Um lar
em Manaus
Músicos
europeus de orquestra do Amazonas adotam o Brasil como seu
país
Marcelo
Camacho, de Manaus
Fotos: Selmy Yassuda
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| Os
músicos da Amazonas Filarmônica: em 1997, eles achavam
que só ficariam um ano |
Final
de dezembro de 1998. Noite. Um barzinho de Sófia, capital
da Bulgária. Lá fora, o inverno com temperatura
de 20 graus negativos castiga o corpo e a alma das pessoas.
No tal bar, para se aquecer, a violinista búlgara Alexandra
Tcherkezova toma uns drinques com a amiga Nina Mantchorova,
também música clássica só
que violista. Falam da vida, sobre o que fazer do futuro que
têm pela frente. Ali mesmo, naquela noite fria, vem
a decisão. Voltar para o Brasil, mais precisamente
para Manaus, aquela cidade quente, incrustada no meio da selva
amazônica, onde a umidade no ar é altíssima.
Lá em Manaus, as duas têm vaga garantida na Amazonas
Filarmônica, orquestra formada quase um ano e meio antes,
repleta de músicos búlgaros, russos e bielo-russos.
Durante o tempo em que haviam trabalhado na orquestra, Alexandra
e Nina ajudaram a inundar de acordes clássicos o mitológico
e lindo Teatro Amazonas, prédio inaugurado
em 1896 pelos abastados barões da borracha, que sonhavam
fazer de Manaus uma Londres, uma Paris, uma Milão.
Restaurado em 1990, só em 1997 o teatro passou a abrigar
uma orquestra digna de sua história.
A Amazonas Filarmônica surgiu de uma parceria do governador
Amazonino Mendes e seu secretário de Cultura, Robério
Braga, com o maestro paulista Júlio Medaglia, que teve
a idéia de recrutar no dilacerado Leste Europeu talentos
ainda desnorteados com o fim da União Soviética
e perplexos com o avanço desordenado do capitalismo.
Deu certo. A orquestra logo se tornou uma das três melhores
do Brasil, a melhor fora do eixo RioSão Paulo.
Só não se sabia quanto tempo ela duraria. Muita
gente apostava em, no máximo, um ano. Afinal, a adaptação
dos músicos importados ao cenário tropical e
quentíssimo seria improvável. Quando vieram
para o Brasil, em setembro de 1997, os próprios músicos
eslavos achavam que só iriam passar um ano por aqui.
"Era o tempo para ver o que ia acontecer", diz o trompista
Evgueni Gerassimov, 28 anos, bielo-russo que, com apenas seis
meses de Brasil, mudou de idéia e conseguiu trazer
para a orquestra a mulher, Tatiana, 27 anos, flautista. Estão
aqui até hoje, e há um ano e meio nasceu a primeira
filha do casal, Anna, uma manauara branquinha, loira, de olhos
azuis. A violinista Alexandra precisou de mais tempo para
ver que o Brasil era mesmo o que ela queria. Quando partiu
em "férias" para Sófia, em dezembro de 1998,
estava secretamente decidida a nunca mais voltar. O apartamento
que ela dividia em Manaus com a violista Nina foi desmontado.
"Vendemos tudo", conta Alexandra. "O pior foi voltar e, ao
entrar nas casas de nossos amigos, vermos nossa geladeira,
nossa televisão, todas as nossas coisas", diverte-se.
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| Evgueni
e Tatiana, com a filha brasileira, Anna: a menina estranhou
o frio de Minsk |
Inicialmente
formada por 44 artistas, a Amazonas Filarmônica não
só deu certo (até hoje, apenas cinco estrangeiros
desistiram dela) como não pára de crescer. Hoje
são 55 integrantes, sendo quarenta estrangeiros e quinze
brasileiros. "A intenção é que ela chegue
ao final do ano com setenta músicos fixos", diz o atual
maestro titular da orquestra, o paulista Luiz Fernando Malheiro,
também diretor artístico do Teatro Municipal do
Rio de Janeiro. "É preciso aumentar a seção
de cordas", avisa. Para isso, como fez seu antecessor Júlio
Medaglia, está buscando mão-de-obra no Leste Europeu.
