Festa
das traças
Bibliotecas do país deixam na mão
o leitor
que
quer ficar a par das novidades literárias
Flávio
Moura
Fotos Janduari Simões/Liane Neves
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Fotos Janduari Simões/Liane
Neves
| Biblioteca
Pública Estadual Arthur Vianna, em Belém
Acervo circulante: 17 000
livros
Média de empréstimos por mês: 3
000 |
Biblioteca
Pública do Estado do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre
Acervo circulante: 10 000
livros
Média de empréstimos por mês: 1
000 |
Considerado
um dos maiores escritores americanos do século XX,
Philip Roth nunca se esqueceu da experiência de freqüentar,
na infância, a biblioteca do subúrbio onde morava.
"Como minha família não possuía muitos
livros, nem o dinheiro que permitisse a uma criança
comprá-los, era bom saber que eu poderia ter acesso
a qualquer volume naquele prédio austero", escreveu
ele certa vez. "Que confiança me inspirava andar por
entre as prateleiras para nelas encontrar a obra desejada.
Finalmente, levar para a cama um livro que tinha sua linhagem
de leitores, à qual eu acabava de acrescentar meu nome."
Se Roth tivesse crescido numa cidade brasileira, contudo,
é provável que jamais houvesse redigido essas
palavras. Décadas de desmazelo deixaram as bibliotecas
do país próximas do caos e com os acervos bastante
defasados. Dois tipos de usuário até encontram
ali o que desejam: colegiais às voltas com trabalhos
escolares e pesquisadores em busca de velhas obras. Mas bibliotecas
não são apenas locais de estudo. Deveriam servir
também como centros de entretenimento, informação
e atualização cultural, papel que mal vêm
cumprindo por aqui. O leitor que conta com o gabinete de leitura
de sua cidade para manter-se em dia com as novidades literárias
dificilmente ficará satisfeito. As listas de "mais
retirados" de algumas das maiores bibliotecas brasileiras
revelam um curioso anacronismo: são formadas por sucessos
das décadas de 70 e 80 (veja
quadro).
Conseguir informações consolidadas sobre as
bibliotecas do país é quase impossível.
Os dados do Ministério da Cultura são antigos
e pouco confiáveis, como a própria instituição
reconhece. VEJA ouviu os responsáveis pelas maiores
bibliotecas de cinco capitais brasileiras: Belém, Recife,
Cuiabá, São Paulo e Porto Alegre. Em todos os
casos, a situação é a mesma. Procurar
obras recentes de autores como Luis Fernando Verissimo e João
Ubaldo Ribeiro, ou best-sellers como os de Paulo Coelho, é
tarefa ingrata. Um caso extremo é o da biblioteca estadual
de Cuiabá: há mais de vinte anos não
é acrescentado um volume sequer à coleção.
No Recife, a biblioteca estadual até que é bem
fornida, com 15.000 títulos disponíveis na seção
circulante (aquela em que ficam os livros para empréstimo).
Todo dia, porém, são registradas reclamações
de freqüentadores assíduos que saíram frustrados
da busca por romances como A Caverna, obra mais recente
do português José Saramago, ou pelos livros da
popularíssima série juvenil Harry Potter.
Na biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo,
cujo acervo circulante é de 36.000 títulos,
não é possível encontrar o best-seller
O Demônio e a Srta. Prym, de Paulo Coelho. São
Paulo é, aliás, a cidade com a maior rede de
bibliotecas públicas do país: 65. O orçamento
da prefeitura para este ano prevê uma verba de apenas
500.000 reais para a renovação dos acervos --
e olhe que isso representa um avanço em relação
à gestão anterior. Não dá mesmo
para comprar livro novo.
Tal panorama não deve mudar num futuro próximo.
"A prioridade do governo não é ampliar os acervos,
mas implantar novas unidades no interior", diz Ottaviano De
Fiore, titular da Secretaria do Livro e da Leitura do Ministério
da Cultura. O Brasil dispõe hoje de 3.541 bibliotecas
públicas. Um investimento federal de 30 milhões
de reais permitiu que 814 delas fossem instaladas nos últimos
cinco anos, mas isso ainda é muito pouco num país
onde a primeira reclamação conhecida sobre a
falta de verbas para o setor data de 1876. Seu autor foi Ramiz
Galvão, que endereçou uma carta ao imperador
dom Pedro II, na qual relatava as deficiências da Biblioteca
Nacional, dirigida por ele. Apesar dos problemas enfrentados,
naquele tempo as bibliotecas das grandes cidades eram badaladas.
Elas disputavam a atenção do público
com anúncios nos jornais, alardeando os livros mais
retirados e as novas aquisições, assim como
os confortos oferecidos ao leitor, como tinta, papel e luz
elétrica. Mais de 100 anos depois, ainda há
uma série de instituições desse tipo
que nem isso podem oferecer. No interior dos Estados mais
pobres existem casos de funcionários analfabetos e
de bibliotecas em que funciona o velório municipal.
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