|
|
Entrevista:
Paulo Guedes Liberal
sem medo O economista afirma que o Brasil
precisa de mais capitalismo e que a social-democracia não tem condições
de levar o país à frente  Lucila
Soares
| Oscar Cabral  | "Esquerda
e direita são rótulos que subsistem em países atrasados,
entre os quais incluo o Brasil" | O
economista Paulo Guedes, de 55 anos, tem sido um crítico feroz da condução
da economia em sucessivos governos. Suas previsões sombrias renderam-lhe
por um tempo o apelido de Beato Salu, o pregador catastrofista da novela Roque
Santeiro, de Dias Gomes, que estava no ar em fevereiro de 1986, quando foi
lançado o Plano Cruzado. Vinte anos depois e com suas previsões
mais que confirmadas, Guedes continua crítico, mas não se pode chamá-lo
de catastrofista. O economista enxerga um horizonte de oportunidades para o Brasil,
desde que o país faça as reformas estruturais tão discutidas
e pouco encaminhadas. