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Brasil
O
governo do improviso
O presidente Lula enfrenta queda
de popularidade e, num evento em
São Paulo, exercita mais uma vez
aquilo que vem se tornando uma
das marcas frustrantes de seu
mandato: a retórica oca

João Gabriel de Lima
Na
terça-feira passada, em São Paulo, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva recorreu a um procedimento que vem se
tornando uma das marcas de sua Presidência: o improviso. Na
abertura do evento batizado como Expo Fome Zero, organizado por
empresários que promovem ações sociais, Lula
resolveu encaixar um discurso de última hora antes de ler
o texto preparado por sua assessoria: "Tenho umas páginas
para ler aqui e estou doidinho para fazer um improviso". A certa
altura, disse: "É muito mais fácil acabar com a fome
no mundo do que acabar com uma nação ou fazer uma
guerra", para logo depois desdizer-se: "Se fosse fácil resolver
o problema da fome, não teríamos fome". Em outro momento,
apelou para o messianismo: "Deus pôs os pés aqui e
falou: 'Aqui vai ter tudo. Agora, é só homens e mulheres
terem juízo que as coisas vão dar certo'." Essas afirmações
são um retrato do estilo de pronunciamento que Lula levou
à Presidência. Em seus últimos improvisos, ele
vem se valendo desse tipo de oratória num ritmo crescente.
Exagera nas frases bombásticas, flerta com a auto-exaltação
citando pontos de sua biografia como se fossem exemplo para
a humanidade e, em alguns momentos, se aproxima da megalomania.
Recentemente, disse que se sentiria realizado se conseguisse "acabar
com a fome no mundo", como se um presidente de qualquer país
fosse capaz disso.
No
mesmo dia em que Lula fez o discurso na Expo Fome Zero, foi divulgada
uma pesquisa do Instituto Sensus detectando uma queda na popularidade
do presidente. Pelo levantamento, a aprovação ao petista
caiu cerca de 18 pontos porcentuais desde que ele tomou posse (veja
quadros). Sua queda de popularidade reflete, em certa medida,
o descompasso entre discurso e prática, entre retórica
e realidade. É como se o presidente quisesse compensar com
palavras a ineficiência de vários setores de seu governo.
O ministro José Graziano, aliás, foi demitido porque
o próprio Lula reconheceu o mau desempenho do programa Fome
Zero. Para mascarar a falta de idéias na área social,
o governo se limitou a requentar e a rebatizar programas da administração
anterior. Diante dessa realidade, os pronunciamentos de Lula dizendo
que é fácil acabar com a fome soam como retórica
oca. A mesma pesquisa do Instituto Sensus detectou uma insatisfação
com os projetos sociais do governo e com o índice de cumprimento
das promessas de campanha. "A popularidade do presidente
é alta, ainda é maior que a de Fernando Henrique Cardoso
em todo o segundo mandato, mas a tendência de queda é
sempre preocupante", avalia o cientista político Ricardo
Guedes, dono do Instituto Sensus.
Fotos Evilzio Bezerra/AE
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| O
ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, é desacatado em Fortaleza,
onde uma manifestante atira uma torta em seu rosto: imagem simbólica
para todo o governo |
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Em
seus improvisos, o presidente parece alhear-se do mundo real. No
Brasil que Lula não consegue enxergar, o governo patina.
Na área da educação, da saúde ou da
infra-estrutura não existem notícias de projetos consistentes
em andamento. Uma das poucas exceções é o Ministério
da Fazenda, onde o bom senso impera embora sempre bombardeado
por gente do próprio governo. A semana passada também
forneceu uma imagem que ilustra a queda de popularidade do governo:
a torta que uma manifestante de Fortaleza, num lamentável
sinal de desrespeito à autoridade, atirou no rosto do ministro
do Trabalho, Ricardo Berzoini.
Quando
era presidente do sindicato dos metalúrgicos e, mais tarde,
quando se tornou candidato ao cargo que ocupa agora, Lula notabilizou-se
como um grande orador de palanque, capaz de arrebatar multidões.
Confiante nessa sua capacidade, tornou-se um dos presidentes brasileiros
mais afeitos ao improviso. Fernando Henrique Cardoso também
gostava de contrariar o script previamente preparado em suas aparições
públicas. Às vezes exagerava nos arroubos retóricos
como quando deu a entender que os aposentados eram preguiçosos.
Escorregões à parte, tanto Fernando Henrique quanto
Lula são bons oradores em seus estilos. O problema é
que um acadêmico é um acadêmico, um sindicalista
é um sindicalista e um presidente é um presidente.
E um presidente não pode falar como um acadêmico ou
como um sindicalista. Lula também parece não se dar
conta da força de cada declaração sua. Nos
Estados Unidos, é muito raro um governante discursar de improviso
e isso não acontece porque os americanos, que aprendem
a falar em público desde a escola, sejam ruins de oratória.
De acordo com a jornalista Peggy Noonan, uma das responsáveis
pelos discursos do ex-presidente Ronald Reagan, recorrer a textos
previamente preparados é um sinal de respeito pelo cargo,
pois é enorme a repercussão que cada declaração
de um presidente da República pode ter em diversos setores
da sociedade. Quando discursa como um sindicalista, Lula pode inflamar
a platéia e empolgar os petistas históricos. Mas cada
arroubo mal colocado pode ter um efeito de dinamite nos que estão
examinando o Brasil com lupa na mão para decidir investimentos.
A retórica também influencia a popularidade dos governos
e a popularidade dos governos ajuda esses governos a governar.
Na campanha presidencial, Lula deixava os improvisos para os palanques.
Os principais discursos, no entanto, eram preparados por uma equipe
e lidos, obedientemente, pelo então candidato. "Agora, o
presidente está mais solto, mais auto-suficiente, e isso
é um problema", diz um assessor graduado de Lula.
O que há de paradoxal nisso tudo é que Lula tem provavelmente
o maior time de ghost-writers da história republicana. A
palavra "ghost-writer", que em inglês significa escritor-fantasma,
designa o profissional que produz textos para terceiros políticos,
empresários e outros que têm de se pronunciar em público
com freqüência. Os governos pós-ditadura
Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique recorriam a três
ou no máximo quatro especialistas nessa função,
em geral recrutados no Itamaraty, uma espécie de celeiro
de bons redatores. Já Lula tem a sua disposição
pelo menos dez ghost-writers, divididos em duas equipes. Uma trabalha
dentro do Palácio do Planalto. Ela responde ao ministro Luiz
Dulci, secretário-geral da Presidência e responsável,
em última análise, pelo texto final de todos os pronunciamentos
de Lula. Abaixo dele há uma equipe de cinco redatores, comandados
pelo jornalista Carlos Tibúrcio. Eles produzem prioritariamente
os discursos proferidos no Brasil. Os pronunciamentos internacionais
são redigidos por outra equipe, lotada no Ministério
das Relações Exteriores e chefiada pelo embaixador
Antônio Patriota, ex-redator de Itamar Franco. Esse outro
time, composto de quatro diplomatas, responde ao ministro Celso
Amorim. Quando recrutou os redatores, Amorim lhes disse que queria
criar uma "usina de discursos" e assim foi feito. A julgar
por suas últimas experiências nessa área, o
presidente deveria valorizar mais o trabalho daqueles que se esmeram
na preparação do que deveria falar.
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