme num modismo vazio
ao qual empresas aderem mais por conveniência do que por convicção? Barbosa Por convicção ou por conveniência,
o fato é que as melhores empresas e alguns países estão repensando
sua maneira de fazer negócios. Por crença ou por pressão
da sociedade, não importa. O assunto sustentabilidade está na pauta
de todos os executivos. Sem falar que as empresas que não respeitam as
leis ambientais estão sujeitas a multas milionárias, o que compromete
a própria existência delas. O assunto passou a fazer parte da estratégia
de negócios de qualquer companhia. Isso é bom e veio para ficar.
Virou negócio. Não é à toa que aparecem a cada dia
novas tecnologias, desenvolvidas a partir da própria pressão da
sociedade, como os promissores carros elétricos. Obviamente há um
certo exagero de algumas ONGs, mas isso é normal. Um dia chegaremos a um
equilíbrio.
Veja
Mas qual é o significado exato de sustentabilidade ou de
responsabilidade social? Pode-se considerar socialmente responsável uma
empresa que mantém ações sociais e ambientais corretas, mas
que não paga impostos e vive na informalidade? Barbosa
Ainda há muito a ser feito no campo da responsabilidade social, mas
não seria construtivo invalidar o esforço feito na direção
correta só porque o movimento não está completo. É
preciso reconhecer que pessoas estão sendo levadas à contravenção
por um sistema tributário e trabalhista que se prova quase indutor de comportamentos.
Não podemos condenar todos os que estão nesse caminho. Precisamos
atacar as causas que estão levando empresas e pessoas a trabalhar nesse
ambiente de contravenção. Essas pessoas não são, em
sua maioria, contraventoras por natureza. Para contornar isso, precisamos não
apenas de reformas como a tributária e a trabalhista, mas também
de uma reforma de valores. É preciso reconhecer que existe uma certa leniência
ao chamar de informalidade o que, na verdade, é ilegalidade, e como tal
precisa ser tratada.
Veja
Não faz parte da responsabilidade social dos bancos informar
seus clientes sobre os riscos do endividamento exagerado? Barbosa
O endividamento, no Brasil, é algo relativamente novo. Precisamos
nos adaptar. Mas já são várias as iniciativas dos bancos
nesse sentido. Alguns produziram cartilhas nas quais explicam quais as formas
mais baratas de financiamento diante da necessidade de cada pessoa. Gerentes também
têm sido treinados para prestar esse tipo de orientação. A
Febraban tem uma cartilha que orienta os consumidores a respeito dos riscos do
endividamento. Como presidente da Febraban, pretendo intensificar a transparência
dos bancos para com seus clientes.
Veja
Por que os bancos, de forma geral, não têm avaliação
muito positiva da população? Barbosa Essa
imagem negativa nos preocupa muito, mas ela não é exclusiva dos
bancos brasileiros. Não podemos nos esquecer de que as instituições
financeiras estão na posição ingrata de cobrar empréstimos
em qualquer lugar do mundo. Mas há um aspecto histórico brasileiro.
No passado, a inflação prejudicou demais a transparência do
relacionamento do cliente com a instituição financeira. Os prazos
de empréstimos eram curtíssimos, não havia confiança
na moeda. Não existiam tarifas, porque os bancos ganhavam com o dinheiro
parado nas contas. Isso mudou completamente. Além do mais, acho que a expectativa
sobre os serviços que devem ser prestados pelos bancos precisa ser mais
bem compreendida.
Veja
Os lucros dos bancos parecem exagerados, se comparados ao desempenho
do resto da economia... Barbosa Não são apenas
os bancos que vivem um momento especial, mas todo o país. A inflação
está equacionada há mais de dez anos, as reservas internacionais
passaram de 100 bilhões de dólares e o crescimento econômico
se mantém estável. O bom desempenho do crédito e dos bancos
se deve em parte a isso. O volume de financiamentos tem crescido, nos últimos
anos, em uma média superior a 20% ao ano. Isso ocorreu tanto por causa
do crescimento econômico como por causa de alguns ajustes institucionais
que foram feitos. Em especial, o crédito consignado e novas regras no setor
de financiamento imobiliário. O crescimento não ocorre naturalmente.
É preciso desobstruir alguns canais. Ainda há muito a ser feito.
No setor de crédito, precisamos discutir, por exemplo, a carga de impostos
sobre os empréstimos.
Veja
Os juros bancários cobrados no Brasil caíram, mas
ainda estão entre os maiores do mundo. Por quê? Barbosa
Os juros cobrados pelos bancos têm caído, mas há
mais pessoas tomando dinheiro emprestado. A base de credores cresceu e estamos
trabalhando com uma clientela nova. Não conhecemos o histórico bancário
desses novos clientes, que, por esse motivo, tendem a pagar taxas mais elevadas.
Foi bom que isso tivesse acontecido, porque mais pessoas e empresas tiveram acesso
ao crédito.
