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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
A questão do referendo "Não
é à toa que o jornalismo está perdendo leitores, a nova
geração não tem opiniões fortes, o país
não possui mais projeto e nossas
discussões intelectuais se tornaram silenciosas"
Até hoje recebo reclamações de leitores
sobre uma capa de VEJA do ano passado a favor do NÃO à proibição
do comércio de armas e munição. As reclamações
normalmente tomam a seguinte linha de raciocínio: "Uma revista não
pode tomar partido ou tirar uma conclusão pelos seus leitores, induzindo-os
a votar de uma forma e não de outra. Jornais e revistas devem se limitar
a fornecer os fatos, pró e contra, e deixar os leitores tirar sua conclusão".
Mas existe outro ponto de vista.
 O
jornalismo teve inúmeras origens, uma das quais foi o jornalismo panfletário
dos partidos políticos. Todo partido político possuía seu
jornal, em que defendia com unhas e dentes sua visão de mundo. Esses jornais
se posicionavam fervorosamente a favor do SIM ou do NÃO nas várias
questões sobre as quais o partido teria de decidir. Eles tinham opinião,
a dos partidários, e quem comprava a publicação eram aqueles
que pensavam como o partido e queriam se atualizar.
Se o jornal fosse sério, não ignoraria os argumentos da oposição,
mas trataria logo de destruí-los, de uma forma ou de outra. Esses jornais
não tinham fins lucrativos; eram distribuídos gratuitamente ou mediante
uma doação ao partido.
Com o capitalismo, surgiu um novo jornalismo, um jornalismo como negócio,
com fins lucrativos. O objetivo passou a ser o de aumentar constantemente a base
de leitores, e assim surgiu o conceito da necessidade de respeitar todas as opiniões,
de perseguir uma imprensa liberal, democrática e pluripartidária.
A nova diretriz era não mais
defender posição alguma, e sim fornecer os fatos e deixar os leitores
decidir. Opiniões passaram a ser aquelas consideradas politicamente corretas
pela sociedade, como "lutar pela democracia", além da "beleza do altruísmo",
da busca da "solidariedade humana" e da "importância da educação",
bandeiras de todas as ideologias políticas sem distinção.
Analisemos o problema de outro ângulo.
Hoje a classe média, a grande consumidora de informação e
notícias, não tem tempo para nada. Não tem tempo para avaliar
tudo o que está acontecendo no mundo e tirar suas próprias conclusões.
Depende de jornais e revistas que analisem por ela, que tenham a mesma visão
de mundo, que analisem os fatos da mesma forma que faria alguém de sua
classe. Hoje em dia, são poucos os jornais que defendem os valores da classe
média – ela é a grande esquecida de todos os partidos políticos,
a grande prejudicada de todos os governos. Um veículo que atender a esse
segmento prestará enorme favor a seu leitor e terá toda a publicidade
e anúncios que quiser. No referendo,
85% dos eleitores com mais de dez anos de instrução votaram efetivamente
contra o artigo 35. Atribuir essa votação a VEJA é um elogio,
mas leitores não são tão influenciáveis assim, e a
maioria de nossos governantes, com tanta influência quanto, optou pelo SIM.
Desagradar a uma parte dos leitores, entre os quais aqueles que vivem reclamando
comigo, é o risco que se corre no jornalismo opinativo. Existe espaço
no mundo para os dois tipos de jornalismo. Aquele que apenas apresenta as notícias
e os fatos e aquele que, além disso, adota a epistemologia do leitor.
A primeira edição da
Business Week, uma revista semanal de administração para
a classe média, lançada seis semanas antes da crise de 1929, explicava
sua filosofia editorial. "Sempre teremos um ponto de vista, uma opinião
forte que nunca deixaremos de emitir."
Sua primeira opinião "forte" foi que "a bolsa está supervalorizada,
o mercado está totalmente psicológico e estamos preocupados com
o futuro ajuste que está por vir". É esse o tipo de jornalismo que
ajuda o leitor a tomar boas decisões, em vez de noticiar no dia seguinte
que "a bolsa caiu 4% sob forte realização de lucros".
Não é à toa que o jornalismo está lentamente perdendo
assinantes e leitores, a nova geração não tem opiniões
fortes, o país não possui mais projeto e nossas discussões
intelectuais se tornaram silenciosas.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
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