Teatro de sombras

Dois estudos de fôlego esclarecem parte
do enigma histórico chamado China

Paisagem chinesa
do século XVIII:
para inglês ver

Berço de uma civilização milenar, quintal de potências estrangeiras, cadinho de centenas de etnias, laboratório de uma curiosa alquimia que mistura princípios socialistas com economia de mercado — não importa a época focalizada, a China é, aos olhos ocidentais, um teatro de sombras, do qual se percebem os contornos mas dificilmente a essência. Em busca de melhor compreensão dessa região do mundo onde se concentra um quinto da humanidade, uma penca de estudiosos vem se debruçando sobre a sua História. Disso resultam muita bobagem e poucas coisas realmente aproveitáveis. Entre essas últimas figuram dois livros recém-publicados no Brasil: O Império Imóvel, de Alain Peyrefitte (Casa Jorge Editorial; tradução de Cylene Bittencourt; 688 páginas; 48 reais), e O Filho Chinês de Deus, de Jonathan Spence (Companhia das Letras; tradução de S. Duarte; 413 páginas; 33 reais). Ambos são fruto de intensa garimpagem em museus e bibliotecas e lançam mão de diversos documentos inéditos. Enquanto Peyrefitte se esforça para identificar as raízes do "choque entre dois mundos" — os confrontos entre China e Ocidente —, Spence analisa a Revolução Taiping, evento do século XIX.

Peyrefitte reconta, em O Império Imóvel, o fracasso do primeiro encontro diplomático entre Inglaterra e China. Foi em 1793. De um lado, o inglês George Macartney. De outro, o imperador em pessoa, Qianlong, Filho do Céu. Quando o imperador surge, todos os presentes se curvam para realizar o "kotow", uma reverência tripla em que a cabeça toca o solo. Lorde Macartney, porém, não se abala: só dobra um pouquinho o joelho. E, nessa quebra de protocolo, todo o esforço de diplomacia vai por água abaixo. A China não podia aceitar a insolência dos "bárbaros" europeus. A Inglaterra não se humilharia diante de uma nação atrasada. Para Peyrefitte, não há episódio melhor do que esse para sintetizar a história de mal-entendidos entre Oriente e Ocidente. Recorrendo a um método pouco ortodoxo de escrita histórica, que combina narração e opinião, o autor costura "o olhar inglês, o ângulo missionário e a visão dos chineses".

Mandarim em traje de
gala: o lorde ocidental
não entendeu nada

Se os diplomatas britânicos retratados por Peyrefitte tiveram problemas com um monarca "divino", o filho chinês de Deus de que fala Jonathan Spence é bastante diferente. Seu nome era Hong Xiuquan e ele se tornaria líder da mais importante rebelião camponesa da História da China, a Revolução Taiping, que durou quinze anos. A carreira revolucionária de Hong começa com uma visão, depois da leitura de trechos da Bíblia cristã traduzida por missionários. Levado ao paraíso por um anjo, Hong teria sido recebido como o segundo filho de Deus. De volta à terra, traria um desígnio: "Exterminar todos os demônios, governar o mundo e salvar o povo". Hong monta um exército, conquista territórios e até estabelece uma capital na cidade de Nanquim, rebatizada como Nova Jerusalém. Narrada em cores vivas por Spence, a saga de Hong Xiuquan, um chinês inspirado pela religião européia, se torna mais um exemplo da química explosiva que — ainda hoje — resulta dos encontros entre Ocidente e Oriente.




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