Edição 1841 . 18 de fevereiro de 2004

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Transgênicos
No coração do Planalto

Assessor do ministro da Casa Civil,
José Dirceu, é filmado pedindo propina
durante a campanha eleitoral de 2002

Na sexta-feira da semana passada, o governo federal divulgou o ato de exoneração de um funcionário da cúpula do Palácio do Planalto de nome Waldomiro Diniz, que atuava como assessor da Presidência da República, encarregado de assuntos parlamentares. Nos últimos tempos, o governo assinou diversos atos de exoneração, mas todos se relacionavam com o troca-troca de ministros e assessores durante o processo de reforma ministerial. A demissão de Waldomiro Diniz é diferente. Embora formalmente a decisão de sair tenha partido do funcionário, trata-se do primeiro grande caso de afastamento na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva motivado por uma denúncia de corrupção. A denúncia de corrupção contra ele é acachapante. Está gravada e filmada. O episódio ocorreu em 2002, durante a campanha eleitoral, no tempo em que Waldomiro Diniz presidia a empresa de loterias estaduais do Rio de Janeiro, a Loterj. Em duas ocasiões, Waldomiro se encontrou com um empresário do jogo do bicho chamado Carlos Augusto Ramos, vulgo "Carlinhos Cachoeira", que controla no Rio de Janeiro as máquinas de apostas lotéricas on-line. Nas gravações, o assessor palaciano pediu dinheiro para a campanha eleitoral e para ele próprio. "Deixa eu te falar outra coisa. Quero 1% para mim", pede. Em troca, garantiria a "Cachoeira" a manutenção de seu monopólio. A notícia da propina foi publicada pela revista Época e levada ao ar pela Rede Globo.

Beto Castro/AE
SOB O MESMO TETO
José Dirceu: o poderoso ministro precisou demitir o poderoso assessor com quem já dividiu apartamento em Brasília


Na função que ocupava no governo, Waldomiro respondia diretamente ao ministro da Casa Civil, José Dirceu. Cabia a ele a tarefa de manter contato com deputados e senadores, negociar a posição dos partidos da base aliada nas votações mais importantes e dar seqüência aos pedidos de toda natureza que os políticos fazem em troca do apoio que oferecem. O assessor passava o dia no Congresso Nacional. Praticamente todos os ministérios possuem um assessor que cuida dos interesses específicos de cada pasta no Congresso. Waldomiro recebeu de Dirceu a missão de centralizar as ações parlamentares desses assessores. Na estrutura de poder de Brasília, o subchefe de assuntos parlamentares tem mais força política que muitos ministros de Estado. Seu trabalho é tão sensível que cabia a ele escolher que parlamentares seriam convidados para solenidades, inauguração de obras e viagens oficiais da Presidência da República. No caso dos parlamentares do chamado baixo clero, que dificilmente têm acesso às autoridades mais destacadas na Esplanada, Waldomiro era uma referência de poder.

A partir de janeiro, com a reforma ministerial, o assessor passou a reportar-se formalmente ao ministro Aldo Rebelo, mas seus contatos com Dirceu permaneceram constantes e diários, muitas vezes feitos de celular para celular. A relação dos dois começou em 1992, quando Waldomiro Diniz chegou a Brasília por ordem da Central Única dos Trabalhadores. Recebeu a incumbência de auxiliar no trabalho de investigação da Comissão Parlamentar de Inquérito aberta em torno do empresário Paulo César Farias, ex-tesoureiro do presidente Fernando Collor. Bancário experimentado, demitido da Caixa Econômica Federal num corte de pessoal, Waldomiro se destacou pela habilidade com que rastreava cheques. Com o auxílio de colegas que continuavam empregados, ajudou a desvendar a rede de contas fantasmas do esquema operado por PC Farias. Foi nessa época que Waldomiro ganhou a confiança do então deputado José Dirceu, de quem virou assessor e com quem chegou a dividir um apartamento em Brasília.

