Stephen
Kanitz
Empresários
sem futuro
"Nossos
deputados votaram a favor dos grupos
controladores na última reforma da Lei das S.A.
e largaram no limbo os 16 milhões de pequenos
acionistas, os trabalhadores e
seus fundos de
pensão, que continuam sem ter sequer
o direito de votar"
Ilustração Ale Setti
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Para os economistas, o empresário é um "maximizador
de lucros", um egoísta que sempre almeja o lucro
máximo. É essa premissa básica que
dá à ciência econômica sua dinâmica
e previsibilidade e permitiria, se não fosse equivocada,
que nossos economistas fizessem previsões corretas.
Por razões culturais que não nos cabe julgar,
o objetivo dos empresários brasileiros é maximizar
o controle acionário. O importante, no Brasil, não
é o lucro máximo, e sim manter o controle
de 100% da empresa na família.
Se existir um negócio que propicie lucros maiores,
mas que exija a abertura ou diluição do controle
da empresa, a maioria dos nossos empresários opta
por ficar de fora. Preferem ter 100% ou 51% de uma empresa
pequena a ter 15% de uma enorme empresa. Em contrapartida,
Bill Gates, que pretende doar tudo ao terceiro setor, não
se preocupa a mínima em ter somente 15% de uma enorme
Microsoft.
Esse objetivo cultural não consta nos livros de Keynes,
Marx e Friedman, razão pela qual a ciência
econômica não funciona no Brasil: as premissas
básicas são outras e implicam uma política
econômica totalmente diversa para o Brasil, algo que
nunca foi feito. Vejamos as implicações:
1. Nossas empresas só crescem o que o reinvestimento
de seus lucros permitir. Como conseqüência, precisam
criar produtos de luxo, que comandam margens estratosféricas,
no lugar de produtos populares, com margens reduzidas mas
produção e investimentos em massa.
2. Nossos empresários preferem abrir mão do
crescimento a perder o "controle acionário" crescendo
rapidamente. Fusões e incorporações
para competir globalmente, nem pensar. A maioria das empresas
americanas opera globalmente, e nós temos no máximo
cinco empresas brasileiras operando multinacionalmente.
3. Empresário brasileiro não exporta nem com
câmbio superfavorável, ao contrário
das famosas previsões de Delfim Netto.
4. Empresas americanas com funcionários acionistas
não têm caixa dois nem sonegação.
Todos são fiscais de si mesmos, para a alegria da
Receita Federal.
5. Nossos empresários preferem viver endividados
a compartilhar a empresa com pequenos acionistas, gerando,
assim, nossas constantes crises da dívida. Temos
menos de 56 empresas em bolsa, a Índia tem 6.000.
6. Deputados ligados a esses empresários elaboraram
uma Lei das S.A. que protege o controlador, e não
o acionista. No Brasil, pequeno acionista nem direito a
voto tem, algo totalmente inconstitucional em um país
democrático. Nossos empresários boicotam aprimoramentos
da lei e aplaudem de pé a morte lenta de nosso mercado
acionário, fechando o capital de suas empresas.
Incapazes de vislumbrar o futuro, nossos empresários
esquecem que seus filhos, netos e bisnetos um dia serão
pequenos acionistas minoritários. Estão dando
um tiro no próprio pé, e em seu patrimônio.
Empresas no Brasil valem pífias quatro ou cinco vezes
seus lucros anuais. Na Europa e na Índia chegam a
valer sessenta vezes, porque lá se maximiza o lucro
e o acesso a mais capital.
Nem os filhos desses empresários ficam felizes com
essa situação. Não podem vender sua
participação e seguir vida própria
nem vender 1% das ações para comprar uma Ferrari.
Passam a vida no "conselho", sonhando em vender tudo para
uma multinacional.
Infelizmente, nossos deputados do PT, PMDB e PSDB votaram
inadvertidamente a favor dos grupos controladores na última
reforma da Lei das S.A. e largaram no limbo os 16 milhões
de pequenos acionistas, os trabalhadores e seus fundos de
pensão, que continuam sem ter sequer o direito de
votar.
Agora a discussão da Lei das S.A. vai para o Senado.
Vamos observar de que lado o Senado votará. Lá,
pelo menos, esse direito ainda existe.
Stephen
Kanitz é administrador e pequeno acionista
(www.kanitz.com.br)