|
|
Transgênicos
No
coração do Planalto
Assessor
do ministro da Casa Civil,
José Dirceu, é filmado pedindo propina
durante a campanha eleitoral de 2002
Na
sexta-feira da semana passada, o governo federal divulgou o ato
de exoneração de um funcionário da cúpula
do Palácio do Planalto de nome Waldomiro Diniz, que atuava
como assessor da Presidência da República, encarregado
de assuntos parlamentares. Nos últimos tempos, o governo
assinou diversos atos de exoneração, mas todos se
relacionavam com o troca-troca de ministros e assessores durante
o processo de reforma ministerial. A demissão de Waldomiro
Diniz é diferente. Embora formalmente a decisão de
sair tenha partido do funcionário, trata-se do primeiro grande
caso de afastamento na gestão de Luiz Inácio Lula
da Silva motivado por uma denúncia de corrupção.
A denúncia de corrupção contra ele é
acachapante. Está gravada e filmada. O episódio ocorreu
em 2002, durante a campanha eleitoral, no tempo em que Waldomiro
Diniz presidia a empresa de loterias estaduais do Rio de Janeiro,
a Loterj. Em duas ocasiões, Waldomiro se encontrou com um
empresário do jogo do bicho chamado Carlos Augusto Ramos,
vulgo "Carlinhos Cachoeira", que controla no Rio de Janeiro as máquinas
de apostas lotéricas on-line. Nas gravações,
o assessor palaciano pediu dinheiro para a campanha eleitoral e
para ele próprio. "Deixa eu te falar outra coisa. Quero 1%
para mim", pede. Em troca, garantiria a "Cachoeira" a manutenção
de seu monopólio. A notícia da propina foi publicada
pela revista Época e levada ao ar pela Rede Globo.
Beto Castro/AE
 |
SOB
O MESMO TETO
José Dirceu: o poderoso ministro precisou demitir
o poderoso assessor com quem já dividiu apartamento em
Brasília |
Na função que ocupava no governo, Waldomiro respondia
diretamente ao ministro da Casa Civil, José Dirceu. Cabia
a ele a tarefa de manter contato com deputados e senadores, negociar
a posição dos partidos da base aliada nas votações
mais importantes e dar seqüência aos pedidos de toda
natureza que os políticos fazem em troca do apoio que oferecem.
O assessor passava o dia no Congresso Nacional. Praticamente todos
os ministérios possuem um assessor que cuida dos interesses
específicos de cada pasta no Congresso. Waldomiro recebeu
de Dirceu a missão de centralizar as ações
parlamentares desses assessores. Na estrutura de poder de Brasília,
o subchefe de assuntos parlamentares tem mais força política
que muitos ministros de Estado. Seu trabalho é tão
sensível que cabia a ele escolher que parlamentares seriam
convidados para solenidades, inauguração de obras
e viagens oficiais da Presidência da República. No
caso dos parlamentares do chamado baixo clero, que dificilmente
têm acesso às autoridades mais destacadas na Esplanada,
Waldomiro era uma referência de poder.
A
partir de janeiro, com a reforma ministerial, o assessor passou
a reportar-se formalmente ao ministro Aldo Rebelo, mas seus contatos
com Dirceu permaneceram constantes e diários, muitas vezes
feitos de celular para celular. A relação dos dois
começou em 1992, quando Waldomiro Diniz chegou a Brasília
por ordem da Central Única dos Trabalhadores. Recebeu a incumbência
de auxiliar no trabalho de investigação da Comissão
Parlamentar de Inquérito aberta em torno do empresário
Paulo César Farias, ex-tesoureiro do presidente Fernando
Collor. Bancário experimentado, demitido da Caixa Econômica
Federal num corte de pessoal, Waldomiro se destacou pela habilidade
com que rastreava cheques. Com o auxílio de colegas que continuavam
empregados, ajudou a desvendar a rede de contas fantasmas do esquema
operado por PC Farias. Foi nessa época que Waldomiro ganhou
a confiança do então deputado José Dirceu,
de quem virou assessor e com quem chegou a dividir um apartamento
em Brasília.
Nelio Rodrigues
 |
DE
OLHO NO CRIME
Na CPI do PC, Waldomiro auxiliou o PT no processo de
investigação |
A amizade com José Dirceu valeu-lhe uma indicação
para o cargo de assessor parlamentar do governo de Cristovam Buarque
no Distrito Federal, entre 1995 e 1998. Buarque não se reelegeu
e, também graças a José Dirceu, Waldomiro foi
nomeado representante do governo do Rio de Janeiro em Brasília.
