Idéias para uma
nova arrancada

O mais completo estudo sobre a produtividade
brasileira mostra que o país pode crescer rapidamente

Antenor Nascimento Neto e Eliana Simonetti

Foto: Paulo Jares
Central de reservas da Varig, no Rio de Janeiro: investimento na eficiência

O Brasil pode crescer 8,5% ao ano em uma década, sem necessidade de investimentos brutais. A produtividade de sua indústria, comércio e serviço pode aumentar em 50% até o ano de 2005, aproximando-se bastante dos índices atuais da eficiência japonesa. O grau de educação do trabalhador brasileiro é sofrível, para não dizer ruim, em comparação com o de trabalhadores de outros países em desenvolvimento, mas nem isso impede que a economia brasileira dê um salto de boa altura, capaz de dobrar o PIB per capita em pouco tempo. Os eternos adeptos do mau humor dirão que tudo isso é um conto da carochinha, um tremendo chute. Pois essas são as conclusões de um estudo profundo sobre a capacidade econômica brasileira, feito entre 1995 e 1997 pela consultoria americana McKinsey e seu instituto de pesquisas globais, o McKinsey Global Institute. Seus resultados, assim como a qualidade das informações levantadas, são inéditos, além de surpreendentes.

Trabalha-se de forma ineficiente no país. O operário da construção civil pinta a parede, que depois é arrebentada para a instalação dos fios elétricos. Na montadora, perde-se tempo pois o metalúrgico está longe das peças que instalará no carro. Apenas com a reorganização dos métodos de trabalho a produtividade pode aumentar 34%. Novos investimentos são necessários, mas o capital aplicado no Brasil dá um retorno melhor do que se pensa. Essa é uma das conclusões do estudo que atinge crenças convencionais. Cada dólar que a Coréia aplica em sua indústria alimentícia resulta em produtos que valem apenas 62 centavos. Dá prejuízo. No Brasil, 1 dólar produz 1,20 dólar.

Para que a produtividade cresça, gere empregos, enriqueça o país, os investimentos precisam subir dos 19% do PIB anuais para 26%. Dá para conseguir o dinheiro sem empenhar a alma. Os bens de capital — máquinas e equipamentos para empresas — cairão de preço em função da abertura comercial e da competição entre os fabricantes. Isso fará com que o investimento pule de 19% para 21%. O custo dos empréstimos bancários deve cair de 6% para 2%, estima a consultoria. Com isso, a taxa de investimento sobe para 23%. Finalmente, de acordo com a McKinsey, o governo tende a reduzir seu déficit, e o setor privado tende a poupar. Chega-se assim aos 26%.

Os empresários brasileiros, revela o estudo, não se relacionam da melhor maneira com seus fornecedores, não utilizam a capacidade de sua fábrica ou loja com máxima eficiência e desenham novos produtos sem levar em conta, muitas vezes, a dificuldade de fabricá-los. Com a correção desses quesitos, ganham-se mais 34% em produtividade. A receita parece mágica. Poupa-se um pouco, organiza-se melhor o trabalho, ajusta-se a roda para girar melhor — e o país recebe como prêmio um PIB per capita dobrado de 10.000 dólares em 2005, ano que não está tão longe assim. A McKinsey avisa que isso não é uma previsão nem um evento que necessariamente ocorrerá. O trabalho mostra apenas que se pode transformar o país com recursos que se encontram à mão. A diferença entre essa avaliação e outras que já foram publicadas é que desta vez a consultoria fez uma dissecação exaustiva da potencialidade do país.

Nos dois anos de investigação, vinte pesquisadores da McKinsey trabalharam 20.000 horas na coleta e interpretação dos dados, ao custo de alguns milhões de dólares. Além de mergulhar na leitura de pilhas de documentos, visitaram vendinhas na periferia de Salvador, agências de bancos no centro de São Paulo, canteiros de obras, grandes empresas industriais. Acompanharam a vida dos feirantes, entrevistaram passageiros em aeroportos, avaliaram máquinas no galpão das fábricas, mediram as horas que um pedreiro leva para erguer uma parede — e até mediram a espessura da parede. "Nós precisávamos saber como o Brasil trabalha, onde estão os defeitos, e como ele pode se aproximar das melhores práticas produtivas", diz o gerente do projeto, William Jones.

