Apareceu a prova que faltava
Documento
mostra que o senador Jader Barbalho
era sócio de um fraudador da Sudam acusado
de desviar 133 milhões de reais
Alexandre
Oltramari, de Belém
Ana Araujo
 |
| O
presidente do Senado: negócio de 1,7 milhão com
o mais notório dos fraudadores |
Até a semana passada, o senador Jader Barbalho era apontado
apenas como o político mais influente junto à Sudam
o órgão que, criado nos anos 60 para fomentar
o desenvolvimento na Amazônia, se tornou nos últimos
tempos sinônimo de corrupção. Ele indicou dois
dos três últimos superintendentes do órgão,
era ligado a funcionários demitidos por corrupção,
seu nome foi mencionado em conversas telefônicas de fraudadores.
Tudo isso aconteceu, mas o senador Jader Barbalho nunca aparecera,
em auditorias ou investigações, diretamente associado
aos desvios de dinheiro ou aos membros da máfia que assalta
os cofres da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia.
Na semana passada, surgiu a primeira prova concreta ligando o senador
a um fraudador da Sudam. Na realidade, não se trata de um
simples fraudador, mas do mais notório fraudador, que vem
sendo investigado há pelo menos quatro anos. É José
Osmar Borges, dono de três CPFs e seis empresas em Mato Grosso,
todas com projetos na Sudam. Ele é acusado de desviar uma
montanha de dinheiro público: 133 milhões de reais.
Ricardo Benichio
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| A
Fazenda Rio Branco, no Pará, ficou ainda maior depois
da transação |
A prova
tem 22 páginas e sua parte mais relevante está registrada
na Junta Comercial do Pará sob o número 980001001.
A leitura do documento mostra que o senador Jader Barbalho manteve
durante dois anos, de 1996 a 1998, uma sociedade oculta com José
Osmar Borges. Os papéis narram a vida de uma empresa obscura
que nem existe mais, a Agropecuária Campo Maior, dona de
terras a 100 quilômetros de Belém. À medida
que se avança na leitura, encontram-se cinco mudanças
contratuais, com alterações de donos, gente que recebe
cotas da empresa, depois as transfere a outro para, em seguida,
tomá-las de volta. É uma genealogia típica
de quem pretende apagar rastros e confundir a origem do negócio.
Apesar das freqüentes alterações societárias,
a história da Campo Maior é inequívoca: desde
o início, era um negócio entre José Borges,
o fraudador, e Jader Barbalho, o senador.
clique
nas imagens para ampliá-las
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Cópia
do contrato assinado por Jader,
pela mulher, Márcia, pelo cunhado Camilo e pelo fraudador
José Osmar Borges:
prova reconhecida em cartório |
A
história começa no dia 30 de maio de 1996. Nessa data,
a empreiteira Estacon Engenharia, depois de sair vitoriosa numa
suculenta concorrência pública realizada ainda no período
em que Jader era governador do Pará, decide vender a Agropecuária
Campo Maior e seu naco de terras. Quem compra tudo? Uma empresa,
a Têxtil Saint Germany, que pertence a José Borges,
e uma pessoa, que vem a ser Márcia Cristina Zaluth Centeno,
mulher do senador Jader Barbalho. A empresa de José Borges
entra com a parte mais gorda do negócio, de 1,7 milhão
de reais, e a mulher de Jader comparece com apenas 207 reais
mesmo assim, ganha o direito de ser "gerente" da agropecuária.
Daí em diante, começa uma dança de sócios,
até que, em 5 de janeiro de 1998, a Agropecuária Campo
Maior acaba nas mãos de Jader. E, em julho do ano passado,
na última mudança societária, a Agropecuária
Campo Maior desaparece e suas terras são incorporadas aos
6.000 hectares da Fazenda Rio Branco,
de propriedade do senador e sua mulher (veja quadro com as mudanças
societárias ao lado).
Além
das alterações contratuais, existe outro dado que
ajudou a manter a sociedade do senador com o fraudador sob silêncio.
