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Tales
Alvarenga
Marx e o fujão
"Desconfio que Dirceu não
seja sequer
comunista nem tenha jamais sido. Minha
opinião é que não passa de um oportunista.
Talentoso, mas oportunista assim mesmo"
José Dirceu diz agora que
a direita e a imprensa inventaram a história da roubalheira
petista para derrubar Lula. Diz que alguns colunistas são
dedos-duros. Agem como agiam os que, na ditadura militar, denunciavam
esquerdistas para vê-los torturados e assassinados. Cita nominalmente
como dedos-duros dois colunistas de VEJA, Diogo Mainardi e eu. Segundo
Dirceu, a imprensa brasileira vive uma fase macarthista.
Eis aí mais uma prova
da sua desonestidade intelectual. O senador americano Joe McCarthy
comandou uma caça aos comunistas que dizia estarem infiltrados
no governo e na vida cultural americana nos anos 50. Na ditadura
brasileira, comunistas eram torturados e mortos. O regime os considerava
inimigos de guerra.
Ser comunista no Brasil de hoje
é um título que não constrange e até
promove socialmente seu portador. O presidente da Câmara,
deputado Aldo Rebelo, é do Partido Comunista do Brasil. O
partido da senadora Heloísa Helena, o P-SOL, está
carregado de marxistas, trotskistas e gramscianos. Entre funcionários
do governo, professores universitários e líderes dos
sem-terra, milhões de brasileiros falam até com certo
exibicionismo de sua admiração por Marx, Lenin, Fidel,
Guevara, Mao. Ser comunista no Brasil é perfeitamente legal
e respeitável. Tanto que milhares deles foram parar no governo.
Então, o que Dirceu quer dizer com macarthismo na imprensa?
A imprensa flagrou ladrões
no governo que, para surpresa de todos, eram justamente esquerdistas
que faziam questão de afirmar sua superioridade moral e ética
sobre as outras pessoas. Todos os brasileiros, inclusive os esquerdistas,
espantaram-se com a expertise demonstrada pelos petistas a respeito
das técnicas da ladroagem. A mídia denunciou os contraventores.
É isso que Dirceu não engole.
Mas ele não pode se queixar.
Tem muitos admiradores cegos na imprensa. Mesmo já desmoralizado,
na véspera da cassação de seu mandato, foi
apresentado em artigos simpáticos como combatente incansável,
guerrilheiro, herói que participou corajosamente da luta
contra a ditadura. Denunciei essa rede de proteção
e, por isso, Dirceu me chama de dedo-duro.
Dirceu foi preso num congresso
estudantil, quando era universitário. Além de discursos
irados, nunca fez um gesto mais decisivo como tantos comunistas
fizeram na época para derrubar o governo militar. Foi banido
para Cuba, onde ficou de 1969 a 1975. Voltou clandestinamente para
o interior do Paraná e ali viveu sob o disfarce de um comerciante
judeu. Casou-se, teve um filho, abriu uma loja de roupas. Nunca
falava de política. Em 1979, o general João Figueiredo
o anistiou. Só aí Dirceu saiu da toca. Nisso consiste
seu tão celebrado "passado histórico". Dez anos como
fujão.
Demonstrou bom senso ao não
aderir à luta armada. Estaria morto hoje. O desonesto não
é a escolha do caminho pacífico. O desonesto é
deixar (estimular) que companheiros de viagem teçam uma mitologia
heróica, totalmente falsificada, em torno de seu passado.
Desconfio que Dirceu não seja sequer comunista nem nunca
tenha sido. Minha opinião é que não passa de
um oportunista. Talentoso, mas oportunista assim mesmo.
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