Edição 1939 . 18 de janeiro de 2006

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O componente que
faz a pátria avançar

A Abin lança-se ao assalto do inimigo
sorrateiro
num hino que consola e alenta o brasileiro

A repercussão em torno da adoção do carcará como símbolo da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) acabou obscurecendo outra proeza, talvez maior, de seu diretor, Márcio Paulo Buzanelli – o hino da entidade. A peça merece atenção no mínimo igual à devotada à ave do sertão, aquela que "pega, mata e come", segundo a canção de João do Vale, e que agora, em vez de invocada para assombrar o regime militar, foi adotada para, com "seu destemor, agudeza de visão, longo raio de ação e controle do território onde habita", segundo diz o site da própria Abin, exercer a função oposta de zelar pela ordem e segurança do Estado. O hino, com letra de autoria do próprio Buzanelli, começa com os seguintes versos:

"Nós somos da inteligência brasileira
Anônimos heróis na busca da verdade.
Servir sempre em silêncio temos por bandeira
E à pátria consagramos nossa lealdade".

Imagina-se o esforço que representou para o senhor Buzanelli, um antigo profissional do ramo da espionagem, integrado à carreira quando o órgão ainda se chamava SNI, sair do cotidiano de informes e análises para dedicar-se à altruística tarefa de elaborar um hino para sua organização. Ele não é nem certamente nunca pretendeu ser um ás da poesia. Tampouco tem prática em compor letras de música. Imagina-se que suou e sofreu para burilar sua estrofe. Releve-se a imodéstia de os antigos arapongas, hoje rebatizados carcarás, chamarem-se de "heróis anônimos". Releve-se o paradoxo de alguém que afirma "servir sempre em silêncio" querer apregoar tal virtude num hino. Louvemos o achado da rima, depois talvez de muito queimar as pestanas – verdade e lealdade! São dois conceitos nobres. Dignos da Abin, que, segundo o site, tem como características, tal qual o carcará, "a ampla capacidade de visão, o domínio completo de suas áreas de competência, a lealdade aos princípios constitucionais e a intransigência na defesa da Lei, do Estado Democrático de Direito e dos altos interesses da Nação brasileira". Segue-se o estribilho:

"A Abin é a luz forte que dissipa a escuridão,
Desfaz as incertezas e desvenda o sorrateiro.
A Abin, que, aliada aos seus parceiros de sistema,
É a linha invisível de defesa do Estado brasileiro!"

Aqui a rima, de sorrateiro com brasileiro, evoca a graça dos contrários. O conceito ingrato de sorrateiro choca-se com a afortunada idéia de brasileiro. E essa não é a única oposição sugerida. Há também a da luz, representada pela Abin, contra a escuridão – a Abin, repare-se bem na sutileza, que é luz mas que é também "invisível", na linha de defesa do Estado. O poeta Drummond escreveu que "lutar com as palavras é a luta mais vã". Para o poeta interino Buzanelli ela não é vã coisa alguma. Das palavras ele extrai efeitos que, para parodiá-lo, "dissipam a escuridão". Atente-se, por outro lado, à generosidade de quem divide as glórias com os "parceiros de sistema". Refere-se, presumivelmente, aos serviços secretos das Forças Armadas e das polícias. Nós, os cidadãos, sentimo-nos gratos. É bom que haja amizade e harmonia entre eles. Vem a seguir a que talvez seja a mais crucial das estrofes:

"Cumprimos nosso dever quer noite ou dia,
Buscando e analisando em prol da produção
De um conhecimento, a arma dos mais fortes,
Por isso, protegê-lo também é missão".

Chega-se agora ao âmago, ao ponto fulcral da atividade da Abin: a produção do conhecimento. Se o leitor associa a produção de conhecimento de preferência à universidade e a outros centros avançados de pesquisa, trate de pensar também na Abin, ela que, sempre segundo seu site, produz "conhecimentos estratégicos sobre oportunidades, antagonismos e ameaças, reais ou potenciais, de interesses da sociedade e do País". O conhecimento é a "arma dos mais fortes", afirma, numa inspirada descoberta, nosso autor. Por isso mesmo, o último verso, mesmo que algo solto, indefeso como um anacoluto, recomenda sensatamente que é necessário protegê-lo. A última estrofe consiste, como convém, numa apoteose de entusiasmo patriótico:

"Salve! Salve! a nossa Pátria brasileira!
Orgulho temos nós em tê-la num altar,
Onde a inteligência com que a protegemos,
Por certo, é um componente que a faz avançar..."

Pode causar estranheza que o altar da pátria seja o lugar "onde a inteligência com que a protegemos" etc. Como é mesmo? A inteligência então reverencia esse altar e ao mesmo tempo está instalada nele, e... Não nos abalemos. Fiquemos com a celebração da Abin como um "componente" – sim, um "componente", observe-se a singeleza da expressão – que faz a pátria avançar, o que é um alívio e um alento contra os que, ao ouvir o hino, terão a sensação de que a pátria, triste e inexoravelmente, recua.

 
 
 
 
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