Sérgio
Abranches
Atitudes
fora do lugar
"A
imagem que se vai formando do presidente
Fernando Henrique e de seu governo é intolerável
para um político da safra limpa. Mas só atos
concretos
podem desfazê-la"
Ilustração Ale Setti
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Um presidente com indisputáveis credenciais intelectuais
e militância política, na ativa resistência
contra o autoritarismo e a corrupção deveria
levar o governo a uma postura mais clara, firme e rigorosa
nas questões de má conduta na administração
federal. Um governo que se quer exemplar apura denúncias,
não busca desqualificá-las politicamente.
Afasta suspeitos, para garantir a isenção
e a presteza dos inquéritos, não argumenta
com princípios democráticos para mantê-los
em cargos de confiança e autoridade. É certo
que o Brasil tende a desconsiderar o direito elementar de
que uma pessoa só pode ser considerada culpada após
sentença condenatória passada em julgado.
Mas esse direito não justifica manter suspeitos em
posições nas quais possam manipular as investigações.
Várias autoridades governamentais têm mostrado
mais indignação com a onda de acusações
que com os indícios de corrupção. Há
um padrão indiscutível: quando a onda se eleva,
a resposta é o anúncio de uma série
de medidas para apurar, punir e prevenir a corrupção
nos órgãos sob suspeita. Quando a onda baixa,
as medidas entram em banho-maria, quando não em espera
criogênica da próxima onda. Essa atitude só
serve para consolidar a imagem de que há mais empenho
em evitar CPIs do que na apuração, rápida
e definitiva, dos casos de suspeita de corrupção.
No mais recente episódio de vazamento de fitas da
Polícia Federal em torno da notória Sudam,
o governo pareceu mais indignado com o vazamento das fitas
que com os indícios, cada vez mais fortes, de que
o órgão precisa de uma "operação
mãos limpas" liminar e exemplar.
A criação da Corregedoria Geral da União
só terá sido acertada se ela der resultados
rápidos e satisfatórios. Se não, será
debitada como outra maquiagem. Até agora, ela tem
sido tratada com olímpico desprezo por vários
órgãos do governo ou contestada nas prerrogativas
que precisa ter. O ministro Fernando Bezerra, aboletado
no comando de um ministério cercado de suspeitas
por todos os lados, deveria ter pedido a colaboração
da corregedora para acelerar os procedimentos de apuração
e encaminhamento judicial dos casos de fraude. Preferiu
demonstrar sua indignada irritação oficiando
ao ministro José Gregori, da Justiça, para
pedir apuração imediata de responsabilidades
pela divulgação de fitas da Polícia
Federal. Não solicitou informações
sobre a veracidade delas nem se mostrou tocado pelo seu
teor.
É
inquietante ver autoridades governamentais tolerantes e
compreensivas com a "demora natural" das comissões
de inquérito e dos processos sobre atos de corrupção.
É chocante ver como os repórteres, no legítimo
exercício da curiosidade que é geral
sobre a conduta em agências tidas e havidas
como centros de ações fraudulentas, são
mais ágeis que os investigadores oficiais. Faz lembrar
o Watergate, que só virou história porque
antes foi reportagem baseada em vazamento de fitas.
Tratar quem vaza informações ou quem as torna
públicas como desestabilizadores da ordem é
um velho vício autoritário. Atitude infelizmente
usual sempre que há acusações incômodas.
Não são poucos os que colocam as coisas de
cabeça para baixo, atacando o "denuncismo" e não
a corrupção, condenando o vazamento de informações,
investindo contra quem acusa por razões políticas
ou não sem examinar a substância dos
vazamentos e das denúncias. Para ser justo: essa
atitude não é exclusividade do governo. Viu-se,
em casos de denúncias, no PT e em governos estaduais
do PDT, o mesmo comportamento. É parte do lado negativo
de nossa cultura política.
A imagem que se vai formando do presidente e do governo
é, certamente, intolerável para um político
da safra limpa, que começou na luta contra o autoritarismo
e a corrupção e se impôs a missão
de reformar o país, especialmente seu setor público.
Mas só atos concretos podem desfazê-la. As
reformas não podem parar naquilo que agrada ao mercado
e moderniza a atividade produtiva. Têm de chegar ao
comportamento da administração pública,
à gestão de recursos públicos e à
atividade política.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)