Veja
Há quem diga que não existe competição
entre os bancos no Brasil. Barbosa Não vejo nenhuma
evidência de que não exista concorrência no sistema financeiro.
A disputa entre bancos e outras instituições financeiras é
fortíssima, particularmente nas áreas do crédito consignado
e no financiamento de automóveis, em que as taxas de juro são bastante
baixas.
Veja Que papel deve exercer o sistema bancário em uma economia como a brasileira? Barbosa Os bancos, quando executam bem o seu papel, aprimoram
a alocação de recursos e impulsionam a economia. É importante
que o sistema financeiro esteja azeitado para cumprir bem as tarefas que lhe cabem.
São três essas tarefas: rentabilizar a poupança que lhe foi
confiada; financiar o consumo e o investimento; e efetuar pagamentos. Ao cumprirem
bem essas três funções, os bancos ajudam a economia como um
todo. Um exemplo do papel do setor financeiro para o progresso econômico
é o fato de, hoje, o mercado de capitais, por meio da emissão de
títulos e ações, prover mais recursos do que o Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). No ano passado foram 52 bilhões
de reais liberados pelo BNDES contra 125 bilhões de reais captados no mercado
privado. Além disso, a quantidade de pessoas que possuem conta bancária
vem crescendo rapidamente. O número de contas, que era de 64 milhões
em 2000, chegou a 95 milhões em 2005. Os bancos têm ampliado o acesso
a contas e a empréstimos. Muitas pessoas que viviam fora do sistema financeiro
hoje podem consumir a crédito, investir em novos negócios.
Veja Esse
bom momento do mercado de capitais tem sido, em parte, reflexo de uma fase de
crescimento mundial recorde. Até quando isso vai durar? Barbosa
O grande motor desses anos de crescimento tem sido a China, e ainda
não entendemos a fundo qual o seu impacto na economia mundial nem por quanto
tempo isso se manterá. Ousaria dizer que o que está acontecendo
com a China hoje se compara à ascensão americana a partir do século
XIX e início do século XX. A queda na cotação do dólar
se deve em parte à alta no preço das commodities exportadas pelo
Brasil, puxada pelo consumo chinês.
Veja
Na balança, o impacto da ascensão da China sobre a
economia brasileira é positivo ou negativo? Barbosa
O forte crescimento do comércio mundial, que tanto ajudou o Brasil nos
últimos anos, tem sido suportado em grande escala pelo avanço chinês.
O Brasil tem uma economia complementar à chinesa e se beneficia dessa relação.
A China precisa de matérias-primas e alimentos que são produzidos
pelo Brasil. Dito isso, alguns setores enfrentam muita dificuldade para competir
com os chineses. Mas a China é uma realidade que veio para ficar.
Veja Qual
é o impacto da valorização do real na economia? É
possível contê-la? Barbosa A valorização
do real é uma resultante de um cenário positivo que deve perdurar
por algum tempo. Conforme o país se torna mais estável e com maior
expectativa de crescimento, ele passa a atrair mais investimentos, o que também
colabora para a apreciação do real. Em economia nunca é possível
que todos os setores estejam contentes ao mesmo tempo com uma determinada taxa
de câmbio. Não vi, até o momento, nenhuma proposta coerente
para reverter os efeitos negativos do câmbio. Se o dólar voltasse
a 4 reais, certamente traria benefícios para alguns, mas seria negativo
para muitos outros. A valorização tem um aspecto positivo, que é
estimular a busca pela produtividade. O importante é que o consumidor seja
o principal beneficiado, com produtos melhores e mais baratos.
Veja O que o senhor espera do segundo
mandato do governo Lula? Barbosa O governo foi muito firme
na manutenção de alguns princípios que asseguram um horizonte
positivo ao crescimento econômico. Os dois pilares fundamentais foram o
combate à inflação e o equilíbrio das contas públicas.
O cenário internacional permanece favorável. Diante da falta de
recursos públicos, o país deveria aproveitar o bom momento para
fazer reformas e acelerar o crescimento. Para isso seria fundamental atrair investimentos
do setor privado. O nível atual dos investimentos é insuficiente
para aumentar o patamar do crescimento econômico.
Veja O que o senhor pretende fazer,
como presidente da Febraban, para eliminar essas barreiras? Barbosa
Em primeiro lugar, uma aproximação cada vez maior com
os outros setores da economia indústria, agricultura, construção
civil, comércio exterior. Existe uma interdependência muito grande
entre os setores. No fundo, nossos interesses são convergentes, todos queremos
mais crescimento. Precisamos desobstruir outros canais para que os juros possam
cair e o crescimento, aumentar. Não existe conflito, mas sim convergência
de interesses entre bancos e empresas. Não dá para ter empresas
fortes sem uma economia saudável, nem é possível ter uma
economia saudável se as empresas não forem fortes e isso
inclui os bancos. Não há como os bancos lucrarem sem que as empresas
estejam bem. O momento é oportuno para promover essa convergência.