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Roberto
Pompeu de Toledo
Nossa
época apresenta
a
síndrome
do
desânimo em
buscar uma
verdade, qualquer
verdade
Não há mais gurus. Não há mais
líderes e não há mais gurus. Não
há mais líderes como Churchill, Roosevelt e
Mao Tsé-tung, condutores de povos, heróis de
guerras e revoluções, e não há
gurus intelectuais como Jean-Paul Sartre ou Raymond Aron,
para ficar na terra dos gurus intelectuais por excelência
que é a França. O clima que prevalecia ao tempo
dos gurus intelectuais foi reconstituído com o brilho
habitual por Gilles Lapouge, correspondente do jornal O
Estado de S. Paulo em Paris, num artigo comemorativo do
centenário do nascimento desse "outro pai da psicanálise",
como diz o título do artigo, que foi Jacques Lacan
(O
Estado de S. Paulo, 8/4/2001).
Lapouge narra com a autoridade de testemunha ocular da História,
freqüentador que foi das palestras de Lacan, nos anos
60, o ambiente em que elas se davam. "Havia 300, 500 ouvintes.
Havia atropelos e os lugares eram disputados. As pessoas tornavam-se
rudes como lobos."
A fama de Lacan espalhara-se para muito além dos círculos
de especialistas depois da publicação de seu
primeiro livro, Escritos, em 1966, quando o autor já
atingia os 65 anos. Suas palestras, às quartas-feiras,
na École Normale Supérieure, já de si
um templo da sabedoria francesa, atraíam não
só psicanalistas, psiquiatras e filósofos, mas
de estudantes a senhoras com tempo livre para investir no
aprimoramento intelectual, passando por artistas de vanguarda
e jovens candidatos a escritor que, dentro de si, berçavam
"o" romance, aquele romance definitivo que, sabiam, estavam
fadados a legar à humanidade. Alguns, conta Lapouge,
levavam gravador para aprisionar, como passarinho na arapuca,
a palavra do mestre. Outros "fechavam os olhos e balançavam
a cabeça, com um sorriso de êxtase nos lábios".
E aqueles complicadíssimos conceitos, de "inconsciente
como linguagem", "nome do pai", "imaginário, simbólico
e real", eram sorvidos como um evangelho. Não era preciso
entender. Aliás, era recomendável não
entender. Aumentava a distância entre mestre e discípulo
e, em conseqüência, o prestígio e o mistério
do mestre. O Evangelho também está cheio de
conceitos difíceis "No princípio era
o Verbo" , e isso só lhe aumenta o prestígio
misterioso. Um ambiente como o daquelas palestras, hoje em
dia, só num baile funk, pelo entusiasmo, ou numa igreja
pentecostal, pela devoção. Diante de um intelectual,
expondo suas teorias, é inimaginável até
mesmo na França da École Normale Supérieure
"Normale Sup", para os íntimos.
Não existem mais intelectuais do porte de Lacan? Ou
não existe mais público como aquele? Voltemos
aos líderes políticos. Não é que
não existam mais Churchills ou Maos. O que não
existe são as guerras e revoluções que
os produzem. Ao mesmo tempo e talvez mais importante
não há a mesma disponibilidade do público
em aceitar heróis. O público logo enxerga as
fragilidades e os podres dos líderes. Se não
enxerga, a imprensa não tarda em abrir-lhe os olhos.
Ficou-se menos ingênuo. Talvez, no caso dos gurus intelectuais,
se possam arriscar respostas análogas. Não é
que não existam intelectuais de porte. O que não
existe são guerras e revoluções intelectuais
como as de outrora as desencadeadas pela psicanálise,
pelo existencialismo ou pelo marxismo. Ao mesmo tempo, o público,
também nesse campo, não está mais tão
disponível. Ficou mais cético, mais relutante
em aceitar guias intelectuais e doutrinas. Isso é bom?
É ruim? Talvez seja bom, quando se tem em conta quanto
as doutrinas conduzem à ortodoxia, daí à
intolerância e à tirania política,
intelectual ou psicológica. Talvez seja ruim, se se
considera que o ceticismo, quando passa da conta, conduz à
lassidão e à abulia. Se nosso tempo não
apresenta mais o fervor algo caricato das platéias
de Lacan, tal como descritas por Lapouge, apresenta outro
sintoma. O do desânimo em procurar uma verdade, qualquer
verdade.
Gilles
Lapouge conta que uma vez foi entrevistar Lacan, na casa do
mestre. Eram 9 da noite. Os dois sentaram-se, e Lacan tocou
um sininho para chamar a empregada. Esta lhe trouxe um ovo
cozido. "Fiquei observando enquanto comia seu ovo cozido",
prossegue Lapouge. "Ver o pensador descascar o ovo era uma
das chances de minha vida." Eis uma cena luminosa. Lapouge
ficou pensando se não seriam os dois dignos, naquele
momento, de uma tela de Rembrandt, ou de uma gravura de Dürer.
Pode-se compor outro quadro. Ver Lacan descascando o ovo equivale
a flagrar De Gaulle vestindo o pijama, ou Picasso escovando
os dentes. À primeira vista, são momentos que
ternamente diminuem os grandes homens, trazendo-os à
escala das pessoas comuns. Mas isso só à primeira
vista. Na verdade, são momentos que lhes duplicam a
magnitude. Mostram que além de descomunais, como normalmente
os julgamos, tais homens podem ser, também, comuns.
O ovo promove Lacan ao nível de prodígio dos
seres que, nas mitologias e nas religiões, são
deuses e homens ao mesmo tempo.
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