Tchica-tchica bum!

Carioca de Portugal, baiana para americano ver,
Carmen Miranda foi sempre um estouro

Ruy Castro

Carmen Miranda: por trás da alegria e das marchinhas de Carnaval, a dependência química

Taí, ela fez tudo para que os nossos pais ou avós gostassem dela. Mas só de alguns anos para cá o Brasil começou a retribuir o amor que lhe dedicou Carmen Miranda (1909-1955), carioca de Marco de Canavezes, Portugal, que, nos anos 40 e 50, se atreveu a cantar em inglês em filmes americanos. As lágrimas derramadas pela multidão em seu enterro (um dos mais impressionantes já vistos até hoje no Rio) não contam brasileiro é assim mesmo, adora enterrar seus ídolos. A verdadeira retribuição seria manter sua imagem e sua voz circulando, coisa que só precariamente aconteceu nos últimos 43 anos. Quantos brasileiros menores de idade já viram os filmes, escutaram os discos ou mesmo ouviram falar de Carmen Miranda?

Mas os piramidais turbantes hortifrútis que ela equilibrava na cabeça parecem ter voltado a florescer. No ano passado, a EMI relançou, numa caixa de cinco CDs, todas as 129 faixas que Carmen gravou para a antiga Odeon entre abril de 1935 e setembro de 1940. Agora é a BMG que repõe na praça 66 das 148 faixas que ela gravou para a antiga Victor de janeiro de 1930 a fevereiro de 1935, quando se mudou para a Odeon. A BMG não foi tão ambiciosa quanto a EMI e fez bem: sua caixa de três CDs (57 reais e, como a outra, intitulada Carmen Miranda) está de bom tamanho.

Não que a Carmen do começo de carreira fosse inferior porque ela nasceu pronta para a glória. O charme, a maneira especialíssima de cantar, a veia cômica, decididamente moleque, tudo isso já é perceptível desde as primeiras faixas, quando mal tinha sido apresentada a um microfone. Um exemplo é Dona Balbina, que é o lado B do seu primeiríssimo disco na Victor. Ao ouvi-la, é possível até imaginar a cantora revirando os olhinhos. E a fabulosa Taí (Pra Você Gostar de Mim), a marcha-canção de Joubert de Carvalho que a revelou definitivamente, foi apenas seu terceiro disco, lançado um mês depois do primeiro.

Bão com sertão Mas, se Carmen já era o máximo desde o começo, faltava-lhe um repertório à altura. Ela era melhor do que a maioria das coisas que aqueles compositores lhe ofereciam, e nem era por culpa deles alguns, como Ary Barroso, também estavam começando. A própria música popular brasileira é que, em 1930, 1931, ainda se sentia pavorosamente atraída por uma vocação rural e iletrada que fazia com que a maioria das letras insistisse em rimar iaiá com carnavá e bão com sertão. Por sorte, não demoraria que homens como André Filho, Assis Valente, Noel Rosa, Lamartine Babo, Ataulfo Alves, Walfrido Silva, Synval Silva e, claro, Ary encontrassem sua verdadeira língua e estabelecessem o grande samba urbano e carioca. É por isso que essa caixa da BMG melhora à medida que as faixas vão se sucedendo. Era a música popular que (em boa parte, graças a Carmen) estava evoluindo.

Mesmo assim, já há um número considerável de clássicos no repertório: Na Batucada da Vida, de Ary Barroso e Luiz Peixoto; a imortal Primavera no Rio, de João de Barro; e Alô... Alô..., de André Filho; marchinhas como Moleque Indigesto, Isto É Lá com Santo Antônio e a eufórica Chegou a Hora da Fogueira, todas de Lamartine Babo; o samba Minha Embaixada Chegou, de Assis Valente, um de seus mais constantes fornecedores de sucessos e, dizia-se, apaixonado por Carmen; além de preciosas parcerias de Noel Rosa (de quem se dizia que não gostava dela), como Tenho um Novo Amor (com Cartola), Assim, Sim (com Ismael Silva) e Retiro da Saudade (com Nássara). É uma bela coleção, mas recomenda-se aos leigos que ouçam a caixa começando pelo terceiro CD, passando depois para o segundo e só então ao primeiro.