Nelio Rodrigues
DE OLHO NO CRIME
Na CPI do PC, Waldomiro auxiliou o PT no processo de investigação


A amizade com José Dirceu valeu-lhe uma indicação para o cargo de assessor parlamentar do governo de Cristovam Buarque no Distrito Federal, entre 1995 e 1998. Buarque não se reelegeu e, também graças a José Dirceu, Waldomiro foi nomeado representante do governo do Rio de Janeiro em Brasília. O então governador, Anthony Garotinho, do PDT, havia sido eleito numa coligação com o PT da vice-governadora Benedita da Silva que foi costurada por Dirceu. Mais uma vez pelas mãos de José Dirceu, Waldomiro conseguiu ser nomeado para um cargo público, dessa vez a presidência da Loterj. Era esse cargo que Waldomiro ocupava quando foi flagrado no caso de propina. As primeiras acusações de irregularidade contra Waldomiro Diniz foram feitas em junho do ano passado, publicadas pela revista IstoÉ. A reportagem acusava o então assessor de José Dirceu de envolvimento com operadores de mais de 30.000 máquinas ilegais de caça-níqueis no Brasil. A reportagem também acusa Waldomiro de participar de um esquema de desvio da verba publicitária da Loterj. A vitória de Lula o tirou do Rio de Janeiro e o levou diretamente ao centro do poder. Primeiramente, seu nome foi cotado para presidir a Caixa Econômica Federal. Acabou no Planalto.

A imagem de ser um partido acima do bem e do mal, sempre cultivada pelo PT, recebeu na semana passada seu segundo arranhão recente. O primeiro ocorreu quando estourou o caso Santo André, como ficou conhecido o dinheiroduto revelado na região do ABC paulista, após o assassinato do prefeito da cidade, Celso Daniel. Um esquema de corrupção foi apontado pelo médico João Francisco Daniel, irmão do prefeito assassinado. De acordo com Francisco Daniel, as campanhas de Marta Suplicy e de Lula foram abastecidas com recursos do esquema. Nas explicações que deu sobre o caso, Waldomiro diz ter sido mal interpretado e nega ter pedido dinheiro para si próprio. Informa ainda ter negociado com o bicheiro uma ajuda para a campanha de Geraldo Magela, que foi candidato do PT ao governo do Distrito Federal. A assessoria de Magela nega a informação. O caso envolvendo Waldomiro Diniz é grave, pois atinge uma estrela em ascensão no governo petista, partido que se apresentou ao país e ganhou eleições discursando como porta-voz da moralidade. É grave também porque aumenta o descrédito dos políticos – justamente por causa de um gesto estabanado de um aliado petista. Mais do que isso, aumenta o clima de tensão em Brasília, pois sempre fica no ar a suspeita de que o caso talvez não seja isolado. "As acusações são a ponta do iceberg da podridão que tomou conta do PT", diz a deputada federal Luciana Genro, sem partido depois de ser expulsa do PT juntamente com outros radicais.

Há um segundo foco de investigação contra Waldomiro. O Ministério Público está apurando uma denúncia segundo a qual o ex-assessor de José Dirceu teria se envolvido na renovação de um contrato entre a Caixa Econômica Federal e a empresa GTech, especializada no setor de loterias. Chamou a atenção dos procuradores o fato de o contrato ter sido renovado em bases menos favoráveis do que já havia sido acordado no passado. Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, a GTech concedeu 28% de desconto sobre o preço inicial. Para prestar o mesmo serviço, a Caixa Econômica Federal no governo Lula prorrogou o contrato recebendo em troca apenas 7% de desconto. Os procuradores pouco sabem a respeito do caso até agora. Em abril, Waldomiro Diniz encontrou-se com dois diretores da GTech para tratar do assunto. Apesar de sua experiência com loterias, Waldomiro não se fez acompanhar por nenhum representante da CEF. Além de estar só, a conversa não foi agendada no Palácio do Planalto, mas num hotel de Brasília durante um café-da-manhã. O caso foi relatado à filial americana da GTech. A empresa mandou investigadores americanos ao Brasil e, num dos depoimentos tomados pela equipe, surgiu uma história nova. Uma das pessoas que participaram das negociações entre a CEF e a GTech disse a VEJA ter feito uma revelação aos investigadores. "Contei a eles que o Waldomiro pediu dinheiro a diretores da empresa", relata essa testemunha. Por decisão da matriz americana, após as investigações a presidência da Gtech no Brasil e uma parte da direção da companhia acabaram substituídas alguns meses depois. O atual presidente, Fernando Cardoso, disse a VEJA desconhecer os fatos anteriores a sua gestão.

 
 
 
 
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