O resultado é um relatório com 588 páginas de textos e gráficos que retratam um Brasil com muitos problemas, mas grandes possibilidades de resolvê-los. "Não há barreiras estruturais para o crescimento econômico do Brasil", diz Heinz-Peter Elstrodt, o coordenador do estudo. "Não será fácil, mas é possível voltar a crescer em um ritmo acelerado", conclui. Só se recomenda a leitura desse calhamaço àqueles que têm estoque de paciência e o dom da concentração. Uma síntese, mais fácil, será brevemente publicada em livro. A McKinsey teve tanto trabalho e precisou elaborar um relatório tão complexo porque não existem estatísticas confiáveis sobre a produtividade no Brasil. Também não foi possível utilizar referências mais antigas, porque elas foram deformadas pela superinflação, que só terminou em 1994. O lado mais interessante da investigação não está nem nas 588 páginas nem na síntese. Está na experiência que os observadores tiveram quando saíram em campo. Eles investigaram oito setores — siderurgia, montadoras de carros e fábricas de autopeças, telecomunicações, bancos de varejo, indústria e comércio de alimentos, empresas aéreas e construção civil.

De todos eles, o menos produtivo é o comércio de alimentos. Nesse campo, o problema é sério. Os supermercados e hipermercados não fazem feio perto dos estrangeiros, mas não são eles quem comandam a venda de alimentos. Quem manda são as mercearias de esquina, as feiras de rua, os ambulantes. Juntos, eles empregam mais de 90% dos 3 milhões de trabalhadores do setor e faturam 64% dos 61 bilhões de reais girados em 1995. O dono da mercearia compra pouco. Por isso, não obtém bons preços do atacadista. Não consegue fazer promoções, nem calcular bem o seu estoque e precisa retirar um rendimento razoável de seu negócio. Quem paga é o consumidor.

Rosimeire Dantas dos Santos, dona de uma birosca de 15 metros quadrados na favela de Heliópolis, em São Paulo, faz suas compras em supermercados. Trabalha dezesseis horas por dia, todos os dias da semana, para vender cerca de 3.000 reais por mês. Seu lucro é de 1.500 reais. Consegue essa façanha porque vende tudo o que compra pelo dobro do preço. Aí se tem a fotografia da improdutividade, captada pela McKinsey. Uma pessoa trabalha demais para vender pouco, e além disso incha os preços. Há pequenos comerciantes que conseguem desempenho de Primeiro Mundo, mas são raros. Em Belo Horizonte, a padaria Grão de Trigo é inteiramente informatizada, do forno que produz o pão ao caixa que recolhe o dinheiro. Cada funcionário (eles têm participação nos lucros) produz 3.000 reais por dia, trinta vezes mais do que Rosimeire.

O fato é que essas distorções, presentes em toda a economia brasileira, podem ser resolvidas, embora as soluções não sejam fáceis nem rápidas. O comércio funciona bem quando é praticado em grande escala. Na Alemanha e nos Estados Unidos, há grandes redes de lojas de conveniência, que compram quantidades enormes e revendem os produtos a preços até 30% mais baixos do que os supermercados. No Brasil, redes desse tipo começam a se formar. Se elas se ampliarem, o efeito sobre o preço dos alimentos será tremendo.

Foto: Frederick Jean
Fábrica da Motorola em Jaguariúna: telecomunicações geram empregos e investimentos

Entre os setores mais ágeis está a indústria automobilística. Aí, de acordo com a McKinsey, a produtividade cresce 17% ao ano desde 1991, data que coincide com a abertura comercial. Mesmo nesse campo pode-se aumentar dramaticamente a eficiência. Cada metalúrgico americano produziu 122.000 dólares para sua empresa em 1995. Cada brasileiro gerou 31.000 dólares em 1996. Numa escala de zero a 100, sendo que 100 é o grau de eficiência da indústria automobilística americana, a brasileira ganha nota 30, hoje. Pode chegar a 79 pontos, dentro de dez anos, apenas mudando sistemas de trabalho. Nas linhas de montagem, a peça está muitas vezes a mais de 3 metros de distância do trabalhador. Ele é obrigado a entortar o corpo para parafusar e trocar de ferramenta algumas vezes durante a mesma operação. Tudo isso resulta em perda de tempo e principalmente de qualidade — coisas que acabam sendo adicionadas ao preço dos carros. No Japão, apenas 20% dos automóveis precisam de ajustes depois de montados. No Brasil, quase todos necessitam de retoques. Sem contar o fato de que, por falta de coordenação com a indústria de autopeças, em algumas fábricas metade dos carros montados fica no pátio esperando peças que faltam.

