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Para entender Truffaut

A força e a beleza de Os Incompreendidos, primeiro filme do cineasta francês,
continuam intactas

Isabela Boscov

 
O desprezado Antoine, vivido por Léaud: como o diretor, o personagem é filho ilegítimo e delinqüente juvenil

A lista dos filmes que mudaram a forma de fazer cinema é das mais seletas. Deve ter, com boa vontade, umas duas dezenas de títulos, como os inevitáveis O Encouraçado Potemkin e Cidadão Kane. Mas poucas fitas desse clube são capazes de ainda hoje provocar tanta emoção quanto Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, França, 1959), que reestréia em cópia nova em São Paulo nesta sexta-feira. Seu currículo é brilhante. Causou furor no Festival de Cannes, no qual o então estreante François Truffaut ganhou o prêmio de direção, e lançou a nouvelle vague – o movimento que rompia com a tradição clássica do cinema francês e ao qual se juntaram nomes célebres como Jean-Luc Godard e Claude Chabrol. Por essa razão, principalmente, é também uma das fitas mais analisadas da história.

Os Incompreendidos narra a trajetória pungente de Antoine Doinel (interpretado por Jean-Pierre Léaud), um garoto mal-amado pelos pais e descartado pelos professores como um encrenqueiro sem remédio. Seu único caminho parece ser rumo à destruição – ou, mais concretamente, ao reformatório para delinqüentes juvenis. Truffaut era tão apegado ao personagem que, sempre em parceria com o ator Léaud, voltou a ele mais quatro vezes nos vinte anos seguintes. Não é difícil entender por quê. Antoine e o diretor eram, de certa forma, a mesma pessoa. Como o seu personagem, Truffaut (que morreu em 1984, aos 52 anos, de câncer) era filho ilegítimo de uma mulher jovem e bonita que nunca lhe dedicou mais do que doses escassas de afeição. Seu sobrenome veio do padrasto, um sujeito boa-praça, mas indiferente. Como Antoine, Truffaut era problemático e dado a fugir, mentir e cometer pequenos furtos. Quando ele tinha 14 anos, o padrasto achou que já tinha suportado o bastante e o entregou às autoridades.

O que salvou o diretor foi seu vício, adquirido ainda na infância, pelo cinema. Consta que, no reformatório, pediu à mãe que lhe levasse "um vidro de geléia e minhas fichas sobre Charles Chaplin e Orson Welles". O interesse compulsivo de Truffaut chamou a atenção de André Bazin, da revista Les Cahiers du Cinéma, um dos críticos mais influentes da história. Bazin recolheu o garoto, levou-o para os Cahiers e deu assim início a uma das carreiras mais singulares de que se tem notícia. É em boa parte da lavra de Truffaut a teoria que postula que o diretor é o verdadeiro e único autor de um filme. Truffaut era um crítico incendiário, que escrevia como quem faz guerrilha, e colecionou inúmeros desafetos no meio cinematográfico francês. Sua primeira incursão atrás das câmaras, porém, silenciou a maioria deles.


Truffaut: cinema "na primeira pessoa" e rancor pela mãe

Quando foi exibido em Cannes, Os Incompreendidos estarreceu a platéia. Nunca se havia visto uma fita tão espontânea e livre de convenções. Era uma síntese perfeita daquilo que Truffaut, o crítico, pregava como o "cinema do futuro": feito na primeira pessoa do singular, meio jornalismo e meio poesia, e tão pessoal quanto uma confissão. A fluidez e a intimidade com que o diretor acompanha a história do desafortunado Antoine obrigam a platéia a baixar a guarda e compartilhar com Truffaut uma verdade fundamental, mas dificílima de captar: a de que, para uma criança, não há tristeza ou alegria que seja pequena. A cena final, em que a câmara "congela" a imagem do rosto angustiado de Antoine, é inimitável. Sozinha, valeria uma carreira. Para o diretor, foi também uma revanche. Quando seu padrasto reclamou de Os Incompreendidos, Truffaut respondeu: "Eu sabia que o filme iria magoá-los, mas não me importo. Desde que Bazin morreu, não tenho mais pais. Mamãe me odiava tanto que, por algum tempo, achei que ela nem fosse minha mãe de verdade".

Truffaut faria outros grandes filmes, como Jules e Jim ou A Noite Americana. Em quase todos eles a figura de sua mãe está lá, sob um disfarce ou outro, na forma de uma mulher que inflige dor. Não tardou, porém, para que seus colegas de nouvelle vague passassem a tachá-lo de "pequeno-burguês", por causa de seus temas intimistas: infância, amor e traição, obsessão e morte. Eles torciam o nariz, ainda, para a sua facilidade em comunicar-se com o público – um pecado mortal para diretores que se julgavam tanto melhores quanto mais herméticos eram seus trabalhos. "Truffaut é um homem de negócios pela manhã e um poeta à tarde", ironizou Godard. Que seja verdade. Pois nunca uma dedicação de meio período à arte rendeu filmes tão belos.

   
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