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E real a ameaça que se lê todos os dias nos jornais de que vai faltar eletricidade no Brasil até o fim do ano? Em parte, sim. Mas o recurso ao racionamento, ou seja, o desligamento da energia em bairros ou cidades inteiros durante algumas horas do dia, está praticamente descartado. O pior cenário é o seguinte: como 92% da energia elétrica brasileira é produzida em hidrelétricas, se chover menos do que se espera entre abril e setembro na Região Sudeste do país, o consumo de energia terá de ser reduzido em 30%. Mesmo com todo mundo economizando, haverá risco de apagões. Não voluntários. Acidentais. Os geradores das usinas se desligam automaticamente em caso de sobrecarga.
A situação atual do Brasil na questão da geração de eletricidade tem paralelos com a crise que vem provocando apagões na Califórnia. No mais rico Estado americano, o governo privatizou as geradoras de energia, mas engessou tarifas e tornou a construção de novas usinas baseadas na queima de óleo combustível muito cara por causa de exigências ambientais. Resultado: as empresas não investiram em geração enquanto o consumo subia. Cedo ou tarde a questão que as empresas chamam de populismo regulatório vai ter de ser enfrentada no Brasil. Em português simples: cedo ou tarde a conta de luz vai aumentar. O preço da tarifa elétrica no Brasil, comparado ao de outros países, é um dos mais baixos do mundo. São cerca de 55 dólares por megawatt/hora. A média mundial é de 90 dólares. Na Inglaterra, a mesma quantidade de energia custa 150 dólares. Na França, 100 dólares. "Vivemos numa economia de mercado. Se uma mercadoria é escassa, como é o caso da energia hoje, é natural que seu preço suba", diz Otavio Mielnik, economista e consultor de energia. Razoável. O governo, porém, resiste a liberar o preço da energia porque o peso desse item na composição da inflação é de 4%. Um reajuste considerado bom pelas empresas seria algo em torno de 30%. Se fosse feito de uma só tacada, provocaria um salto de 1,2 ponto porcentual no índice de preços ao consumidor. Com metas de inflação apertadas e incertezas externas, é muito pouco provável que o governo conceda aumentos significativos nas tarifas de eletricidade neste momento. Soluções duradouras também estão a caminho. A mais animadora delas são as 49 termelétricas, usinas que funcionam movidas a gás natural e não dependem dos humores da natureza embora estejam sujeitas a tempestades cambiais, uma vez que compram gás em dólar e vendem eletricidade em reais. A primeira termelétrica a gás do Brasil já está em funcionamento. Foi construída pela AES em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. "Investimos 350 milhões de dólares de nosso próprio capital, porque o sistema brasileiro anda tão desacreditado que não conseguimos, no exterior, financiamento barato e de longo prazo para o projeto", diz Travesso, presidente da AES Brasil. Portanto, a situação não é tão desesperadora quanto parece. Mas não é tranqüila. Exige que se faça alguma coisa. Os especialistas acham que o sistema, do jeito que está, funciona, mesmo que com novenas para São Pedro, por mais três anos. A privatização, na área elétrica, terá de ser completada ainda que chova a cântaros até o final do ano. Sob pena de o Brasil empurrar para o futuro o espectro da crise. Na semana passada, houve duas notícias nesta área. A Copel, do Estado do Paraná, será vendida até novembro. Já Furnas será fatiada em duas. A geradora e a transmissora de energia. O governo privatizará apenas a geradora.
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