Baixaria
diplomada
Médicos
que expõem pacientes e fazem
cirurgias
na TV são alvo de processos
Marcelo
Marthe
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| Note
e Anote: a atração está na mira do CRM |
A
história da baixaria na televisão brasileira
acaba de ganhar um capítulo inusitado. Em vez de popozudas
ou vítimas de "pegadinhas", quem o protagoniza são
médicos, que têm ido à TV fazer demonstrações
explícitas de suas habilidades. Programas que vão
ao ar à tarde, como o Note e Anote, de Claudete
Troiano, na Rede Record, e o Domingo Legal, de Gugu
Liberato, no SBT, vêm exibindo cirurgias plásticas
e outros procedimentos, realizados ao vivo no estúdio
ou filmados em clínicas. Há pacientes sendo
anestesiados diante das câmaras, incisões de
bisturi e sangue jorrando à vontade. Ah, sim: no final,
é fornecido o número de telefone do profissional,
para quem se interesse por seus serviços. Essas imagens
escabrosas impulsionam a audiência, mas não são
bem-vistas pelas autoridades de saúde pública.
Só neste ano, o Conselho Regional de Medicina (CRM)
paulista, órgão que fiscaliza a atuação
da classe, abriu onze processos para apurar casos assim. O
número parece pequeno perto das 150 denúncias
de autopromoção e propaganda abusiva investigadas
pela entidade, mas os episódios na TV vêm aumentando
e são aqueles que alcançam maior repercussão.
"Esses médicos expõem seus pacientes de forma
antiética e, em alguns casos, divulgam técnicas
suspeitas", afirma Regina Ribeiro Parizi, presidente da entidade.
"É intolerável."
Os programas não têm escrúpulos ao explorar
o tema. No Note e Anote, em fevereiro, uma dermatologista
demonstrou um tratamento contra celulite numa paciente de
meia-idade vestida só de calcinha, camisolão
e touca, como se estivesse no hospital. No mês passado,
um cirurgião compareceu duas vezes ao programa. Na
primeira, fez aplicações da toxina Botox nas
mãos e axilas de uma mulher que queria livrar-se da
transpiração excessiva. Poucos dias depois,
mostrou as maravilhas do preenchimento labial com silicone.
O Domingo Legal não ficou atrás. Em 11
de março, um cirurgião vascular operou as varizes
de uma paciente em pleno palco, cercado de enfermeiras, câmaras
e convidados. Duas semanas mais tarde, Gugu exibiu um implante
de silicone nos seios cujos detalhes é melhor nem mencionar.
No mesmo programa, o médico responsável pela
cirurgia sorriu orgulhosamente ao lado de vários pacientes
que haviam operado nariz, orelhas de abano e outras partes
do corpo. Esse tipo de autopromoção, vale dizer,
é proibido expressamente pelo manual de ética
da categoria, mesmo com autorização do paciente.
Por uma questão de sigilo legal, o CRM de São
Paulo não confirma se os médicos que foram a
esses programas estão entre os investigados. Mas há
uma pista. Nesta semana, a entidade promete entrar com representação
no Ministério Público pedindo providências
contra o Note e Anote, o Domingo Legal e duas
atrações da TV Gazeta que exibiram material
semelhante o Mulheres, apresentado por Márcia
Goldschmidt, e o Comando da Madrugada, do jornalista
Goulart de Andrade.
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