Edição 1841 . 18 de fevereiro de 2004

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Presidência
O custo do vôo presidencial

Lula vai comprar um jato novo. Seria
mais barato manter o sistema de aluguel
instituído por Fernando Henrique


Monica Weinberg

 
Ricardo Stuekert/PR
Lula embarca no Sucatão: aposentadoria tardia do avião fabricado em 1958

Quando o governo anunciou a disposição de gastar quase 57 milhões de dólares na compra de um jato para substituir o velho Sucatão, usado pelo presidente em suas viagens internacionais, levantou-se uma discussão em torno da escolha do fabricante. Por que o Palácio do Planalto encomendou um avião ao consórcio europeu Airbus se o Brasil possui uma das melhores e das mais competitivas fábricas de avião do mundo, que é a Embraer? A discussão ganhou corpo porque, durante a campanha eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu que, se eleito, deixaria de comprar plataformas de petróleo fabricadas no exterior e passaria a estimular sua confecção no Brasil, para criar empregos por aqui e não em outros países. Lula manteve a promessa, mesmo depois de alertado para o fato de que a tecnologia disponível no Brasil não era suficiente para produzir as plataformas desejadas pela Petrobras. Depois de eleito, não tocou mais no assunto.

Na semana passada, em uma visita do presidente Lula à sede da Embraer em São José dos Campos, foram eliminadas as últimas dúvidas em torno da opção feita pelo governo em favor da Airbus. O Planalto planejava comprar um avião com autonomia de 9.000 quilômetros, de forma a viajar do Brasil à Europa sem escalas. Segundo o presidente da Embraer, Maurício Botelho, a companhia não se encontra em condições de fornecer o avião especificado pela Presidência nem tem planos de produzir um modelo parecido.

 
O ACJ encomendado pelo governo: Europa sem escalas

O presidente Lula esteve na Embraer por ocasião do lançamento do mais novo jato da empresa, o ERJ-190, com preço estimado em 30 milhões de dólares, bem menor que o do Airbus. Apesar de ser a aeronave de maior autonomia da companhia, o ERJ-190 consegue levar passageiros numa distância máxima de 4.000 quilômetros sem reabastecimento. Voando sobre o território brasileiro, é capaz de cobrir o trajeto entre Manaus e Foz do Iguaçu, com folga. Mas haveria problema incontornável se o jato da Embraer fosse utilizado em viagens internacionais. Recentemente, o presidente Lula esteve na Índia. Se o governo decidisse cumprir o trajeto até lá a bordo do ERJ-190, a viagem do presidente levaria 23 horas e só chegaria ao destino depois de fazer até cinco escalas. O Airbus ACJ, modelo escolhido por Brasília, é um jato executivo com capacidade para 56 passageiros e autonomia de 11 600 quilômetros. É capaz de ir do Brasil à Índia com uma única escala – e a viagem duraria dezoito horas.

Esclarecida a opção por um avião de alcance mais longo, restaram algumas questões a respeito da compra do avião. Do ponto de vista econômico, o governo faria melhor negócio fretando uma aeronave como faz o primeiro-ministro inglês, Tony Blair, que aluga aviões da British Airways em seus compromissos internacionais. Muitos outros presidentes e primeiros-ministros do Primeiro Mundo seguem essa prática. O papa é outro que adota o mesmo estilo. Viaja nos jatos da Alitalia. VEJA comparou os custos envolvidos na compra de um avião novo e no aluguel de uma aeronave com iguais características. Na conta, consideraram-se os custos fixos, operacionais e financeiros que pesam em cada caso. Os valores usados no cálculo foram fornecidos pelo governo federal e por empresas aéreas. Em caso de dúvida, adotou-se o valor mais favorável ao governo. Uma consultoria, a Tendências, realizou os cálculos financeiros. O resultado indica que o fretamento seria uma opção mais barata.

Para calcular o custo da compra do ACJ é preciso considerar que a aeronave deverá ficar com o governo durante trinta anos. O Sucatão, o Boeing 707 atualmente em uso pela Presidência, está em serviço há 46 anos. Considere-se ainda que o novo avião será revendido depois desse prazo. O valor da venda deve, portanto, ser abatido do resultado final. Assim, apesar de o Airbus ACJ custar 57 milhões de dólares, o custo de comprar e manter um avião desses por trinta anos é de 44,8 milhões de dólares. Se optasse pelo fretamento, o governo gastaria 33,5 milhões de dólares nesse período. Ou seja, a economia seria de 11,3 milhões de dólares se optasse pelo fretamento. O valor do contrato anual se baseia nos pagamentos efetuados pelo governo entre 2000 e 2002, quando a Presidência locou um avião da TAM nas viagens internacionais do presidente Fernando Henrique Cardoso. Nos dois casos, levou-se em consideração que o avião seria usado por 270 horas anuais em viagens internacionais, uma conta bastante folgada. Em seu primeiro ano de governo, Lula fez 230 horas de vôos internacionais. Mantendo essa média, o governo poderia pagar ainda menos caso optasse pelo fretamento.

O governo afirma que a decisão pela compra do ACJ levou em conta outras variáveis, além da econômica. "Analisar a compra da nova aeronave presidencial apenas pela ótica dos custos não permite a visualização das partes mais importantes do processo", informa por escrito a assessoria de comunicação do Planalto. Entre as razões oficiais, está a maior segurança que uma aeronave própria proporciona à viagem presidencial, uma vez que a FAB se encarrega de colocar em prática uma cartilha de medidas padronizadas para reduzir riscos. Outro argumento é que uma aeronave feita sob medida oferecerá maior comodidade ao presidente. Do avião, Lula poderá despachar e conectar-se a qualquer ponto do planeta por meio de um sistema de comunicação via satélite. O modelo comprado pelo governo brasileiro terá uma suíte para o presidente, banheiro com chuveiro, copa, sala de reuniões e gabinete de trabalho. Essas são as razões de Brasília, as mesmas justificativas usadas pelos governos da Alemanha e do Canadá para explicar a aquisição de aeronaves próprias. A diferença é que, por medida de economia, esses dois países ricos optaram por jatos usados, mais baratos.

 

 
 
 
 
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