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Na capital do dinheiro

Empresas brasileiras encontraram o caminho de Wall Street, onde mesmo em tempos de crise conseguem captar investimentos

Cristiana Baptista


Divulgação
SUSTO
A empresa de alimentos é a 27ª companhia brasileira a ganhar autorização para negociar seus papéis na Bolsa de Nova York. Na terça-feira passada, quando estreou, o índice Dow Jones fechou em alta de 2,6%. Os papéis da Sadia caíram


O mercado acionário americano não anda em sua melhor fase, mas mesmo assim o sonho dourado de toda grande empresa é ter seus papéis negociados em Wall Street. As grandes companhias brasileiras estão atingindo esse objetivo. Em quatro anos, o número de empresas nacionais com ações na Bolsa de Nova York saltou de um para 27, formando o maior bloco latino-americano no mercado de ações dos Estados Unidos. Na semana passada, a Sadia juntou-se a gigantes como Petrobras, AmBev, Pão de Açúcar, Aracruz e Votorantim na briga pelo dinheiro dos acionistas do maior centro de investimentos do mundo. Mesmo não fazendo bonito na largada – seus papéis fecharam em baixa nos dois primeiros dias – , a Sadia só tem motivos para comemorar. "Fazer parte do hall de companhias da Bolsa de Nova York é quase como ganhar um certificado de qualidade. Só as melhores e maiores empresas estrangeiras chegam lá", diz Carlos Antônio Magalhães, economista da consultoria carioca Sirotsky & Associados.

Ter ações na Bolsa de Nova York não é um luxo para as companhias. É uma maneira eficiente de obter dinheiro de investimentos sem recorrer a empréstimos do sistema financeiro com seus juros desanimadores. Como as empresas brasileiras vão captar poupança de milhares de americanos, as exigências impostas a elas são muitas.


Efeito
Nova York

O que ocorreu com as ações do lançamento até a última semana

Em primeiro lugar, a companhia precisa adaptar sua contabilidade aos padrões americanos e obter aprovação do órgão que regula o mercado de ações local. É preciso operar uma mudança cultural profunda nas empresas. "Toda a mentalidade tem de mudar, não pode haver contradições nem surpresas nos relatórios e balanços que a empresa emite", diz Luiz Gonzaga Murat Júnior, diretor financeiro da Sadia. Uma vez estabelecida a transparência da companhia, estão abertas as portas de um mercado que movimenta diariamente mais de 40 bilhões de dólares, 150 vezes mais do que circula na maior bolsa de valores brasileira, a Bovespa, de São Paulo.

O esforço, portanto, é compensador. Com um pezinho em Nova York, o poder de fogo das empresas cresce. Fora da bolsa americana seria inimaginável, por exemplo, a venda de 4 bilhões de dólares em ações da Petrobras, feita com sucesso em agosto do ano passado. Para negociar papéis nessa escala no mercado nacional seriam necessários treze dias de pregão da Bovespa em que todas as transações fossem feitas apenas com ações da Petrobras. Impossível.

Reuters/Mike Segar
PELÉ
A companhia petrolífera fez barulho na bolsa americana com Pelé como garoto-propaganda. Em agosto do ano passado, vendeu 4 bilhões de dólares em ações. No primeiro dia os papéis subiram 13%. Um mês depois, a alta já passava dos 30%. Nos últimos meses a bolsa recuou e o preço das ações da Petrobras também caiu


Estar no coração mundial do mercado de capitais também é garantia de que todos os maiores investidores do planeta passem a olhar para a empresa de forma mais atenciosa. Até meados da década de 90, os fundos de ações eram direcionados a países ou regiões. Com as crises asiática e russa, os administradores da maioria desses fundos se tornaram mais cautelosos. Não querem mais investir isoladamente em negócios na Rússia ou no México, que estão sujeitos a crises cambiais e desestabilizações de todo tipo. Preferem aplicar dinheiro em pacotes globais em que entram companhias de todo o mundo que tenham ações negociadas também nas bolsas americanas. "O caso da Petrobras mostra claramente que, depois que a empresa chegou aos Estados Unidos, ela conquistou um grupo novo de investidores internacionais", afirma Jorge Simino, diretor do Unibanco.

O movimento de internacionalização das ações é bom para as empresas brasileiras. Mas obviamente isso não é nada alentador para a saúde do mercado de ações do país. Investidores mais descolados estão mudando seu foco de atuação da Bovespa para os Estados Unidos. Além disso, estão ficando cada vez mais comuns os casos de companhias estrangeiras que compram empresas nacionais e fecham capital. Assim, simplificam sua escrita e deixam a matriz operar em bolsas mais fortes. A americana Whirlpool, que há cinco anos comprou a Brastemp, centrou seu mercado de papéis em Nova York. A Telefónica espanhola, dona da principal empresa de telefonia fixa de São Paulo, também fez caminho semelhante, concentrou suas ações na Bolsa de Madri. Nos últimos quatro anos, o volume médio de dinheiro movimentado na bolsa paulista caiu 60%.

Divulgação
GISELE
A terceira maior cervejaria do mundo tem seus papéis em Wall Street desde 15 de setembro do ano passado. O lançamento foi feito com grande estardalhaço, com a presença da modelo Gisele Bündchen

O esvaziamento das bolsas de valores de países emergentes é uma contingência da globalização. Empresas que querem competir no mercado internacional precisam reduzir seus custos ao máximo. Para companhias brasileiras com pretensão de participar do mercado global, o vôo para Nova York é inevitável. Não apenas na lógica da redução dos custos mas também para facilitar a captação de dinheiro. Em bolsas como a paulista, tendem a ficar somente os papéis de empreendimentos menores, que demandam menos investimentos. Isso porque o brasileiro não tem o hábito de arriscar suas economias em ações. Elas respondem por apenas 2% da poupança nacional – contra 60% nos Estados Unidos. Enquanto esse costume não se alterar, a Bovespa dependerá dos fundos de pensão, que estão impedidos de aplicar dinheiro no exterior.

 

   
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