|
|
Diogo
Mainardi
O
ópio de Garotinho
"O
cardeal Eugênio Sales garantiu que
o ensino religioso 'coíbe toda sorte de
violência'. Menos, é claro, a violência
praticada em nome da religião, responsável
pelas piores matanças da história"
Na
França, na terça-feira, foi aprovada a lei que proíbe
a ostentação de símbolos religiosos nas escolas
públicas. No Rio de Janeiro, no mesmo dia, foi anunciada
a publicação da lista de aprovados para o cargo de
professor de ensino religioso nas escolas estaduais. São
500 professores, divididos salomonicamente: 342 católicos,
132 evangélicos e 26 pertencentes aos demais credos. Cada
um deles deverá apresentar uma carta de credenciamento emitida
por sua autoridade religiosa, que poderá dispensá-lo
da função a qualquer momento, em caso de perda da
fé. A autoridade religiosa terá também a atribuição
de definir o conteúdo pedagógico das aulas de religião.
O Estado do Rio de Janeiro, portanto, abre mão de algumas
de suas principais prerrogativas: contratar, demitir e ensinar.
Só não abre mão de pagar. A catequese governamental
será financiada por todos os contribuintes, inclusive pelos
ateus e agnósticos que rejeitarem o ensino religioso.
A
lei que estabelece o ensino religioso obrigatório foi sancionada
por Anthony Garotinho, a partir de um projeto de Carlos Dias, apresentador
da Rádio Catedral e membro da Renovação Carismática.
Atendeu à solicitação da cúpula da Igreja
Católica do Rio de Janeiro. O cardeal Eugênio Sales
garantiu que o ensino religioso "coíbe toda sorte de violência".
Menos, é claro, a violência praticada em nome da religião,
responsável pelas piores matanças da história.
O bispo auxiliar Filippo Santoro, por sua vez, afirmou que o ensino
religioso tem o poder de debelar a corrupção e a miséria.
No manifesto de apoio ao projeto de lei em questão, o bispo
auxiliar usou um argumento irrefutável para defender o primado
da autoridade religiosa sobre o Estado na escolha dos professores:
"Marx e Freud certamente ganhariam um concurso público para
o ensino religioso, mas as instituições religiosas
lhes negariam o mandato". Ou seja, a Igreja Católica se orgulha
de impedir que a rede pública possa cometer o erro de contratar
professores semelhantes a Marx e Freud, por salários de 540
reais.
O
princípio da separação entre Igreja e Estado
acaba de ser reafirmado pelos franceses. Em escola pública,
a religião não entra. Quer cobrir a cabeça
com um véu? Quer usar um solidéu? Quer pendurar no
pescoço um crucifixo? Procure uma escola particular de seu
gosto. Lá o ensino pode ser transmitido de acordo com o corpo
doutrinário de sua confissão. Ela pode até
ensinar que a humanidade surgiu com Adão e Eva. Pode até
justificar a execução de hereges. Basta que seus custos
não sejam pagos com os impostos de todos os contribuintes.
No século XVI, católicos e protestantes franceses,
em fuga das guerras religiosas na Europa, estabeleceram-se no Rio
de Janeiro, fundando aquilo que seria conhecido como França
Antártica. Aplicaram-se, por algum tempo, na obra de conversão
ao cristianismo dos tupinambás. De lá para cá,
a França mudou, abandonando todas as formas de proselitismo
religioso, mas a França Antártica continua a mesma.
Ainda tentam nos converter. Ainda nos tratam como selvagens.
|