Ai, caramba!

Uma tortilla desandada com receita brasileira

Delaney Mossbacher atropela Cândido numa estrada californiana. O primeiro é "um humanista liberal com impecáveis antecedentes automobilísticos". O segundo, um imigrante ilegal com dentes podres e bigodes grisalhos. Começa assim o romance de T. Coraghessan Boyle, América (tradução de Celso Nogueira, Companhia das Letras, 358 páginas, 30 reais). Podia dar certo. Podia ser o ponto de partida para uma debochada sátira social: rico contra pobre, branco contra índio, gringo contra papa-tortilla. O conflito entre os dois antípodas, no entanto, termina imediatamente depois de ter começado. Delaney compra o silêncio de Cândido dando-lhe 20 dólares e, a partir daí, suas histórias nunca mais voltam a se cruzar. Em capítulos alternados, acompanhamos, de um lado, Delaney e sua mulher, Kyra, e, do outro, Cândido e sua mulher, América. O casal americano é tratado de maneira cômica. Comicidade um tanto óbvia, cuja essência é mais ou menos a seguinte: a bem-comportada sociedade americana gerou monstros que só se preocupam em proteger a natureza e os animais domésticos, esquecendo-se dos pobres coitados dos imigrantes. Pouco, né? Os capítulos dedicados a Cândido e América nem isso têm. T. Coraghessan Boyle, sabe-se lá por quê, preferiu eliminar qualquer possibilidade de humor e desenvolveu uma espécie de romance engajado, de denúncia. Cândido, entre outras desgraças, passa fome, frio, é surrado com um taco de beisebol, roubam-lhe o dinheiro, perde suas economias durante um incêndio. América também se dá mal. É violentada e escravizada. É corroída pelo ácido. Tem uma filha cega. Cândido e América sofrem tanto quanto Cândido e Cunegundes. Contrariamente a Voltaire, porém, Boyle sente infinita piedade por seus personagens, destituindo-os de toda a graça.

O título original do romance é Cortina de Tortilla. Percebe-se aí o seu aspecto esquemático. Com a queda da cortina de ferro, a Guerra Fria entre Ocidente e Oriente cedeu lugar à batalha entre Norte e Sul. O novo Muro de Berlim é a cerca de arame farpado que separa os Estados Unidos da América Latina. Apesar de ser americano, T. Coraghessan Boyle, com um certo paternalismo, torce por nós. Mas não é essa a questão. A questão é que não existe sátira pela metade, como América, que ataca uma parte e defende a outra. A sátira, por definição, é indiscriminada. Destrói aquilo que encontra pela frente, disparando para todos os lados, sem poupar ninguém. Claro, esse discurso nos diz respeito. Os eventos narrados em América poderiam ocorrer no Brasil. Paulistano rico atropela migrante miserável. Bom assunto para livro, filme ou quadro. A nossa tendência seria fazer como T. Coraghessan Boyle: ridicularizar as características mais grotescas do rico e construir mensagens edificantes para o pobre. Como se o dinheiro corrompesse o homem. Como se só a miséria o dignificasse. Esse tipo de retórica demagógica, populista, consolatória sempre teve muito sucesso entre nós. Deve ser por causa da nossa velha cultura católica. Deve ser porque é fácil de compreender. T. Coraghessan Boyle, sem saber, talvez tenha encontrado seu público ideal.

Diogo Mainardi




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