Pesadelo sideral

Erro de cálculo faz o mundo entrar em
alerta contra asteróide em rota de colisão

Cena do filme Armageddon:
ainda ficção

Durante 24 horas, na semana passada, a humanidade viveu à espera do fim do mundo. Quarta-feira era um dia normal de trabalho no laboratório astronômico do Smithsonian Astrophysical Observatory, em Cambridge, Massachusetts, quando o computador entrou em pane. Detectara um asteróide, o 1 997 XF11, viajando em direção à Terra. O diretor, o astrônomo Brian G. Marsden, ficou alarmado. "A máquina pifou porque não estava ajustada para calcular rotas que chegassem tão perto", contou mais tarde. "Quando o computador travou, dissemos: bateu!" Pelas projeções, em 2028 o XF11 passaria a cerca de 50.000 quilômetros da Terra, muito mais perto do que a Lua, que fica a 384.000 quilômetros. Um raspão, em escala astronômica. Ainda assim, era um cálculo otimista. Como havia uma margem de erro de 290.000 quilômetros, Marsden não descartava que o asteróide viesse até a colidir com a Terra. Seria uma catástrofe. Com pelo menos 1,5 quilômetro de diâmetro, o XF11 atingiria a Terra a uma velocidade de 27.000 quilômetros por hora. O impacto, igual à detonação de 2 milhões de bombas atômicas, abriria uma cratera de 32 quilômetros de diâmetro e mataria bilhões de pessoas. Uau!

No mesmo dia, o cientista exortou os astrônomos de todo o mundo a ajudá-lo a refazer os cálculos. Na quinta-feira, todos apontaram seus telescópios para aquele pontinho no céu. Para sorte da espécie humana, as contas de Marsden foram trituradas. Pelas medições da Nasa, a agência espacial americana, em 2028 o asteróide passará a, pelo menos, 960.000 quilômetros da Terra — perto, mas bem longe de representar ameaça. "A probabilidade de esse asteróide trombar conosco é zero", anunciou o diretor do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, Donald Yeomans. Assim, o XF11 continuará a ser um velho vizinho da Terra. Circula ao redor do Sol a cada 21 meses, numa órbita mais ampla que a nossa. Embora decepcionante para os catastrofistas, o episódio mostrou quanto a astronomia se popularizou, depois da melhoria dos telescópios, das informações de sondas espaciais e dos esforços em desvendar fenômenos como os buracos negros e a presença de água em luas do sistema solar. Hoje asteróides são caçados como ETs. Na Universidade do Arizona existe até o serviço de "patrulhamento do espaço", que monitora o movimento de 108 asteróides considerados "potencialmente perigosos".

Os cientistas ainda não sabem ao certo como são os asteróides, pintados pela ficção antigamente como bolas incandescentes e, agora, como batatas siderais. Nenhum telescópio ainda tem a potência necessária para fixar com exatidão esses fragmentos de rocha que erram pelo cosmo. No Congresso americano, tentou-se aprovar um programa batizado de Clementine, para encontrar meios de capturá-los e destruí-los no espaço em caso de urgência. O projeto, defendido pelo deputado James Sensenbrenner, foi pulverizado no meio do caminho entre outros vetos orçamentários do presidente Bill Clinton em outubro passado. Nessa área, restou a fantasia. No próximo verão americano devem ser lançados dois filmes — Armageddon, com Bruce Willis, e Deep Impact, com Morgan Freeman —, baseados no mesmo roteiro: na iminência da queda de um asteróide fatal, um grupo é enviado ao espaço para bombardeá-lo antes que chegue à Terra. Felizmente na vida real não será preciso — pelo menos por enquanto.

Thales Guaracy




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