Se essa caixa da BMG registra o começo da carreira de Carmen, uma biografia prometida para agosto, aniversário da morte da cantora, pode esclarecer o nebuloso fim de sua vida. O livro é Ta-hi, Carmen Miranda, e o autor é Iberê Magnani, diretor do museu Carmen Miranda, uma instituição carioca infelizmente mais freqüentada por turistas do que por nativos. Iberê apresenta como trunfos entrevistas inéditas com Aloysio de Oliveira, que a acompanhou durante catorze anos nos Estados Unidos, com o médico Aluísio Salles, que a atendeu em sua problemática volta ao Brasil em 1954, e até com seu viúvo, o americano David Sebastian, tido unanimemente como o vilão responsável por sua derrocada física e emocional.

É uma boa oportunidade para esmiuçar a verdadeira tragédia de Carmen: a dependência química. Seu biógrafo anterior, o falecido Cássio Barsante, produziu há anos um impressionante livro sobre ela Carmen Miranda, editora Europa , em que nega que a cantora fosse dependente. Mas, no texto, ele próprio se encarrega de fornecer os detalhes que comprovam a dependência: pelo menos desde 1953 Carmen só dormia sob o efeito de tranqüilizantes e, para voltar à tona, precisava de estimulantes. Segundo todos os relatos, as doses seriam proibitivas.

Pílulas com açúcar De acordo com Barsante, Carmen andava com uma maleta preta do tipo farmácia portátil, com o que se deduz que sua tolerância aos remédios estava aumentando. Esse coquetel a levou à depressão, com ou sem causas psicológicas, que seu médico americano, um certo doutor Marxer, tratava da pior maneira: substituindo seus comprimidos por pílulas de açúcar, sem que ela soubesse. Com isso, estava retirando abruptamente as substâncias que o organismo de Carmen já não podia dispensar. Alguns dos efeitos da síndrome de abstinência de barbitúricos são dores, tremedeiras, crises súbitas de choro, apagões, uma depressão ainda mais cavalar e a sensação de pânico efeitos observados na Carmen daquela época. Quando a pessoa apresenta esse quadro, as causas remotas tornam-se irrelevantes e o que importa é o tratamento, a retirada gradual das drogas sob rigoroso acompanhamento médico. Mas o tratamento a que a submeteram em Los Angeles também não poderia ter sido mais desastroso: os estúpidos eletrochoques (tomou pelo menos cinco aplicações).

Como terapia, em 1954, recomendaram-lhe vir ao Brasil, que não visitava havia catorze anos. Carmen embarcou em Los Angeles teria sido, na verdade, embarcada por Aloysio de Oliveira, que a carregou para o avião como se ela fosse uma paralítica. Durante o vôo, teria desmaiado e só voltado a si à custa de algum medicamento. Carmen desceu no Rio em 3 de dezembro, conseguiu articular alguma coisa com jornalistas, que perceberam seu incrível envelhecimento, trancou-se no Copacabana Palace e só saiu dali a 49 dias. A partir de então, sua breve temporada carioca foi uma sucessão de festas e homenagens, atravessando inclusive o Carnaval. Mas, ao voltar para casa, em Hollywood, reencontrou seu drama pessoal: o marido tirânico, a agenda cheia, o coquetel de comprimidos e a morte, poucos meses depois, na forma de um infarto, sozinha, de madrugada, em seu banheiro. Só a acharam pela manhã.

Ao rebobinar a vida de Carmen Miranda, e já sabendo como ela terminou, torna-se ainda mais emocionante ouvir suas primeiras gravações. É quase inacreditável que aquela jovem de 21 anos em 1930 a verdadeira inventora da alegria na música popular brasileira seja a mesma que, com apenas 46, veria negada a si uma ínfima parte da felicidade que ela passara distribuindo ao mundo.




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