A oferta é grande e interessada. Os próprios estrangeiros
da orquestra prontificaram-se a indicar conhecidos e familiares
tão satisfeitos que estão em Manaus. Há
três meses, por exemplo, a violista búlgara Velitchka
Filipova conseguiu uma vaga de flautista para a mãe,
Rumyana Stefanova. O russo Dmytry Sverbikhine, 27 anos, percussionista,
espera conseguir uma vaga para a namorada, Tatiana, que é
violinista em São Petersburgo. O que atrai essa gente
para Manaus? Salários entre 2.750
e 4.500 reais, que podem ser complementados
com salários de professor. Dmytry, por exemplo, dá
aulas de percussão para adolescentes. Pode até
parecer pouco para uma mudança de vida tão radical.
Não é. Em seus países de origem, os músicos
da Amazonas Filarmônica ganhavam entre 60 e 150 dólares
por mês.
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| Kirill,
Svetlana e Anastasia querem comprar uma casa a prestação:
Rússia, nem de férias |
É bem verdade que aqui, mesmo os salários sendo
mais altos, a vida também é mais cara. Mas ainda
contam a favor do Brasil o clima, o temperamento amável
das pessoas e, vejam só, a estabilidade da moeda e a
segurança do país. Isto sem falar, é claro,
da quase falta de concorrência para músicos do
quilate desses russos, búlgaros e bielo-russos. "O Brasil
é muito aberto aos estrangeiros", diz o russo Kirill
Bogatyrev, 26 anos, violoncelista, ex-integrante da Orquestra
da Ópera do Kirov, de São Petersburgo. "Se eu
fosse trabalhar na Alemanha, por exemplo, ia ter sempre gente
me olhando com raiva, achando que eu estava roubando o emprego
de alguém", avalia. O quadro social da Rússia
também o assusta. "Lá, a vida está muito
difícil. Há o terrorismo, a máfia, as guerras.
Não queria que minha filha crescesse num país
desse tipo. Aqui é mais calmo." Kirill é casado
com a violista Svetlana Bogatyreva, 28 anos. São pais
de Anastasia, 6 anos, que, há um ano, eles conseguiram
trazer para o Brasil. "Ela adorou o Carnaval", diz Svetlana,
como que numa senha para a filha correr para dentro e vestir
a saia verde-e-amarela de baianinha que usou no Carnaval passado.
Eles moram longe do centro da cidade, num pequeno condomínio
com piscina, um conforto que faz diferença nas temperaturas
do Amazonas. Não pensam em voltar para a Rússia.
Nem de férias. E já querem comprar uma casa em
Manaus, avaliada em 45.000 reais.
"Dá para parcelar. É melhor que pagar aluguel",
diz Kirill.
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| O
bielo-russo Vadim com Laura e Maria Paula: pechincha no
mercado de peixe |
Parcelar.
Esta parece ser uma palavra mágica para Vadim Ivanov,
28 anos, clarinetista. Em seu país, a Bielo-Rússia,
onde ganhava um salário de 60 dólares como músico
da Orquestra da TV e Rádio da Bielo-Rússia, esse
tipo de coisa não existe. "Para comprar um carro, só
à vista. Uma casa, só com parcelas em dólares,
muito altas", diz ele. "Aqui no Brasil as pessoas confiam umas
nas outras", afirma Vadim, que já até aprendeu
a comprar fiado. Ele é, de longe, o mais adaptado da
turma. Há dois anos casou-se com Laura, uma bela manauara
de 25 anos, e já tem uma filha, Maria Paula, de 8 meses,
que mais parece uma boneca de porcelana. Vadim sente-se bem
no Brasil. "Não penso em voltar. Tenho uma outra vida
aqui. O futuro de minha família está no Brasil",
diz ele, que, não fosse o sotaque ainda um tanto carregado,
a pele clara e os cabelos ruivos, até passaria por brasileiro.
"A gente vai ao mercado de peixes e ele pechincha com todo mundo",
diz Laura. "Morro de vergonha." Vadim também adora o
programa de Jô Soares, sem perceber que ele mesmo daria
um ótimo entrevistado. De noite, até alguns meses
atrás, grudava na tela da TV para ver as novelas Uga
Uga e Laços de Família. "É melhor
ver as novelas brasileiras aqui. Na Bielo-Rússia, uma
única voz feminina dubla todas as mulheres da trama.
E a mesma voz masculina dubla todos os homens. É estranho."
Põe estranho nisso, Vadim!
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| Alexandra,
pronta para dançar o bumba-meu-boi: aulas de português
nas novelas |
Foi
vendo novela que a búlgara Alexandra Tcherkezova, de
33 anos, aprendeu a falar português. "Quando cheguei ao
Brasil, via Por Amor todos os dias. As palavras que eu
não sabia anotava para perguntar aos amigos", lembra.
