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Racionamento não vem, mas falta de chuva e de
investimentos deu
um nó na produção de energia

Eliana Simonetti e Denise Ramiro

 
Foto Pedro Rubens

E real a ameaça que se lê todos os dias nos jornais de que vai faltar eletricidade no Brasil até o fim do ano? Em parte, sim. Mas o recurso ao racionamento, ou seja, o desligamento da energia em bairros ou cidades inteiros durante algumas horas do dia, está praticamente descartado. O pior cenário é o seguinte: como 92% da energia elétrica brasileira é produzida em hidrelétricas, se chover menos do que se espera entre abril e setembro na Região Sudeste do país, o consumo de energia terá de ser reduzido em 30%. Mesmo com todo mundo economizando, haverá risco de apagões. Não voluntários. Acidentais. Os geradores das usinas se desligam automaticamente em caso de sobrecarga.

Apagões são transtornos para as pessoas em casas e em edifícios. São uma dor de cabeça séria para hospitais, que nas emergências precisam usar geradores a óleo a um custo seis vezes maior do que pagam em sua conta de luz. O dano econômico é severo também. As lojas e fábricas brasileiras consomem 60% de toda a eletricidade gerada no país – as residências gastam 30% e a iluminação pública, os outros 10%. Se, numa hipótese distante, todo o parque industrial brasileiro ficasse durante um ano duas horas e meia por dia parado por falta de energia, o PIB sofreria. Segundo cálculo das empresas distribuidoras, em vez de crescer 4,2% neste ano, o PIB brasileiro cresceria apenas 1%. Com isso haveria menos emprego. O país empobreceria. "A situação atual do Brasil lembra a dramática crise da Colômbia em 1992, quando os vizinhos tiveram de viver com apenas 70% da capacidade energética", compara Roberto Hukai, professor de pós-graduação em energia da Universidade de São Paulo. Como pôde chegar a esse ponto um país como o Brasil, com tantos rios e quedas-d'água? Uma conjunção de fatores conspirou para a crise. Primeiro, há o fato da dependência quase total de hidrelétricas, uma das formas mais baratas de gerar eletricidade mas também a mais sujeita à influência de fatores incontroláveis – como o regime de chuvas. Bem, ocorre que no fim do ano passado e no início deste choveu menos que o habitual. Outro fator incontrolável, embora previsível, veio sobrecarregar o sistema. A economia começou a crescer num ritmo maior. Em terceiro lugar, contribuiu o que as empresas geradoras e distribuidoras de eletricidade privadas chamam de populismo regulatório. Ou seja, depois de privatizadas, as empresas passaram a ter seus custos livres mas as tarifas controladas pelo governo. Resultado: elas estão ficando descapitalizadas e investem menos em novas usinas.


Joel Silva/Folha Imagem
Hidrelétrica de Furnas: venda adiada


Como sempre, o Brasil acordou tarde para o problema. As medidas anunciadas pelo governo devem ajudar a evitar apagões, mas a decisão mesmo está nas mãos de São Pedro. Com a campanha de educação popular para gastar menos eletricidade, espera-se economizar 15% de energia. É possível que a racionalização do uso por parte das empresas abata outros 5%. Mas tudo isso pode ser pouco, porque os reservatórios estão nos níveis mais baixos dos últimos cinco anos.
Quando se fala em economizar eletricidade, no fundo se está falando em gastar menos água dos reservatórios. A energia produzida pelas hidrelétricas é diretamente proporcional à quantidade de água que faz girar as pás dos geradores. "Em finais de Copa do Mundo, com o Brasil inteiro com os freezers gelando cerveja e as TVs ligadas sugando energia, quase dá para perceber a água baixando nos reservatórios", caricaturiza Luiz David Travesso, presidente da AES Brasil, dona da Eletropaulo, a maior distribuidora de energia da América Latina. Mas é isso mesmo. A eletricidade que viaja pelos fios sustentados nos postes não pode ser estocada em baterias e pilhas. Ela é produzida e gasta imediatamente.

A situação atual do Brasil na questão da geração de eletricidade tem paralelos com a crise que vem provocando apagões na Califórnia. No mais rico Estado americano, o governo privatizou as geradoras de energia, mas engessou tarifas e tornou a construção de novas usinas – baseadas na queima de óleo combustível – muito cara por causa de exigências ambientais. Resultado: as empresas não investiram em geração enquanto o consumo subia. Cedo ou tarde a questão que as empresas chamam de populismo regulatório vai ter de ser enfrentada no Brasil. Em português simples: cedo ou tarde a conta de luz vai aumentar. O preço da tarifa elétrica no Brasil, comparado ao de outros países, é um dos mais baixos do mundo. São cerca de 55 dólares por megawatt/hora. A média mundial é de 90 dólares. Na Inglaterra, a mesma quantidade de energia custa 150 dólares. Na França, 100 dólares. "Vivemos numa economia de mercado. Se uma mercadoria é escassa, como é o caso da energia hoje, é natural que seu preço suba", diz Otavio Mielnik, economista e consultor de energia. Razoável. O governo, porém, resiste a liberar o preço da energia porque o peso desse item na composição da inflação é de 4%. Um reajuste considerado bom pelas empresas seria algo em torno de 30%. Se fosse feito de uma só tacada, provocaria um salto de 1,2 ponto porcentual no índice de preços ao consumidor. Com metas de inflação apertadas e incertezas externas, é muito pouco provável que o governo conceda aumentos significativos nas tarifas de eletricidade neste momento.

Soluções duradouras também estão a caminho. A mais animadora delas são as 49 termelétricas, usinas que funcionam movidas a gás natural e não dependem dos humores da natureza – embora estejam sujeitas a tempestades cambiais, uma vez que compram gás em dólar e vendem eletricidade em reais. A primeira termelétrica a gás do Brasil já está em funcionamento. Foi construída pela AES em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. "Investimos 350 milhões de dólares de nosso próprio capital, porque o sistema brasileiro anda tão desacreditado que não conseguimos, no exterior, financiamento barato e de longo prazo para o projeto", diz Travesso, presidente da AES Brasil. Portanto, a situação não é tão desesperadora quanto parece. Mas não é tranqüila. Exige que se faça alguma coisa. Os especialistas acham que o sistema, do jeito que está, funciona, mesmo que com novenas para São Pedro, por mais três anos. A privatização, na área elétrica, terá de ser completada ainda que chova a cântaros até o final do ano. Sob pena de o Brasil empurrar para o futuro o espectro da crise. Na semana passada, houve duas notícias nesta área. A Copel, do Estado do Paraná, será vendida até novembro. Já Furnas será fatiada em duas. A geradora e a transmissora de energia. O governo privatizará apenas a geradora.

 

 

   
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