Edição 1841 . 18 de fevereiro de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Livros
Depois do apartheid

Agora, aos 80 anos, Nadine Gordimer
explora em seus livros as dificuldades
de construir uma nação

Trechos do livro

A celebrada carreira literária de Nadine Gordimer e o infame sistema do apartheid nasceram quase ao mesmo tempo na África do Sul, em meados do século XX. A escritora publicou seu primeiro livro em 1949. Um ano antes, a chegada do Partido Nacional ao poder dera origem a um Estado racista, que oprimia a maioria negra do país. Desde o início, Nadine mostrou-se sensível às deformações que o apartheid produzia na vida pública e na vida privada dos sul-africanos, e logo ela despontou como uma das principais vozes brancas contrárias ao regime. Por isso, em 1994, quando o apartheid veio abaixo e as primeiras eleições livres em décadas conduziram o líder negro Nelson Mandela à Presidência da África do Sul, tornou-se comum perguntarem a ela o que lhe restaria dizer como escritora, uma vez que sua grande causa estava ganha. Nadine sempre respondia a essa pergunta com exasperação. A vida não parou com o fim do apartheid, dizia ela. Pelo contrário, restou a tarefa de criar uma nação a partir do nada – assunto para mais uma vida inteira dedicada à literatura.

Nadine Gordimer tem 80 anos. Ao longo da última década, publicou dois livros de ensaios, um volume de contos e dois romances, o mais recente dos quais, O Engate (tradução de Beth Vieira; Companhia das Letras; 291 páginas; 42,50 reais), recém-lançado no Brasil. O Engate lida com uma questão política de abrangência universal: a imigração. Num continente miserável, cravejado de ditaduras e de conflitos sangrentos, a África do Sul, em sua nova fase de abertura, tornou-se um ímã para trabalhadores ilegais e refugiados. "É preciso reconhecer que, durante as décadas de governo branco, os recursos do país se desenvolveram de maneira extraordinária", disse Nadine em entrevista a VEJA. "Isso fez de nós os líderes econômicos da África, e nos impôs alguns fardos." Um dos protagonistas de O Engate é Abdu. Ele saiu de seu país natal para ganhar a vida clandestinamente na Cidade do Cabo. Ali encontra Julie, garota branca de classe alta que se encontra em pé de guerra com os valores de seu meio, que ela julga rasos e materialistas. Os dois se tornam amantes e, quando Abdu é extraditado, Julie o segue de volta a casa. Ela se vê mergulhada na vida de uma comunidade muçulmana tradicional e, surpreendentemente, o convívio com as mulheres do lugar lhe traz conforto espiritual. O romance se encaminha então para um choque de visões de mundo: ele quer fugir do lugar onde ela se sente bem; ela despreza uma vida de confortos materiais que ele busca ardentemente, em qualquer país que o aceite.

Nadine Gordimer narra essa história a sua maneira usual, que é contida, despida de sentimentalismo e de julgamentos. Esses últimos ela sempre reservou para outras formas de intervenção pública. "A autonomia da ficção é algo sagrado para mim", diz ela. "Uso outros meios para lidar com minhas responsabilidades como cidadã." Nadine, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1991, nunca evitou o engajamento político. Nos anos de apartheid, seu apoio ao Congresso Nacional Africano (CNA), o principal partido de oposição ao governo, foi aberto e incondicional. Recentemente ela tem feito críticas pontuais ao presidente Thabo Mbeki, oriundo do CNA. Sua maior preocupação é a política sanitária em relação à aids, que se alastra no país. Fora da África, a principal causa política esposada por Nadine no momento é a libertação de cinco cubanos presos nos Estados Unidos sob a suspeita de terrorismo. Ela já publicou uma carta aberta de protesto sobre esse assunto. Surpreendentemente, contudo, nunca se manifestou contra a prisão arbitrária de 78 opositores de Fidel Castro em Cuba, no ano passado. A admiração pela ditadura de Fidel é seu fraco, como o de tantos outros intelectuais de esquerda. "Você não pode esperar os mesmos padrões de justiça de um pequeno país como Cuba, acossado há anos por um embargo econômico brutal dos americanos, e de um gigante como os Estados Unidos, que se dizem uma democracia", diz Nadine. Curiosa essa distinção. O certo é pensar que padrões de justiça são como os de higiene. Devem ser iguais em todo o mundo.

 
VIDA DE IMIGRANTE

"Eles espremem a história da vida dele em dois tempos. Então quer dizer que é de lá que ele vem; um deles sabe tudo a respeito daquele tosco país. O 'cara da oficina' tem um diploma universitário de economia, mas não há a mais desgraçada das chances (e aquele lugar é uma desgraça, sabe-se lá por quê, provavelmente por causa das facções políticas ou religiosas às quais ele pertenceu ou deixou de pertencer, ou pela falta de dinheiro para pagar suborno às pessoas certas) de conseguir uma colocação acadêmica. Um deles pondera, quebrando um palito de fósforo em pedacinhos: – Um economista obrigado a virar mecânico. Onde será que ele aprendeu a lidar com carros... Um outro tinha a resposta. – A necessidade obriga. A única forma de entrar em países que não querem você é como trabalhador braçal ou sendo da máfia."

Trecho de O Engate

 
 
 
 
topo voltar