Na declaração de imposto de renda de Jader referente
ao ano de 1998, à qual VEJA teve acesso, não há
menção à transação. Nem na declaração
do ano seguinte. Também não se encontra nas declarações
do senador um negócio que lhe tenha rendido lucros suficientes
a ponto de poder dispor de 1,7 milhão de reais para comprar
a empresa. Ao contrário. No ano em que desembolsou 1,7 milhão
de reais para comprar a Agropecuária Campo Maior, Jader informou
ao Fisco que seu patrimônio total incluindo até
as abotoaduras era de 2,3 milhões de reais. VEJA consultou
um especialista em direito comercial e outro em direito tributário.
Eles dizem que o senador pode ter informado a compra da Campo Maior
na declaração da própria Fazenda Rio Branco,
o que não retira a transação do anonimato,
já que o senador jamais a reconheceu de público. Se
a Rio Branco nada declarou, restam duas hipóteses: ou o 1,7
milhão de reais não tem origem lícita ou Jader
não desembolsou um tostão pela Campo Maior. Ganhou-a
de presente.
Há
outro dado curioso no terreno das transações feitas
à sombra. Em junho de 1996, um mês depois de se associar
à mulher de Jader na Campo Maior, a Saint Germany de José
Borges registrou uma fabulosa movimentação bancária.
Em várias remessas, mandou 110 milhões de reais para
uma CC-5, um tipo de conta bancária por meio da qual se pode
enviar dinheiro ao exterior. A CC-5 foi aberta numa agência
do BCN, em Ponta Porã, cidade de Mato Grosso do Sul, em nome
de um paraguaio, Pedro Paulo Velasquez Romero. Não se tem
notícia do rumo que os 110 milhões de reais tomaram
depois de pousar na CC-5 do paraguaio, mas chamam a atenção
a fortuna que a Saint Germany movimentava e a notável coincidência
de que suas remessas ocorreram logo depois de selar sociedade com
a mulher do senador.
Janduari Simões
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| A
sede da Junta Comercial, em Belém: documento está neste prédio,
sob o número 980001001 |
Cruzando
os documentos da Junta Comercial com as auditorias na Sudam, fica-se
sabendo que, na mesma época em que se esbaldava recebendo
milhões de reais da Sudam, José Borges estava se associando
à mulher de Jader. A diferença é que, em maio
de 1996, quando ambos compraram a Campo Maior, ninguém sabia,
ainda, que Borges era um monarca das fraudes. A essa altura, associar-se
a ele não era, por si só, comprometedor. As primeiras
investigações em suas seis empresas só começaram
um ano depois, em 1997, por iniciativa do procurador Pedro Taques,
do Ministério Público de Mato Grosso. De lá
para cá, suas empresas sofreram investigações
de vários órgãos Polícia Federal,
Receita, Secretaria Federal de Controle, Tribunal de Contas ,
e o resultado foi sempre igual: os desvios de dinheiro eram inúmeros,
recheados de notas frias, obras inexistentes, contratos falsos e
superfaturamentos que passavam dos 500%.
Dida Sampaio/AE
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| A
mulher de Jader, Márcia Cristina: sócia de Osmar
Borges em terras que depois foram para o senador |
A intimidade de José Osmar Borges com o círculo de
Jader Barbalho já tem história. Há dois anos,
soube-se que o empresário fez depósitos no total de
39.000 reais na conta de José
Artur Guedes Tourinho, o homem que, por indicação
de Jader, comandou a Sudam de 1996 a 1999. Questionado sobre o motivo
dos depósitos, Tourinho disse que provinham da venda de um
sítio ao empresário, mas o negócio acabou desfeito
à última hora. Disse ainda que, como estava assumindo
a Sudam, achou que seria constrangedor ter negócios com o
empresário. Se essa versão é verdadeira ou
não, só uma investigação dirá.
Mas eis que aí está: até Tourinho, que foi
afastado da Sudam por suspeitas de corrupção, julgou
inconveniente aparecer ligado a José Borges. Até Tourinho.
E o que se deve achar do fato, sabido agora, de que a mulher de
Jader, o cunhado de Jader e o próprio Jader faziam negócios
com o empresário enquanto ele armava grossas pilantragens
na Sudam?
Na
semana passada, VEJA procurou o senador para ouvi-lo sobre suas
relações com o empresário José Borges.
