Edição 1841 . 18 de fevereiro de 2004

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Brasil
O governo do improviso

O presidente Lula enfrenta queda
de popularidade e, num evento em
São Paulo, exercita mais uma vez
aquilo que vem se tornando uma
das marcas frustrantes de seu
mandato: a retórica oca


João Gabriel de Lima

Notícias diárias sobre o governo Lula

Na terça-feira passada, em São Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu a um procedimento que vem se tornando uma das marcas de sua Presidência: o improviso. Na abertura do evento batizado como Expo Fome Zero, organizado por empresários que promovem ações sociais, Lula resolveu encaixar um discurso de última hora antes de ler o texto preparado por sua assessoria: "Tenho umas páginas para ler aqui e estou doidinho para fazer um improviso". A certa altura, disse: "É muito mais fácil acabar com a fome no mundo do que acabar com uma nação ou fazer uma guerra", para logo depois desdizer-se: "Se fosse fácil resolver o problema da fome, não teríamos fome". Em outro momento, apelou para o messianismo: "Deus pôs os pés aqui e falou: 'Aqui vai ter tudo. Agora, é só homens e mulheres terem juízo que as coisas vão dar certo'." Essas afirmações são um retrato do estilo de pronunciamento que Lula levou à Presidência. Em seus últimos improvisos, ele vem se valendo desse tipo de oratória num ritmo crescente. Exagera nas frases bombásticas, flerta com a auto-exaltação – citando pontos de sua biografia como se fossem exemplo para a humanidade – e, em alguns momentos, se aproxima da megalomania. Recentemente, disse que se sentiria realizado se conseguisse "acabar com a fome no mundo", como se um presidente de qualquer país fosse capaz disso.

No mesmo dia em que Lula fez o discurso na Expo Fome Zero, foi divulgada uma pesquisa do Instituto Sensus detectando uma queda na popularidade do presidente. Pelo levantamento, a aprovação ao petista caiu cerca de 18 pontos porcentuais desde que ele tomou posse (veja quadros). Sua queda de popularidade reflete, em certa medida, o descompasso entre discurso e prática, entre retórica e realidade. É como se o presidente quisesse compensar com palavras a ineficiência de vários setores de seu governo. O ministro José Graziano, aliás, foi demitido porque o próprio Lula reconheceu o mau desempenho do programa Fome Zero. Para mascarar a falta de idéias na área social, o governo se limitou a requentar e a rebatizar programas da administração anterior. Diante dessa realidade, os pronunciamentos de Lula dizendo que é fácil acabar com a fome soam como retórica oca. A mesma pesquisa do Instituto Sensus detectou uma insatisfação com os projetos sociais do governo e com o índice de cumprimento das promessas de campanha. "A popularidade do presidente é alta, ainda é maior que a de Fernando Henrique Cardoso em todo o segundo mandato, mas a tendência de queda é sempre preocupante", avalia o cientista político Ricardo Guedes, dono do Instituto Sensus.

 
Fotos Evilzio Bezerra/AE
O ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, é desacatado em Fortaleza, onde uma manifestante atira uma torta em seu rosto: imagem simbólica para todo o governo

Em seus improvisos, o presidente parece alhear-se do mundo real. No Brasil que Lula não consegue enxergar, o governo patina. Na área da educação, da saúde ou da infra-estrutura não existem notícias de projetos consistentes em andamento. Uma das poucas exceções é o Ministério da Fazenda, onde o bom senso impera – embora sempre bombardeado por gente do próprio governo. A semana passada também forneceu uma imagem que ilustra a queda de popularidade do governo: a torta que uma manifestante de Fortaleza, num lamentável sinal de desrespeito à autoridade, atirou no rosto do ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini.

Quando era presidente do sindicato dos metalúrgicos e, mais tarde, quando se tornou candidato ao cargo que ocupa agora, Lula notabilizou-se como um grande orador de palanque, capaz de arrebatar multidões. Confiante nessa sua capacidade, tornou-se um dos presidentes brasileiros mais afeitos ao improviso. Fernando Henrique Cardoso também gostava de contrariar o script previamente preparado em suas aparições públicas. Às vezes exagerava nos arroubos retóricos – como quando deu a entender que os aposentados eram preguiçosos. Escorregões à parte, tanto Fernando Henrique quanto Lula são bons oradores em seus estilos. O problema é que um acadêmico é um acadêmico, um sindicalista é um sindicalista e um presidente é um presidente. E um presidente não pode falar como um acadêmico ou como um sindicalista. Lula também parece não se dar conta da força de cada declaração sua. Nos Estados Unidos, é muito raro um governante discursar de improviso – e isso não acontece porque os americanos, que aprendem a falar em público desde a escola, sejam ruins de oratória. De acordo com a jornalista Peggy Noonan, uma das responsáveis pelos discursos do ex-presidente Ronald Reagan, recorrer a textos previamente preparados é um sinal de respeito pelo cargo, pois é enorme a repercussão que cada declaração de um presidente da República pode ter em diversos setores da sociedade. Quando discursa como um sindicalista, Lula pode inflamar a platéia e empolgar os petistas históricos. Mas cada arroubo mal colocado pode ter um efeito de dinamite nos que estão examinando o Brasil com lupa na mão para decidir investimentos. A retórica também influencia a popularidade dos governos – e a popularidade dos governos ajuda esses governos a governar. Na campanha presidencial, Lula deixava os improvisos para os palanques. Os principais discursos, no entanto, eram preparados por uma equipe e lidos, obedientemente, pelo então candidato. "Agora, o presidente está mais solto, mais auto-suficiente, e isso é um problema", diz um assessor graduado de Lula.

O que há de paradoxal nisso tudo é que Lula tem provavelmente o maior time de ghost-writers da história republicana. A palavra "ghost-writer", que em inglês significa escritor-fantasma, designa o profissional que produz textos para terceiros – políticos, empresários e outros que têm de se pronunciar em público com freqüência. Os governos pós-ditadura – Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique – recorriam a três ou no máximo quatro especialistas nessa função, em geral recrutados no Itamaraty, uma espécie de celeiro de bons redatores. Já Lula tem a sua disposição pelo menos dez ghost-writers, divididos em duas equipes. Uma trabalha dentro do Palácio do Planalto. Ela responde ao ministro Luiz Dulci, secretário-geral da Presidência e responsável, em última análise, pelo texto final de todos os pronunciamentos de Lula. Abaixo dele há uma equipe de cinco redatores, comandados pelo jornalista Carlos Tibúrcio. Eles produzem prioritariamente os discursos proferidos no Brasil. Os pronunciamentos internacionais são redigidos por outra equipe, lotada no Ministério das Relações Exteriores e chefiada pelo embaixador Antônio Patriota, ex-redator de Itamar Franco. Esse outro time, composto de quatro diplomatas, responde ao ministro Celso Amorim. Quando recrutou os redatores, Amorim lhes disse que queria criar uma "usina de discursos" – e assim foi feito. A julgar por suas últimas experiências nessa área, o presidente deveria valorizar mais o trabalho daqueles que se esmeram na preparação do que deveria falar.

 

 

 

 

Celso Junior/AE
Lula: "Tenho umas páginas para ler aqui e estou doidinho para fazer um improviso"

 

 
 
 
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