| |
Aliança dura de manobrar
Condomínios
de poder têm de agradar
a tanta gente que viram paquidermes
imobilizados por contradições
 |
| Pepe
Casals |
Foi uma astuciosa
obra de engenharia, pena que possa produzir um monstro.
Defendido por regras eleitorais que inviabilizam a
entrada em cena de aventureiros de última hora, o
presidente Fernando Henrique Cardoso conquistou a adesão
do PMDB. Será a vedete onipresente no horário político
na televisão e tem tudo para garantir uma folgada
vitória já no primeiro turno. A cena do presidente
docemente rendido aos encantos do mundanismo da política
nacional, emoldurado pelas gargalhadas do PMDB que
aderiu, de alguma maneira não é nova. Não porque
celebre o triunfo da fisiologia desbragada sobre o viço
ideológico. O "martírio" dos derrotados deu
esta falsa impressão. Mas basta que se pese na balança,
e ninguém descobrirá diferenças marcantes entre Jáder
Barbalho (vencedor) e Orestes Quércia (vencido), ou
entre Iris Rezende (da adesão) e Ronaldo Cunha Lima (da
oposição). O importante, no caso, era consumar uma
coalização mamute, com o mínimo de riscos. Mas para
quê? José Sarney também não tinha esta resposta
quando jogou tudo na prorrogação de seu mandato de
quatro para cinco anos. Podia ter deixado o governo com
uma inflação de 20% ao mês. Legou ao sucessor,
Fernando Collor, que o arrastou na campanha como um saco
de pancadas, a taxa mensal de 80%.
Condomínios de
poder têm de agradar a tanta gente que viram paquidermes
imobilizados por contradições. Se a aliança com o PFL
era difícil de manobrar, imagine-se um governo que nos
próximos quatro anos terá de compartilhar políticas,
cargos e favores também com o PMDB, o PPB e o PTB? A
moeda estável, uma tremenda conquista, ainda é a melhor
bandeira para uma campanha contra uma oposição com
baixa histamina. Mas tudo indica que a estabilização
já rendeu seus melhores frutos e pode a qualquer hora
pegar pela frente um novo surto de crise asiática. O
real sozinho não segura por muito tempo o flanco da
ação infeliz do governo em áreas sensíveis como
saúde, segurança e emprego. Alguém pode imaginar que
de um balaio partidário tão apinhado de siglas poderão
sair políticas que minimamente façam sentido para
qualquer uma destas áreas? Por quanto tempo o presidente
poderá sustentar o intrigante descompasso entre seu
prestígio pessoal de homem inteligente, culto, honesto e
elegante e de governante que não sabe dar respostas a
demandas tão candentes? No começo dos anos 70,
afrontado pela inclemência da miséria nordestina, o
general Emílio Médici fez uma frase de efeito que
jamais levou a conseqüência alguma: "A economia
vai bem, mas o povo vai mal". Fernando Henrique
parece achar possível perpetuar uma paródia do ditador
que foi seu algoz: O presidente vai bem, mas o governo
vai mal.

|
|