Jader não retornou os telefonemas da revista. Ele e a mulher
estavam descansando na Fazenda Rio Branco, aquela que se expandiu
com a anexação das terras da Campo Maior. A Rio Branco
é um colosso rural de 6.000 hectares,
com um casarão de três andares, 1.400
metros quadrados e nove suítes. José Borges, homem
avesso a fotografias, publicidade, imprensa e acontecimentos sociais,
também não foi localizado. O que Jader já disse
em público sobre o empresário é apenas que
o conhece "há muitos anos", do mesmo modo como conhece "inúmeros
empresários da Sudam". Diz que não é seu amigo,
nunca intercedeu a seu favor na Sudam e reconheceu que já
visitou uma de suas fazendas. Mas, em nenhum momento, o senador,
que preside o Senado e o Congresso Nacional, contou que, desde 1996,
tinha uma sociedade com o empresário.
Marcos Bergamasso
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| Sede
de uma das empresas de Osmar Borges, em Cuiabá: contratos
falsos e
superfaturamento de mais de 500% |
Exposto
a denúncias de grosso calibre a cada semana, o brasileiro
pode tender, pelo cansaço, a uma atitude fatalista de quem
não vê saída para a patifaria que parece instalar-se
por toda parte. Ora é o escândalo do TRT de São
Paulo, que trouxe à luz do dia as figuras espantosas do juiz
Nicolau dos Santos Neto e do senador Luiz Estevão. No momento
seguinte, são as suspeitas a respeito da privatização
da Telebrás, com pagamento de propina a articuladores do
negócio. Um ex-presidente do Banco Central está sendo
processado por suspeita de mau comportamento na liberação
do câmbio em 1999. Um banqueiro acusado de favorecimento na
compra de dólares na mesma operação está
foragido em Roma. Existem denúncias abundantes sobre corrupção
em órgãos do governo. A lista parece não ter
fim. E ela produz em muitos uma sensação de impotência,
como se nada pudesse ser feito para reverter a maré. (Especialistas
entrevistados por VEJA dizem que muitas coisas podem ser feitas.
Veja quadro.)
O
desânimo é natural mas equivocado, porque há
um dado altamente positivo na exacerbação das denúncias.
A gatunagem pode estar crescendo ou não. Não existe
uma indicação segura sobre isso, apenas suspeitas.
O que se pode dizer com certeza é que nunca houve tanta investigação
nem tanta intolerância em relação aos atos de
corrupção. Esse empenho em expor as entranhas da corrupção
à luz do dia tem a vantagem de tornar as coisas mais transparentes
e de dotar a sociedade de um termômetro mais exigente quanto
ao trato do dinheiro público. Isso não quer dizer
que o combate à corrupção no Brasil seja razoável.
Não é. Instrumentos vitais na guerra contra os corruptos,
a polícia e a Justiça são lentas e ineficientes,
quando não tingidas também elas por manchas de corrupção.
As CPIs começam com grande barulho e costumam terminar com
resultados mais modestos que os anunciados pela fanfarra inicial.
A existência de uma infinidade de órgãos estatais
também favorece a corrupção, com o pagamento
de propina em troca de favores. O episódio da Sudam é
apenas o último. Foi desentocado a poder de denúncias
e sua evolução tem um aspecto didático.
Ed Ferreira/AE
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Lula Marques/Folha Imagem
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| O
ministro Fernando Bezerra e o interventor da Sudam, José Cyrillo,
em entrevista na semana passada: o rombo não pára de crescer |
Na
semana passada, o ministro da Integração Nacional,
Fernando Bezerra, a quem está subordinada a Sudam, convocou
uma entrevista coletiva para responder à reportagem de capa
publicada por VEJA na edição anterior. A matéria
mostrava que seu secretário executivo dava informações
à máfia da Sudam e que alguns fiscais que participaram
de uma investigação do ministério sobre fraudes
na autarquia foram subornados com propina de até 30.000
reais. Em tom indignado, o ministro defendeu seu secretário
executivo, demitido na semana anterior, e refutou que seus fiscais
se tenham rendido às propinas. As duas informações
saíram de diálogos captados pela Polícia Federal
numa escuta telefônica judicialmente autorizada. A revista
publicou os trechos que se referiam ao assessor de Bezerra. VEJA
teve acesso a seis diálogos que tratam das propinas
e, naturalmente, eles não afetam todos os fiscais, mas apenas
uma parte deles.