O então governador, Anthony Garotinho, do PDT, havia sido
eleito numa coligação com o PT da vice-governadora
Benedita da Silva que foi costurada por Dirceu. Mais uma vez pelas
mãos de José Dirceu, Waldomiro conseguiu ser nomeado
para um cargo público, dessa vez a presidência da Loterj.
Era esse cargo que Waldomiro ocupava quando foi flagrado no caso
de propina. As primeiras acusações de irregularidade
contra Waldomiro Diniz foram feitas em junho do ano passado, publicadas
pela revista IstoÉ. A reportagem acusava o então
assessor de José Dirceu de envolvimento com operadores de
mais de 30.000 máquinas ilegais
de caça-níqueis no Brasil. A reportagem também
acusa Waldomiro de participar de um esquema de desvio da verba publicitária
da Loterj. A vitória de Lula o tirou do Rio de Janeiro e
o levou diretamente ao centro do poder. Primeiramente, seu nome
foi cotado para presidir a Caixa Econômica Federal. Acabou
no Planalto.
A
imagem de ser um partido acima do bem e do mal, sempre cultivada
pelo PT, recebeu na semana passada seu segundo arranhão recente.
O primeiro ocorreu quando estourou o caso Santo André, como
ficou conhecido o dinheiroduto revelado na região do ABC
paulista, após o assassinato do prefeito da cidade, Celso
Daniel. Um esquema de corrupção foi apontado pelo
médico João Francisco Daniel, irmão do prefeito
assassinado. De acordo com Francisco Daniel, as campanhas de Marta
Suplicy e de Lula foram abastecidas com recursos do esquema. Nas
explicações que deu sobre o caso, Waldomiro diz ter
sido mal interpretado e nega ter pedido dinheiro para si próprio.
Informa ainda ter negociado com o bicheiro uma ajuda para a campanha
de Geraldo Magela, que foi candidato do PT ao governo do Distrito
Federal. A assessoria de Magela nega a informação.
O caso envolvendo Waldomiro Diniz é grave, pois atinge uma
estrela em ascensão no governo petista, partido que se apresentou
ao país e ganhou eleições discursando como
porta-voz da moralidade. É grave também porque aumenta
o descrédito dos políticos justamente por causa
de um gesto estabanado de um aliado petista. Mais do que isso, aumenta
o clima de tensão em Brasília, pois sempre fica no
ar a suspeita de que o caso talvez não seja isolado. "As
acusações são a ponta do iceberg da podridão
que tomou conta do PT", diz a deputada federal Luciana Genro, sem
partido depois de ser expulsa do PT juntamente com outros radicais.
Há
um segundo foco de investigação contra Waldomiro.
O Ministério Público está apurando uma denúncia
segundo a qual o ex-assessor de José Dirceu teria se envolvido
na renovação de um contrato entre a Caixa Econômica
Federal e a empresa GTech, especializada no setor de loterias. Chamou
a atenção dos procuradores o fato de o contrato ter
sido renovado em bases menos favoráveis do que já
havia sido acordado no passado. Durante o governo Fernando Henrique
Cardoso, a GTech concedeu 28% de desconto sobre o preço inicial.
Para prestar o mesmo serviço, a Caixa Econômica Federal
no governo Lula prorrogou o contrato recebendo em troca apenas 7%
de desconto. Os procuradores pouco sabem a respeito do caso até
agora. Em abril, Waldomiro Diniz encontrou-se com dois diretores
da GTech para tratar do assunto. Apesar de sua experiência
com loterias, Waldomiro não se fez acompanhar por nenhum
representante da CEF. Além de estar só, a conversa
não foi agendada no Palácio do Planalto, mas num hotel
de Brasília durante um café-da-manhã. O caso
foi relatado à filial americana da GTech. A empresa mandou
investigadores americanos ao Brasil e, num dos depoimentos tomados
pela equipe, surgiu uma história nova. Uma das pessoas que
participaram das negociações entre a CEF e a GTech
disse a VEJA ter feito uma revelação aos investigadores.
"Contei a eles que o Waldomiro pediu dinheiro a diretores da empresa",
relata essa testemunha. Por decisão da matriz americana,
após as investigações a presidência da
Gtech no Brasil e uma parte da direção da companhia
acabaram substituídas alguns meses depois. O atual presidente,
Fernando Cardoso, disse a VEJA desconhecer os fatos anteriores a
sua gestão.
|