Não
adianta processar
Como
o MST não existe no papel, ataque e
destruição da usina devem ficar impunes
Kristhian
Kaminski e Lia Abbud
Ed Ferreira/AE
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líder Amorim: "Quebrar foi um símbolo contra a
repressão" |
O Movimento dos Sem-Terra protagonizou na semana passada novas cenas
de seu clássico roteiro de atuação. Dessa vez,
cerca de 1.300 lavradores invadiram a
Usina Aliança, a 90 quilômetros da cidade do Recife.
A propriedade pertence ao grupo Pessoa de Melo e foi declarada duas
vezes improdutiva pelo Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária (Incra). Em ambas as ocasiões, os
donos do lugar reverteram as decisões na Justiça.
Os integrantes do MST tomaram o local no domingo passado. A casa-grande
e os outros cinco imóveis da fazenda foram queimados. O mesmo
aconteceu com fotografias de família, móveis antigos,
um automóvel e imagens sacras. Depois disso, os sem-terra
deixaram a fazenda caminhando. "Quebrar a casa-grande foi um símbolo
de luta contra a repressão imposta por essa aristocracia",
declarou Jaime Amorim, líder do movimento em Pernambuco.
Os proprietários da Aliança entraram na Justiça
com um pedido de indenização contra o MST. É
um gesto inútil. A ação tende a cair no mesmo
limbo de impunidade que engoliu episódios como o massacre
dos 111 presos do Carandiru, em São Paulo, e a morte dos
dezenove trabalhadores sem terra em Eldorado dos Carajás,
no Pará.
A
primeira dificuldade num processo contra o MST é que o movimento
não tem nenhum registro jurídico seja como
empresa, ONG ou sindicato. Seu único vín
mundo formal é uma entidade chamada Associação
Nacional de Cooperação Agrícola, responsável
pelo pagamento das despesas com funcionários e escritórios
do movimento espalhados pelo país. "A falta de registro do
MST faz parte da estratégia para manter as acusações
a distância", afirma Carlos Ari Sundfeld, professor de direito
da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. Como a organização não possui personalidade
jurídica, só podem ser denunciadas as pessoas responsáveis
pelos danos. E como definir quem fez o quê numa invasão
com a participação de 1.300
pessoas?
Pode-se
perguntar então: por que não fazer com que os dirigentes
do MST paguem pelos estragos? Afinal, a massa de sem-terra age insuflada
por suas palavras de ordem. Isso também não é
possível. Líderes, como João Pedro Stedile,
têm o direito de argumentar na Justiça que não
controlam os atos da massa. Curiosamente, é o mesmo mecanismo
que permitiu a impunidade de gente como o "Metaleiro", ex-presidente
da Gaviões da Fiel, uma das maiores e mais violentas torcidas
de futebol do país, acusada de cometer diversas barbaridades.
O
MST empunha uma bandeira justa, a reforma agrária. Nessa
trajetória, muitas vezes seus membros são vítimas
de agressões. Na semana passada, por exemplo, uma menina
de 11 anos, filha de um sem-terra, foi atingida por um tiro. Mas
seu principal argumento de atuação perde força
na medida em que o movimento já recebeu do governo 22 milhões
de hectares de terra, área equivalente a cinco Dinamarcas.
Seus integrantes também especializaram-se em realizar ações
violentas. No episódio da semana passada, poderiam ser incriminados
por violação de domicílio, danos materiais
e formação de quadrilha. Nada disso vai acontecer.
"Não há como agir contra o MST, pois ele não
passa de um agrupamento de pessoas", afirma Dalmo de Abreu Dallari,
professor da Faculdade de Direito da Universidade de São
Paulo. Ou seja, não adianta processar.
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