Para não esquecer o que aprendia, colava nas paredes
da sala pequenos papéis com as novas palavras escritas.
Logo não se via mais a tinta das paredes. Alexandra,
que, não sabe como, adquiriu um curioso sotaque de Portugal,
circula por Manaus num carro próprio popular,
mas tinindo de novo. A maioria dos eslavos da Amazonas Filarmônica
mora em casas simples, mas cultiva pequenos luxos antes difíceis
de conquistar. Eles têm carros, telefones celulares, computadores,
aparelhos de DVD, filmadoras. Tudo sinal de que a estada em
Manaus é mesmo para valer. Mas nem só de prós
é feita a vida desses músicos. O casal Evgueni
e Tatiana fica impressionado com a falta de profissionalismo
em certos setores. "A gente chama uma pessoa para pintar a casa
e ela diz que vem na semana que vem. Só que não
vem. E tenta passar para a outra semana", espanta-se Evgueni.
"Parece que não querem ganhar dinheiro", queixa-se Tatiana.
"Ou então não sabem o que é passar fome",
ele arremata. Nessas horas, dizem, dá vontade de ir embora
e nunca mais voltar. Mas, quando se lembram de como a filha
brasileira sofreu no frio de Minsk, na Bielo-Rússia,
em dezembro passado, quando estiveram lá em férias,
refletem que querem viver mesmo é no Brasil. "Estou muito
feliz que minha filha tenha nascido aqui", garante Tatiana.
Alguns hábitos dos países de origem, por pura
impossibilidade prática, foram deixados de lado. O
percussionista Dmytry Sverbikhine, por exemplo, gostava de
percorrer as florestas russas para catar cogumelos. "Aqui
não tem. É muito triste", lamenta. Mas pode
pôr em prática outro de seus hobbies preferidos:
a pesca. Nos fins de semana, ele freqüenta um parque
para pescadores nas proximidades de Manaus. "Pego muito tambaqui,
pacu, tucunaré", diz ele, dono de um português
ainda muito arrevesado, mas sem sotaque algum nesses nomes
tão difíceis de peixes. Sinal de que gosta do
assunto. Já Alexandra, que tem vários amigos
brasileiros, deslumbrou-se com as danças nacionais.
Um amigo tentou ensinar-lhe o samba. "O problema foi no dia
seguinte. Não podia andar de tantas dores nas pernas",
lembra. Assistir em Manaus a grupos que dançam o bumba-meu-boi
está entre seus programas prediletos. "É tão
lindo", diz ela, que, como outros colegas, descobriu
e adorou a caipirinha. "É minha bebida preferida",
afirma Vadim Ivanov. Hoje, Alexandra não pensa mais
em partir. "Minha vida é aqui." Tanto que há
pouco mais de um mês pensou em adotar uma criança
recém-nascida. Só não foi em frente porque
sua mãe, por telefone, foi veementemente contra. E
o assédio dos brasileiros? "Aqui tem muita mulher para
pouco homem", suspira. Nada é mesmo perfeito. Mesmo
assim, longe daquele frio de Sófia, a vida em Manaus
vai bem, muito bem.
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Festival
de ópera dura mais de um mês
Frédéric
Jean
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Desde 1997, pelo menos uma vez por semana, a Amazonas
Filarmônica se apresenta no Teatro Amazonas, em
Manaus, sempre com platéia cheia. Do próximo
dia 22 até o dia 26 de maio, porém, essa
rotina será quebrada. Nesse período se realiza
o V Festival Amazonas de Ópera. A orquestra será,
naturalmente, a grande estrela do evento. Na abertura
do festival, ela acompanha a apresentação
da meio-soprano espanhola Teresa Berganza, que cantará
um repertório com árias de Rossini e Bizet.
Seguem-se dois outros grandes concertos e três das
quatro óperas do festival: La Bohème,
de Puccini; Manon, de Massenet; e A Flauta
Mágica, de Mozart. Mas o festival vai abrigar
também um dos filhotes da Amazonas Filarmônica.
A Ópera dos Três Vinténs, de
Brecht e Kurt Weill, ficará a cargo da Orquestra
Popular Amazonas Band, um dos vários conjuntos
musicais surgidos em Manaus desde que a Amazonas Filarmônica
foi criada. A orquestra dos eslavos mexeu tanto com a
cidade que um centro cultural, o Cláudio Santoro,
foi criado para atender à demanda dos manauaras
pelo aprendizado de música. E que demanda. Hoje
o centro tem 5000 alunos matriculados. |
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