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Livros
Depois
do apartheid
Agora,
aos 80 anos, Nadine Gordimer
explora em seus livros as dificuldades
de construir uma nação
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A celebrada
carreira literária de Nadine Gordimer e o infame sistema
do apartheid nasceram quase ao mesmo tempo na África do Sul,
em meados do século XX. A escritora publicou seu primeiro
livro em 1949. Um ano antes, a chegada do Partido Nacional ao poder
dera origem a um Estado racista, que oprimia a maioria negra do
país. Desde o início, Nadine mostrou-se sensível
às deformações que o apartheid produzia na
vida pública e na vida privada dos sul-africanos, e logo
ela despontou como uma das principais vozes brancas contrárias
ao regime. Por isso, em 1994, quando o apartheid veio abaixo e as
primeiras eleições livres em décadas conduziram
o líder negro Nelson Mandela à Presidência da
África do Sul, tornou-se comum perguntarem a ela o que lhe
restaria dizer como escritora, uma vez que sua grande causa estava
ganha. Nadine sempre respondia a essa pergunta com exasperação.
A vida não parou com o fim do apartheid, dizia ela. Pelo
contrário, restou a tarefa de criar uma nação
a partir do nada assunto para mais uma vida inteira dedicada
à literatura.
Nadine
Gordimer tem 80 anos. Ao longo da última década, publicou
dois livros de ensaios, um volume de contos e dois romances, o mais
recente dos quais, O Engate (tradução
de Beth Vieira; Companhia das Letras; 291 páginas; 42,50
reais), recém-lançado no Brasil. O Engate lida
com uma questão política de abrangência universal:
a imigração. Num continente miserável, cravejado
de ditaduras e de conflitos sangrentos, a África do Sul,
em sua nova fase de abertura, tornou-se um ímã para
trabalhadores ilegais e refugiados. "É preciso reconhecer
que, durante as décadas de governo branco, os recursos do
país se desenvolveram de maneira extraordinária",
disse Nadine em entrevista a VEJA. "Isso fez de nós os líderes
econômicos da África, e nos impôs alguns fardos."
Um dos protagonistas de O Engate é Abdu. Ele saiu
de seu país natal para ganhar a vida clandestinamente na
Cidade do Cabo. Ali encontra Julie, garota branca de classe alta
que se encontra em pé de guerra com os valores de seu meio,
que ela julga rasos e materialistas. Os dois se tornam amantes e,
quando Abdu é extraditado, Julie o segue de volta a casa.
Ela se vê mergulhada na vida de uma comunidade muçulmana
tradicional e, surpreendentemente, o convívio com as mulheres
do lugar lhe traz conforto espiritual. O romance se encaminha então
para um choque de visões de mundo: ele quer fugir do lugar
onde ela se sente bem; ela despreza uma vida de confortos materiais
que ele busca ardentemente, em qualquer país que o aceite.
Nadine
Gordimer narra essa história a sua maneira usual, que é
contida, despida de sentimentalismo e de julgamentos. Esses últimos
ela sempre reservou para outras formas de intervenção
pública. "A autonomia da ficção é algo
sagrado para mim", diz ela. "Uso outros meios para lidar com minhas
responsabilidades como cidadã." Nadine, ganhadora do Prêmio
Nobel de Literatura de 1991, nunca evitou o engajamento político.
Nos anos de apartheid, seu apoio ao Congresso Nacional Africano
(CNA), o principal partido de oposição ao governo,
foi aberto e incondicional. Recentemente ela tem feito críticas
pontuais ao presidente Thabo Mbeki, oriundo do CNA. Sua maior preocupação
é a política sanitária em relação
à aids, que se alastra no país. Fora da África,
a principal causa política esposada por Nadine no momento
é a libertação de cinco cubanos presos nos
Estados Unidos sob a suspeita de terrorismo. Ela já publicou
uma carta aberta de protesto sobre esse assunto. Surpreendentemente,
contudo, nunca se manifestou contra a prisão arbitrária
de 78 opositores de Fidel Castro em Cuba, no ano passado. A admiração
pela ditadura de Fidel é seu fraco, como o de tantos outros
intelectuais de esquerda. "Você não pode esperar os
mesmos padrões de justiça de um pequeno país
como Cuba, acossado há anos por um embargo econômico
brutal dos americanos, e de um gigante como os Estados Unidos, que
se dizem uma democracia", diz Nadine. Curiosa essa distinção.
O certo é pensar que padrões de justiça são
como os de higiene. Devem ser iguais em todo o mundo.
| VIDA
DE IMIGRANTE |
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"Eles
espremem a história da vida dele em dois tempos.
Então quer dizer que é de lá que
ele vem; um deles sabe tudo a respeito daquele tosco
país. O 'cara da oficina' tem um diploma universitário
de economia, mas não há a mais desgraçada
das chances (e aquele lugar é uma desgraça,
sabe-se lá por quê, provavelmente por causa
das facções políticas ou religiosas
às quais ele pertenceu ou deixou de pertencer,
ou pela falta de dinheiro para pagar suborno às
pessoas certas) de conseguir uma colocação
acadêmica. Um deles pondera, quebrando um palito
de fósforo em pedacinhos: Um economista
obrigado a virar mecânico. Onde será que
ele aprendeu a lidar com carros... Um outro tinha a
resposta. A necessidade obriga. A única
forma de entrar em países que não querem
você é como trabalhador braçal ou
sendo da máfia."
Trecho
de
O Engate
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