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| Luiza Ruberti |
O sistema de Seguridade Social, misturando previdência, saúde e assistência social, foi criado na Constituição de 1988. As ambições eram escandinavas, e os recursos, moçambicanos. Nossa Previdência, que é pública e compulsória, não satisfaz nenhum dos objetivos de um bom sistema: assegurar aposentadorias decentes, transferir recursos para os mais pobres e acumular poupanças para alavancagem do desenvolvimento.
As aposentadorias são miseráveis para a vasta maioria. E excessivas, mesmo pelos padrões de países ricos, para um grupelho privilegiado. Há uma "solidariedade invertida", pois que a poupança dos pobres, vertida numa vala comum, é saqueada para financiar aposentadorias precoces e especiais de grupos politicamente mobilizados. Não há acumulação de poupança investível, pois que tudo é consumido em gastos correntes com os aposentados. É um sistema de repartição simples, sem reservas e sem capitalização.
São freqüentes no
Brasil as brigas com a lógica econômica, de que foram
exemplos o monopólio de risco pela Petrossauro e a
pretensão de autonomia tecnológica na informática. No
caso do INSS, a briga é com o cálculo atuarial. Fatores
vários ![]()
como o envelhecimento rápido da população, a
proliferação de aposentadorias precoces especiais e
múltiplas, o crescimento da economia informal, a
redução do número de contribuintes por beneficiário ![]()
prenunciam um desastre atuarial com data marcada. Em seu
formato atual, o sistema é antidemocrático, anti-social
e antidesenvolvimentista. Antidemocrático, porque priva
o cidadão do direito de escolher o administrador de sua
poupança, pois as contribuições são compulsoriamente
entregues ao INSS. A contribuição vira imposto. É
também anti-social, porque afluindo para a vala comum do
INSS as contribuições ficam sujeitas à predação de
grupos politicamente mobilizados, que auferem benefícios
desproporcionais. Na moderna literatura previdenciária,
já se começa a reconhecer que o clássico welfare
state das democracias ocidentais se torna cada vez
mais uma conspiração da classe média e das burocracias
estatais contra os estratos mais pobres da população,
menos vocais e politicamente desorganizados. Nosso
sistema é também antidesenvolvimentista, porque as
contribuições dos ativos são todas gastas para
financiar gastos correntes de aposentadorias, sem
alavancagem de investimentos, através de cadernetas. A
única solução para evitar os predadores políticos é
o abandono do sistema de repartição em favor do sistema
de capitalização individual previdenciária. Nesse
sistema, o benefício é sempre o valor capitalizado das
contribuições, eliminando-se o incentivo à busca de
aposentadorias precoces ou especiais.
Isso requer uma mudança fundamental da filosofia previdenciária: a previdência básica passa a ser responsabilidade do indivíduo, cabendo ao governo apenas duas funções: a) supervisionar e fiscalizar os administradores privados da poupança previdenciária e b) complementar a renda daqueles que, ao fim de sua vida laboral, não alcancem, através de suas cadernetas previdenciárias, um mínimo vital garantido por lei. O país pioneiro na adoção do sistema de capitalização individual foi o Chile, imitado integralmente pela Bolívia e parcialmente por cinco outros países latino-americanos. Estes ou permitem opção entre previdência pública e privada ou confinam a previdência pública a um teto extremamente modesto, liberando poupanças para aplicação no mercado previdenciário privado.
O Brasil é o país mais atrasado e tímido em suas reformas. A proposta que a duras penas o governo conseguiu aprovar no Senado e procura aprovar na Câmara é apenas um remendo que corrige algumas das mais escandalosas distorções e injustiças do atual sistema. E não lhe garante mais que uma sobrevida de três a cinco anos. O sistema de repartição tem defeitos genéticos incorrigíveis. Como dito antes, é antidemocrático, anti-social e antidesenvolvimentista. Quanto mais cedo dele nos livrarmos, melhor.
Roberto Campos é embaixador e deputado federal
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