Na
coletiva do ministro, o fato mais notável, no entanto, foi
a apresentação de um quadro muito mais negro sobre
a Sudam que aquele que o Ministério da Integração
Nacional traçara semanas antes. Os desvios, que há
um mês eram estimados em 108 milhões de reais, já
chegam a 1,8 bilhão de reais (veja quadro com a evolução
do rombo abaixo). O interventor da Sudam, José Diogo
Cyrillo, informa que existem 213 projetos sob exame. Desses, apenas
150 foram dissecados. Se algo de errado for encontrado em algum
dos 63 ainda sob análise, o rombo aumentará. Ninguém
se atreveria neste momento a dizer onde está o fundo do poço
no feudo político do senador Jader Barbalho. Pode estar muito
mais longe do que se imaginava.
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DECÁLOGO
DA LUTA ANTICORRUPÇÃO
Claudio Rossi
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| Pastore:
agência contra corrupção |
Na semana passada, VEJA ouviu quatro estudiosos do assunto
e resume suas sugestões para combater a corrupção
no Brasil. São eles David Fleischer, presidente da
ONG Transparência, Consciência e Cidadania, José
Pastore, professor da Universidade de São Paulo, Eduardo
Ribeiro Capobianco, da ONG Transparência Internacional,
e Marcos Fernandes Gonçalves da Silva, da Fundação
Getúlio Vargas de São Paulo. Abaixo, o que deve
ser feito na luta contra os corruptos, na opinião dos
especialistas:
1.
Mudar as regras de financiamento das campanhas eleitorais,
oricamente, sempre foram um convite à corrupção.
Qua-se todos montam um caixa dois para contabilizar as verbas.
Sem um controle eficiente, os políticos eleitos com
dinheiro registrado na contabilidade paralela assumem o cargo
com o compromisso de retribuir os favores recebidos na campanha.
A melhor solução é tornar o financiamento
público e punir os que continuarem pegando di-nheiro
por fora.
2.
As
regras das licitações precisam ser alteradas
para evitar favorecimento.
3.
Os pagamentos a fornecedores precisam ser feitos nos prazos
certos, sem ser adiados. Assim, evita-se a caixinha.
4.
Reformar o Judiciário, fechando as brechas jurídicas
que os advogados de defesa usam para retardar processos. Acabar
ainda com a "indústria de liminares", para forçar
o Judiciário a dar respostas mais rápidas aos
processos.
5.
Enxugar a burocracia do Estado, para evitar a famosa "criação
de dificuldades para a venda de facilidades".
6.
Melhorar a remuneração dos funcionários
públicos, para valorizar a profissão e também
evitar que mesmo as pequenas propostas de propina sejam muito
convidativas.
7.
Acabar com a influência política nos tribunais
de contas. Atualmente, o corpo técnico desses órgãos
é muito bom, mas os conselheiros os que tomam
as decisões são indicados pelo Poder
Executivo. Por causa disso, os tribunais de contas não
funcionam e ainda acabam atuando em benefício dos corruptores.
8.
As pessoas que fazem negócio com o governo deveriam,
por antecipação, facilitar o acesso a sua vida,
assinando um documento que autorize uma agência do governo
a fazer qualquer investigação em caso de suspeita.
9.
As sessões da CPI deveriam servir mais para investigação
e menos como palanque político.
10.
Criar uma agência encarregada de investigar casos de
corrupção com as se-guintes características:
seria mantida com recursos públicos, mas não
estaria sujeita à influência política;
deveria estar muito bem articulada com a polícia e
o Judiciário;
teria liberdade para monitorar a vida das pessoas que estivessem
participando dos processos de contratação junto
ao poder público;
teria liberdade de monitorar pessoas que estejam dando sinais
exteriores de riqueza incompatíveis com o patrimônio;
seria dotada do poder de congelar o patrimônio das pessoas
suspeitas e daquelas que estão sendo investigadas;
estaria em condições de oferecer proteção
às testemunhas.
|
Com
reportagem de Lourenço
Flores, de Brasília
Saiba
mais |
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