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Presidência
O
custo do vôo presidencial
Lula vai comprar um jato novo. Seria
mais
barato manter o sistema de aluguel
instituído por Fernando Henrique

Monica
Weinberg
Ricardo Stuekert/PR
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| Lula
embarca no Sucatão: aposentadoria tardia do avião fabricado
em 1958 |
Quando
o governo anunciou a disposição de gastar quase 57
milhões de dólares na compra de um jato para substituir
o velho Sucatão, usado pelo presidente em suas viagens internacionais,
levantou-se uma discussão em torno da escolha do fabricante.
Por que o Palácio do Planalto encomendou um avião
ao consórcio europeu Airbus se o Brasil possui uma das melhores
e das mais competitivas fábricas de avião do mundo,
que é a Embraer? A discussão ganhou corpo porque,
durante a campanha eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva prometeu que, se eleito, deixaria de comprar plataformas
de petróleo fabricadas no exterior e passaria a estimular
sua confecção no Brasil, para criar empregos por aqui
e não em outros países. Lula manteve a promessa, mesmo
depois de alertado para o fato de que a tecnologia disponível
no Brasil não era suficiente para produzir as plataformas
desejadas pela Petrobras. Depois de eleito, não tocou mais
no assunto.
Na semana passada, em uma visita do presidente Lula à sede
da Embraer em São José dos Campos, foram eliminadas
as últimas dúvidas em torno da opção
feita pelo governo em favor da Airbus. O Planalto planejava comprar
um avião com autonomia de 9.000 quilômetros, de forma
a viajar do Brasil à Europa sem escalas. Segundo o presidente
da Embraer, Maurício Botelho, a companhia não se encontra
em condições de fornecer o avião especificado
pela Presidência nem tem planos de produzir um modelo parecido.
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| O
ACJ encomendado pelo governo: Europa sem escalas |
O
presidente Lula esteve na Embraer por ocasião do lançamento
do mais novo jato da empresa, o ERJ-190, com preço estimado
em 30 milhões de dólares, bem menor que o do Airbus.
Apesar de ser a aeronave de maior autonomia da companhia, o ERJ-190
consegue levar passageiros numa distância máxima de
4.000 quilômetros sem reabastecimento. Voando sobre o território
brasileiro, é capaz de cobrir o trajeto entre Manaus e Foz
do Iguaçu, com folga. Mas haveria problema incontornável
se o jato da Embraer fosse utilizado em viagens internacionais.
Recentemente, o presidente Lula esteve na Índia. Se o governo
decidisse cumprir o trajeto até lá a bordo do ERJ-190,
a viagem do presidente levaria 23 horas e só chegaria ao
destino depois de fazer até cinco escalas. O Airbus ACJ,
modelo escolhido por Brasília, é um jato executivo
com capacidade para 56 passageiros e autonomia de 11 600 quilômetros.
É capaz de ir do Brasil à Índia com uma única
escala e a viagem duraria dezoito horas.
Esclarecida a opção por um avião de alcance
mais longo, restaram algumas questões a respeito da compra
do avião. Do ponto de vista econômico, o governo faria
melhor negócio fretando uma aeronave como faz o primeiro-ministro
inglês, Tony Blair, que aluga aviões da British Airways
em seus compromissos internacionais. Muitos outros presidentes e
primeiros-ministros do Primeiro Mundo seguem essa prática.
O papa é outro que adota o mesmo estilo. Viaja nos jatos
da Alitalia. VEJA comparou os custos envolvidos na compra de um
avião novo e no aluguel de uma aeronave com iguais características.
Na conta, consideraram-se os custos fixos, operacionais e financeiros
que pesam em cada caso. Os valores usados no cálculo foram
fornecidos pelo governo federal e por empresas aéreas. Em
caso de dúvida, adotou-se o valor mais favorável ao
governo. Uma consultoria, a Tendências, realizou os cálculos
financeiros. O resultado indica que o fretamento seria uma opção
mais barata.
Para calcular o custo da compra do ACJ é preciso considerar
que a aeronave deverá ficar com o governo durante trinta
anos. O Sucatão, o Boeing 707 atualmente em uso pela Presidência,
está em serviço há 46 anos. Considere-se ainda
que o novo avião será revendido depois desse prazo.
O valor da venda deve, portanto, ser abatido do resultado final.
Assim, apesar de o Airbus ACJ custar 57 milhões de dólares,
o custo de comprar e manter um avião desses por trinta anos
é de 44,8 milhões de dólares. Se optasse pelo
fretamento, o governo gastaria 33,5 milhões de dólares
nesse período. Ou seja, a economia seria de 11,3 milhões
de dólares se optasse pelo fretamento. O valor do contrato
anual se baseia nos pagamentos efetuados pelo governo entre 2000
e 2002, quando a Presidência locou um avião da TAM
nas viagens internacionais do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Nos dois casos, levou-se em consideração que o avião
seria usado por 270 horas anuais em viagens internacionais, uma
conta bastante folgada. Em seu primeiro ano de governo, Lula fez
230 horas de vôos internacionais. Mantendo essa média,
o governo poderia pagar ainda menos caso optasse pelo fretamento.
O governo afirma que a decisão pela compra do ACJ levou em
conta outras variáveis, além da econômica. "Analisar
a compra da nova aeronave presidencial apenas pela ótica
dos custos não permite a visualização das partes
mais importantes do processo", informa por escrito a assessoria
de comunicação do Planalto. Entre as razões
oficiais, está a maior segurança que uma aeronave
própria proporciona à viagem presidencial, uma vez
que a FAB se encarrega de colocar em prática uma cartilha
de medidas padronizadas para reduzir riscos. Outro argumento é
que uma aeronave feita sob medida oferecerá maior comodidade
ao presidente. Do avião, Lula poderá despachar e conectar-se
a qualquer ponto do planeta por meio de um sistema de comunicação
via satélite. O modelo comprado pelo governo brasileiro terá
uma suíte para o presidente, banheiro com chuveiro, copa,
sala de reuniões e gabinete de trabalho. Essas são
as razões de Brasília, as mesmas justificativas usadas
pelos governos da Alemanha e do Canadá para explicar a aquisição
de aeronaves próprias. A diferença é que, por
medida de economia, esses dois países ricos optaram por jatos
usados, mais baratos.
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