No comércio, as modificações serão difíceis. Na indústria automobilística serão bem mais fáceis. As montadoras que estão chegando, como as coreanas e japonesas, trarão os mesmos sistemas de trabalho adotados na matriz. O padrão de uma Honda, superior ao americano, servirá como estímulo para que as outras se modernizem. Por isso, a McKinsey estima que em 2005 a produção física de carros no Brasil pode ser 180% superior à atual. Se as melhorias acontecerem (e as tarifas de importação caírem para 20% nos próximos oito anos), o preço dos carros pode ser reduzido 4% ao ano, em média. Uma conclusão curiosa do estudo: ao contrário do que normalmente se diz, a instalação de robôs e computadores não é fator de extrema importância para o aprimoramento da indústria automobilística nacional. A automação responderia por apenas 10% do aumento da produtividade. A organização mais racional do trabalho, melhor relacionamento com os fornecedores e o desenho de novos modelos mais adequado à capacidade industrial são o que fará diferença. Somados, esses fatores impulsionam a produtividade em 27%.

Foto: Nelio Rodrigues
Indústria automobilística: crescimento rápido desde a abertura aos importados

Bem mais difícil será ajustar a construção civil às melhores práticas realizadas no exterior. Falta tudo no setor, desde financiamento até projetos bem elaborados. É a que mais emprega trabalhadores sem registro e a maioria das empresas é pequena, sem capacidade de investir em tecnologia. O índice de produtividade brasileiro, comparado ao dos Estados Unidos, é tenebroso. Um operário constrói, em São Paulo, 35 metros quadrados a cada 1.000 horas de trabalho. Um operário de Houston constrói 130 metros quadrados em 1.000 horas, quase quatro vezes mais. A conseqüência é que a casa brasileira custa 250 dólares por metro quadrado, enquanto a americana sai por 210. Essas comparações foram feitas pela McKinsey usando construções semelhantes (conjuntos habitacionais para pessoas de baixa renda) e mão-de-obra parecida. No canteiro de Houston trabalhavam mexicanos que mal falavam inglês e tinham escolaridade parecida à dos pedreiros brasileiros.

A diferença é que os pedreiros mexicanos recebiam melhor orientação de seus engenheiros e trabalhavam num projeto que, de tão bem elaborado, não deixava margem a erro. Usam uma quantidade enorme de materiais pré-fabricados e se especializam em algumas funções. No Brasil, um grupo de operários faz quase tudo no canteiro. Trabalha no alicerce, assenta os blocos, monta o banheiro, o telhado e o piso. Nos Estados Unidos há pequenas empreiteiras para cuidar de cada etapa da construção. Esse setor se mexerá pouco nos próximos dez anos. A produtividade pode crescer no máximo 66%, e a única mudança simples é fazer projetos mais fáceis de executar.

Em dois outros pontos a pesquisa da McKinsey tocou em setores cuja produtividade atual é sofrível, mas pode aumentar com rapidez. No campo das companhias aéreas, descobre-se por que o brasileiro paga tanto para viajar de avião. Um dos problemas está na compra de passagens. Nos Estados Unidos e na Europa funcionam centros de reserva em que trabalham milhares de pessoas atendendo a telefonemas. Dificilmente o passageiro é obrigado a apelar para a intermediação de uma agência de viagens. No Brasil o atendimento por parte das companhias aéreas já melhorou um pouco, embora esteja longe da eficiência das companhias americanas ou européias. Até o início do ano passado, a central de reservas da Varig atendia a 800.000 chamadas por mês. Cerca de 80.000 pessoas desligavam sem paciência para esperar na linha. Em meados de 1997, a companhia investiu 7 milhões de reais nesse setor, o que a tornou capaz de atender a 1 milhão de chamadas mensais, mas rapidamente.

Problema mais sério ocorre nos aeroportos. No Brasil, a pessoa compra a passagem num balcão, pega uma fila do outro lado do aeroporto para entregar a bagagem e fazer o check-in. Isso torna o processo mais caro do que em outros países, onde todos os procedimentos se concentram em um único balcão. Nos Estados Unidos, passagens já são vendidas pela Internet, o que faz do comércio de bilhetes uma operação quase sem custo para a companhia. Um caminho para aprimorar o atendimento aos brasileiros, e baixar o preço das tarifas, é permitir que empresas estrangeiras operem com mais intensidade no país. Nesse caso, segundo a McKinsey, o preço da hora voada pode cair dos atuais 300 dólares para 150, em cinco anos. Nada mau.

