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Partidos
A
balada dos companheiros
A descontração venceu a liturgia
nas
comemorações do aniversário do PT

Malu Gaspar
Marcelo Tinoco
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O
início do segundo ano de mandato do presidente Lula não
tem sido nada fácil. Na área política, começou
com uma complicada reforma ministerial em que ele teve a dura tarefa
de mandar amigos para o sacrifício. Na economia, os rumores
de uma eventual mudança no Banco Central provocaram a queda
da bolsa, a subida do dólar e o salto do risco Brasil. Na
semana passada, para completar, até os petistas mais governistas
ameaçavam se rebelar contra o corte de verbas no Orçamento.
Com tantos problemas, bem que o presidente estava merecendo um momento
de relax. Encontrou uma oportunidade na terça-feira, durante
um jantar na casa do presidente da Câmara, deputado João
Paulo, onde foram comemorados o 24º aniversário do PT
e a posse da nova liderança do partido e aproveitou.
Lula era pura descontração. Nem parecia o presidente
carrancudo das últimas aparições públicas.
Por três horas, esqueceu a rigorosa dieta, comeu, bebeu, contou
piada e riu muito junto dos velhos companheiros. Não foi
a primeira vez que o presidente se reuniu informalmente com a bancada
petista depois da posse, mas certamente foi a mais animada.
Ana Araújo
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Luiz Antonio
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| Lula:
piadas de gaúcho, enchentes, discursos e muita brincadeira |
Duda
Mendonça: não apareceu, mas mandou champanhe francês |
A
festa foi prestigiada pelos petistas do primeiro escalão
do governo. Da sisuda ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff,
que ficou pouco, ao poderoso ministro da Fazenda, Antonio Palocci
ou melhor, Antonio "Corta-Emendas", como foi saudado na chegada
pelos companheiros em tom de provocação. Palocci,
sem se importar com o apelido, entrou logo no clima. "Estou aqui
liberando umas emendas!", disse, acrescentando que, por isso, esperava
uma homenagem dos radicais. O deputado Walter Pinheiro aparteou:
"Ô, Palocci, em vez de cortar nossas emendas você devia
é cortar essa pança". Já se vê por aí
qual foi o tom geral da festa de terça-feira. Nada de formalidades.
A liturgia dos cargos dos atuais poderosos da República foi
abandonada por algumas alegres horas de descontração.
O deputado Arlindo Chinaglia, o novo líder do PT, resolveu
solenizar um pouco a festa, fazendo um discurso de posse. As rodas
se fecharam para ouvi-lo, mas o parlamentar não conseguiu
nem entoar as primeiras frases de efeito. Lula, já completamente
descontraído, não deixava. Em sua curta fala, Chinaglia
foi imitado o tempo todo pelo presidente, superbem-humorado. Quando
o deputado dizia "vou trabalhar para defender os interesses da bancada",
o presidente emendava ao fundo com um "e também os interesses
do governo". Quando prometeu trabalhar para manter a bancada unida,
o presidente emendou com um "e coesa", provocando risos entre os
deputados.
O cardápio da festa, além da comida, incluía
um bom volume de uísque, vinho, cerveja e uma garrafa de
champanhe francês enviada pelo publicitário Duda Mendonça,
que não pôde comparecer. Sobrou pouca coisa. Logo ao
chegar, Lula pediu uísque com gelo, dispensou assessores
e deixou claro que não queria que as imagens da festança
viessem a público. Diante dos companheiros, manifestou-se
aliviado por não estar sendo observado por repórteres.
"Esse tipo de reunião me faz falta. É difícil
estar num evento em que eu falo alguma coisa que não sai
no dia seguinte nos jornais", desabafou. "Hoje, até para
fazer uma piada de gaúcho, olho em volta para ver se não
tem ninguém gravando ou filmando." Lula se lembrou do constrangimento
gerado com a divulgação de um vídeo em que
fazia uma troça com os moradores da cidade de Pelotas. Como
dessa vez não havia nenhum jornalista por perto, o presidente
desfiou uma dezena de piadas. Monotemáticas. Ele ia dando
aos personagens o nome dos deputados do Rio Grande do Sul, que respondiam
com anedotas com personagens paulistas. E assim, durante um bom
tempo, travou-se um duelo sobre a masculinidade de gaúchos
e paulistas. Não se tem notícia de um encontro assim
durante os oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso. Talvez
o ex-presidente fosse preocupado em demasia com a ritualística
do poder. Ou talvez os petistas estejam se preocupando de menos
com esse tipo de detalhe.
Fotos Ana Araújo
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| Professor
Luizinho: quebrou a tensão com música sertaneja |
João
Paulo: pito por travar discussão com secretário
petista
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Numa
noite em que nada era para ser levado a sério, registrou-se
um momento de constrangimento. O presidente falava de sua irritação
com as desavenças entre os petistas. "Esse negócio
de gente do PT falar mal de gente do PT está errado. Se algum
petista fala uma bobagem, não precisa o outro falar outra
bobagem", disse, referindo-se ao bate-boca que houve entre João
Paulo e o secretário de Direitos Humanos, Nilmário
Miranda, este último acusando o presidente da Câmara
de fazer corpo mole na votação de um projeto social.
João Paulo se aproximou e ensaiou uma defesa. O tempo ameaçou
fechar, mas entrou em cena o deputado professor Luizinho, introduzindo
no debate o deputado Colombo, um músico. "O Luizinho pediu
umas músicas para acalmar o pessoal", lembra o parlamentar,
que se aproximou da mesa de Lula cantando Chalana, o clássico
de Almir Sater. O presidente se empolgou e logo pediu Cuitelinho,
sua música preferida. O clima ficou mais leve. Lula ainda
falou sobre as enchentes, comentando que "Deus é petista,
mas ele andou meio distante nas últimas semanas". Aos deputados
cariocas, que perguntaram se o presidente não mandaria dinheiro
para ajudar as vítimas das inundações, respondeu:
"Vão pedir à Rosinha e ao Garotinho, que eles estão
cheios da grana". Os parlamentares radicais criticaram a política
de alianças. Lula disse que, para ganhar as eleições,
o PT se une até com o PFL, "desde que o prefeito seja nosso,
é claro". "O presidente não estava ali para falar
de política, e sim para tomar cachaça e brincar",
resumiu o deputado Anselmo Abreu. Lula deixou a festa depois de
todos os seus ministros. "Assim esse governo não vai pra
frente. A essa hora já não tem mais nenhum ministro
aqui!", comentou o presidente. Já passava da 1 hora. Com
sono, Lula entrou no carro oficial e cochilou no banco traseiro.
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