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Pinochet ainda mata
o Chile de vergonha
Tantas
vezes citado como exemplo,
na verdade o país mantém o poder civil
prisioneiro ainda do arbítrio militar
Não há mais
fantasmas, infelizmente. No tempo de Shakespeare,
fantasma era o que não faltava. Na peça Ricardo III,
o vilão do título, usurpador do trono da Inglaterra,
teve, na noite anterior à sua última batalha, o sono
perturbado pelo desfile dos fantasmas de suas vítimas
os rivais que apunhalara ao longo da vida, a mulher que
mandou matar para casar com outra, os dois sobrinhos
crianças que asfixiara na Torre de Londres. Os
fantasmas, desafiando sua soberba e clamando por
vingança, terminavam, um a um, repetindo o refrão:
"Desespera-te e morre!"
Voltaremos aos
fantasmas. Antes, saltemos da soberba para outro pecado
capital, a inveja. O Chile, ó!, o Chile. Como se invejou
o Chile, e continua a se invejar, no Brasil e em outros
países da América Latina. O Chile tem uma economia
certinha, domou a inflação bem antes dos vizinhos e
cresce a 6% ao ano. Fala-se do Chile, por estas bandas do
mundo, como se fala do primeiro da classe. É o
queridinho. Pois bem. Na semana passada, o Chile
proporcionou ao mundo um espetáculo de enrubescer
boliviano e alegrar iraquiano. Com a pompa de oficiais em
uniformes de gala e tropas em passo de ganso, armou-se a
cerimônia em que o general Augusto Pinochet enfim deixou
o comando do Exército, depois de 24 anos. O boliviano
enrubesceria porque nem em seu país se armam mais
semelhantes patuscadas militares. O iraquiano se
alegraria ao se dar conta de que Saddam Hussein não
está só. Em outras partes, há personagens não só
tão grotescas quanto, mas que também conseguem juntar
bandos de aduladores.
No dia seguinte,
Pinochet tomou posse numa cadeira vitalícia no Senado,
prerrogativa que a Constituição por ele mesmo
baixada reserva aos ex-presidentes. Pinochet no
Parlamento, percebe o leitor o alcance disso? Parlamentos
destinam-se à solução pacífica dos conflitos. São
casas onde se expõem as divergências, buscam-se os
consensos e tenta-se compatibilizar o desejo das maiorias
com os direitos das minorias por definição,
portanto, casas onde as armas silenciam. Pinochet, no
Parlamento que ele fechou, é uma contradição em
termos. É Mussolini, se tivesse sobrevivido, no Senado
da Itália democrática do pós-guerra, ou Stálin na
Duma da atual Federação Russa. Negociar o quê, com
ele? Parlamentar como?
Os eventos da
semana passada diminuíram o Chile. Fizeram recordar que,
em matéria institucional, ele está ainda em algum ponto
entre a década de 60 e a de 70. É o país dos caciques
militares intocáveis e dos senadores biônicos. Uma vez,
Pinochet colocou o Exército de prontidão para livrar
seu filho de um processo de corrupção. O Chile, com os
sucessos de sua economia, ficou tão cheio de si que
sonhou estar a um passo do Primeiro Mundo. Até esnobou o
Mercosul e planejou associar-se ao Nafta, o mercado comum
da América do Norte. No Primeiro Mundo não há
notícia, porém, de Exércitos mobilizados para salvar o
filho do comandante das malhas da lei. Tampouco há
notícia de generais que, do comando do Exército, ganham
passagem direta e gratuita para o Senado.
Alguns relativizam
as maldades do regime militar chileno opondo-lhes os
êxitos econômicos. Outros vão além: atribuem a boa
economia ao regime, como se as ditaduras favorecessem o
progresso. O peruano Mario Vargas Llosa respondeu a esse
argumento, num artigo recente, da seguinte forma:
"Se a ditadura militar fosse o caminho mais curto
para o desenvolvimento, a América Latina, com seu rico
prontuário de satrapias castrenses, seria o continente
da modernidade".
Quantos morreram no
regime de Pinochet? Três mil e tantos, hoje se diz. Já
se falou em 20.000. Nos dias que se seguiram ao golpe que
derrubou Salvador Allende, em setembro de 1973, algumas
centenas, talvez milhares, de opositores do regime foram
aprisionados no Estádio Nacional, onde se deram cenas de
tortura e fuzilamento. Hoje o Estádio Nacional voltou a
ser palco de jogos de futebol. Quem tem boa memória
sofre nessa hora um arrepio. É como se uma final
estivesse sendo disputada em Auschwitz. O cantor Victor
Jara, para repetir uma conhecida história, antes de ser
morto, no Estádio Nacional, teve os dedos decepados.
Caso escapasse com vida, pelo menos não poderia mais
tocar seu violão.
O regime militar
chileno ia longe, em seus crimes. O general Carlos Prats,
antecessor de Pinochet no comando do Exército, que
permanecera fiel a Allende, um dia foi dar partida ao
carro, no exílio em Buenos Aires, e uma bomba explodiu.
Morreram ele e a mulher. Orlando Letelier, ex-ministro de
Allende, um dia circulava em seu carro, no exílio em
Washington, quando uma bomba explodiu. Morreram ele e a
secretária americana a quem dava uma carona. Se
estivéssemos numa peça de Shakespeare, eles estariam
todos lá, na semana passada os fantasmas. Desfilariam
um a um, nas costas de Pinochet os fantasmas de Victor
Jara, de Prats, de Letelier, da mulher de Prats e da
secretária de Letelier, um a um sussurrando o refrão
das vítimas de Ricardo III.

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