O campo no qual a produtividade deve subir como um foguete é o das telecomunicações. A explicação é simples: o governo está privatizando o sistema Telebrás, e o que a McKinsey espera desse processo é uma tremenda competição entre os consórcios que comprarem as empresas telefônicas estaduais. O Brasil até leva vantagem sobre outros países em termos de tecnologia. Nos Estados Unidos, no Japão e na Europa já funcionam sistemas modernos, mas não os de última geração. Não se espera que joguem fora o que já está funcionando só para acompanhar a onda tecnológica. Mas quem vier a reformar uma Telesp ou uma Telerj pode trazer o que há de mais novo.

As demais melhorias virão simplesmente pelo fato de que as companhias telefônicas terão novos donos. Quando o patrão era o Estado, compravam-se equipamentos de poucos fornecedores, o que elevou os preços e impediu a expansão das linhas. Com isso, criou-se um mercado negro em que uma linha chegou a ser vendida por 5.000 dólares. Para organizar a transferência dessas linhas e evitar fraudes, o sistema Telebrás usa 70% do pessoal dedicado a vendas. De acordo com a McKinsey, a produtividade das telecomunicações no país pode crescer 12% ao ano e criar 100.000 empregos. Haverá necessidade de muito investimento — 105 bilhões de dólares até 2005.

Aumentar a eficiência de um país como o Brasil não é fácil. Não que seja preciso muito dinheiro, mas porque é preciso mudar o comportamento das pessoas — do operário ao diretor da empresa. E as pessoas, como se sabe, não gostam de mudar. Às vezes, a simples mudança da rotina de uma linha de produção de automóveis demora anos para ser aceita. Isso quer dizer que, provavelmente, o sujeito continuará comprando na pequena mercearia porque conhece o dono, que lhe vende fiado. Na construção civil, o hábito de contratar alguns pedreiros para construir a casa continuará — é um comportamento quase inconsciente. Os bancos brasileiros, em sua maioria, funcionam com base em milhares de pequenos procedimentos pouco eficientes. Os que não se modernizaram ainda conferem manualmente a assinatura de um cheque que chega da câmara de compensação. Em muitos deles, o movimento da agência é inscrito em fitas de papel quilométricas, que têm de ser conferidas no final do dia. Isso aumenta o custo dos empréstimos em 6%, o que torna o capital mais caro.

A McKinsey avisa que mudar é possível, mas o esforço para ajustar os parafusos brasileiros será tremendo. Há alguns requisitos para esse ajuste. As importações terão de continuar, assim como os empréstimos, e o déficit externo será de 4,5% do PIB ao ano — rombo que os economistas consideram insuportável a longo prazo. "Esses 4,5% são uma grande exposição aos riscos externos, mas são o preço a pagar para que o país cresça mais rápido", diz Heinz-Peter Elstrodt, o coordenador da pesquisa. Para manter o déficit externo nesse nível será preciso que as exportações aumentem 12% ao ano. Uma outra precondição é que a estabilidade econômica permaneça, assim como a abertura comercial.

Entre 1900 e 1980 o Brasil cresceu rapidamente, tornando-se uma potente economia industrial. A renda per capita, nesse período, saltou de 700 para 5.000 dólares. Parou nesse ponto, com a crise da dívida, a hiperinflação e a recessão econômica dos anos 80. O país perdeu quinze anos e agora não tem mais saída. Precisa voltar a crescer a taxas aceleradas, não só para melhorar um pouco a vida das pessoas, mas para dar ocupação à enorme população que chega à idade de trabalhar todos os anos.

Dormindo com o feirante

Para conhecer com exatidão a produtividade brasileira, os pesquisadores da McKinsey foram para as ruas. Houve quem visitasse indústrias, canteiros de obras e bancos. A experiência mais inusitada coube ao consultor Leonardo Letelier (chileno, 24 anos, engenheiro formado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, hábil em francês, inglês, português e espanhol), encarregado de estudar o comércio de alimentos. Para conhecer o trabalho na feira, ele dormiu na casa de um feirante e o acompanhou desde o café da manhã até o final do dia. Papel e caneta na mão, anotou tudo o que ele fez.

A montagem da barraca começou às 5 horas da manhã. Até as 11 horas, o feirante papeou com os amigos e acertou contas, registradas em papéis amassados que guardava no bolso. Vendeu quase tudo entre 11 da manhã e 1 hora da tarde. Depois, foi comprar verduras para o dia seguinte, sem negociar ou pechinchar demais, porque seus fornecedores são velhos conhecidos que muitas vezes lhe vendem fiado. A faina terminou às 9 horas da noite, quando a Kombi voltou para a garagem da casa do feirante. Conclusão de Letelier: "O feirante trabalhou dezesseis horas se preparando para vender em apenas duas horas. Ele tem uma vida difícil e uma produtividade baixíssima, que faz aumentar os preços na feira".




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