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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo O
componente que faz a pátria avançar
A
Abin lança-se ao
assalto do inimigo sorrateiro num
hino que consola e alenta o brasileiro
A repercussão em torno da adoção
do carcará como símbolo da Agência Brasileira de Inteligência
(Abin) acabou obscurecendo outra proeza, talvez maior, de seu diretor, Márcio
Paulo Buzanelli o hino da entidade. A peça merece atenção
no mínimo igual à devotada à ave do sertão, aquela
que "pega, mata e come", segundo a canção de João do Vale,
e que agora, em vez de invocada para assombrar o regime militar, foi adotada para,
com "seu destemor, agudeza de visão, longo raio de ação e
controle do território onde habita", segundo diz o site da própria
Abin, exercer a função oposta de zelar pela ordem e segurança
do Estado. O hino, com letra de autoria do próprio Buzanelli, começa
com os seguintes versos: "Nós
somos da inteligência brasileira Anônimos heróis na busca
da verdade. Servir sempre em silêncio temos por bandeira E à
pátria consagramos nossa lealdade".
Imagina-se o esforço que representou para o senhor Buzanelli, um antigo
profissional do ramo da espionagem, integrado à carreira quando o órgão
ainda se chamava SNI, sair do cotidiano de informes e análises para dedicar-se
à altruística tarefa de elaborar um hino para sua organização.
Ele não é nem certamente nunca pretendeu ser um ás da poesia.
Tampouco tem prática em compor letras de música. Imagina-se que
suou e sofreu para burilar sua estrofe. Releve-se a imodéstia de os antigos
arapongas, hoje rebatizados carcarás, chamarem-se de "heróis anônimos".
Releve-se o paradoxo de alguém que afirma "servir sempre em silêncio"
querer apregoar tal virtude num hino. Louvemos o achado da rima, depois talvez
de muito queimar as pestanas verdade e lealdade! São dois conceitos
nobres. Dignos da Abin, que, segundo o site, tem como características,
tal qual o carcará, "a ampla capacidade de visão, o domínio
completo de suas áreas de competência, a lealdade aos princípios
constitucionais e a intransigência na defesa da Lei, do Estado Democrático
de Direito e dos altos interesses da Nação brasileira". Segue-se
o estribilho: "A Abin é
a luz forte que dissipa a escuridão, Desfaz as incertezas e desvenda
o sorrateiro. A Abin, que, aliada aos seus parceiros de sistema, É
a linha invisível de defesa do Estado brasileiro!"
Aqui a rima, de sorrateiro com brasileiro, evoca a graça dos contrários.
O conceito ingrato de sorrateiro choca-se com a afortunada idéia de brasileiro.
E essa não é a única oposição sugerida. Há
também a da luz, representada pela Abin, contra a escuridão
a Abin, repare-se bem na sutileza, que é luz mas que é também
"invisível", na linha de defesa do Estado. O poeta Drummond escreveu que
"lutar com as palavras é a luta mais vã". Para o poeta interino
Buzanelli ela não é vã coisa alguma. Das palavras ele extrai
efeitos que, para parodiá-lo, "dissipam a escuridão". Atente-se,
por outro lado, à generosidade de quem divide as glórias com os
"parceiros de sistema". Refere-se, presumivelmente, aos serviços secretos
das Forças Armadas e das polícias. Nós, os cidadãos,
sentimo-nos gratos. É bom que haja amizade e harmonia entre eles. Vem a
seguir a que talvez seja a mais crucial das estrofes:
"Cumprimos nosso dever quer noite ou dia, Buscando
e analisando em prol da produção De um conhecimento, a arma
dos mais fortes, Por isso, protegê-lo também é missão".
Chega-se agora ao âmago, ao
ponto fulcral da atividade da Abin: a produção do conhecimento.
Se o leitor associa a produção de conhecimento de preferência
à universidade e a outros centros avançados de pesquisa, trate de
pensar também na Abin, ela que, sempre segundo seu site, produz "conhecimentos
estratégicos sobre oportunidades, antagonismos e ameaças, reais
ou potenciais, de interesses da sociedade e do País". O conhecimento é
a "arma dos mais fortes", afirma, numa inspirada descoberta, nosso autor. Por
isso mesmo, o último verso, mesmo que algo solto, indefeso como um anacoluto,
recomenda sensatamente que é necessário protegê-lo. A última
estrofe consiste, como convém, numa apoteose de entusiasmo patriótico:
"Salve! Salve! a nossa Pátria
brasileira! Orgulho temos nós em tê-la num altar, Onde a
inteligência com que a protegemos, Por certo, é um componente
que a faz avançar..." Pode
causar estranheza que o altar da pátria seja o lugar "onde a inteligência
com que a protegemos" etc. Como é mesmo? A inteligência então
reverencia esse altar e ao mesmo tempo está instalada nele, e... Não
nos abalemos. Fiquemos com a celebração da Abin como um "componente"
sim, um "componente", observe-se a singeleza da expressão
que faz a pátria avançar, o que é um alívio e um alento
contra os que, ao ouvir o hino, terão a sensação de que a
pátria, triste e inexoravelmente, recua. |