Edição 1841 . 18 de fevereiro de 2004

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Partidos
A balada dos companheiros

A descontração venceu a liturgia nas
comemorações do aniversário do PT


Malu Gaspar

 
Marcelo Tinoco

O início do segundo ano de mandato do presidente Lula não tem sido nada fácil. Na área política, começou com uma complicada reforma ministerial em que ele teve a dura tarefa de mandar amigos para o sacrifício. Na economia, os rumores de uma eventual mudança no Banco Central provocaram a queda da bolsa, a subida do dólar e o salto do risco Brasil. Na semana passada, para completar, até os petistas mais governistas ameaçavam se rebelar contra o corte de verbas no Orçamento. Com tantos problemas, bem que o presidente estava merecendo um momento de relax. Encontrou uma oportunidade na terça-feira, durante um jantar na casa do presidente da Câmara, deputado João Paulo, onde foram comemorados o 24º aniversário do PT e a posse da nova liderança do partido – e aproveitou. Lula era pura descontração. Nem parecia o presidente carrancudo das últimas aparições públicas. Por três horas, esqueceu a rigorosa dieta, comeu, bebeu, contou piada e riu muito junto dos velhos companheiros. Não foi a primeira vez que o presidente se reuniu informalmente com a bancada petista depois da posse, mas certamente foi a mais animada.

 
Ana Araújo
Luiz Antonio
Lula: piadas de gaúcho, enchentes, discursos e muita brincadeira Duda Mendonça: não apareceu, mas mandou champanhe francês

A festa foi prestigiada pelos petistas do primeiro escalão do governo. Da sisuda ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, que ficou pouco, ao poderoso ministro da Fazenda, Antonio Palocci – ou melhor, Antonio "Corta-Emendas", como foi saudado na chegada pelos companheiros em tom de provocação. Palocci, sem se importar com o apelido, entrou logo no clima. "Estou aqui liberando umas emendas!", disse, acrescentando que, por isso, esperava uma homenagem dos radicais. O deputado Walter Pinheiro aparteou: "Ô, Palocci, em vez de cortar nossas emendas você devia é cortar essa pança". Já se vê por aí qual foi o tom geral da festa de terça-feira. Nada de formalidades. A liturgia dos cargos dos atuais poderosos da República foi abandonada por algumas alegres horas de descontração. O deputado Arlindo Chinaglia, o novo líder do PT, resolveu solenizar um pouco a festa, fazendo um discurso de posse. As rodas se fecharam para ouvi-lo, mas o parlamentar não conseguiu nem entoar as primeiras frases de efeito. Lula, já completamente descontraído, não deixava. Em sua curta fala, Chinaglia foi imitado o tempo todo pelo presidente, superbem-humorado. Quando o deputado dizia "vou trabalhar para defender os interesses da bancada", o presidente emendava ao fundo com um "e também os interesses do governo". Quando prometeu trabalhar para manter a bancada unida, o presidente emendou com um "e coesa", provocando risos entre os deputados.

O cardápio da festa, além da comida, incluía um bom volume de uísque, vinho, cerveja e uma garrafa de champanhe francês enviada pelo publicitário Duda Mendonça, que não pôde comparecer. Sobrou pouca coisa. Logo ao chegar, Lula pediu uísque com gelo, dispensou assessores e deixou claro que não queria que as imagens da festança viessem a público. Diante dos companheiros, manifestou-se aliviado por não estar sendo observado por repórteres. "Esse tipo de reunião me faz falta. É difícil estar num evento em que eu falo alguma coisa que não sai no dia seguinte nos jornais", desabafou. "Hoje, até para fazer uma piada de gaúcho, olho em volta para ver se não tem ninguém gravando ou filmando." Lula se lembrou do constrangimento gerado com a divulgação de um vídeo em que fazia uma troça com os moradores da cidade de Pelotas. Como dessa vez não havia nenhum jornalista por perto, o presidente desfiou uma dezena de piadas. Monotemáticas. Ele ia dando aos personagens o nome dos deputados do Rio Grande do Sul, que respondiam com anedotas com personagens paulistas. E assim, durante um bom tempo, travou-se um duelo sobre a masculinidade de gaúchos e paulistas. Não se tem notícia de um encontro assim durante os oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso. Talvez o ex-presidente fosse preocupado em demasia com a ritualística do poder. Ou talvez os petistas estejam se preocupando de menos com esse tipo de detalhe.

 
Fotos Ana Araújo
Professor Luizinho: quebrou a tensão com música sertaneja

João Paulo: pito por travar discussão com secretário petista

Numa noite em que nada era para ser levado a sério, registrou-se um momento de constrangimento. O presidente falava de sua irritação com as desavenças entre os petistas. "Esse negócio de gente do PT falar mal de gente do PT está errado. Se algum petista fala uma bobagem, não precisa o outro falar outra bobagem", disse, referindo-se ao bate-boca que houve entre João Paulo e o secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, este último acusando o presidente da Câmara de fazer corpo mole na votação de um projeto social. João Paulo se aproximou e ensaiou uma defesa. O tempo ameaçou fechar, mas entrou em cena o deputado professor Luizinho, introduzindo no debate o deputado Colombo, um músico. "O Luizinho pediu umas músicas para acalmar o pessoal", lembra o parlamentar, que se aproximou da mesa de Lula cantando Chalana, o clássico de Almir Sater. O presidente se empolgou e logo pediu Cuitelinho, sua música preferida. O clima ficou mais leve. Lula ainda falou sobre as enchentes, comentando que "Deus é petista, mas ele andou meio distante nas últimas semanas". Aos deputados cariocas, que perguntaram se o presidente não mandaria dinheiro para ajudar as vítimas das inundações, respondeu: "Vão pedir à Rosinha e ao Garotinho, que eles estão cheios da grana". Os parlamentares radicais criticaram a política de alianças. Lula disse que, para ganhar as eleições, o PT se une até com o PFL, "desde que o prefeito seja nosso, é claro". "O presidente não estava ali para falar de política, e sim para tomar cachaça e brincar", resumiu o deputado Anselmo Abreu. Lula deixou a festa depois de todos os seus ministros. "Assim esse governo não vai pra frente. A essa hora já não tem mais nenhum ministro aqui!", comentou o presidente. Já passava da 1 hora. Com sono, Lula entrou no carro oficial e cochilou no banco traseiro.

 
 
 
 
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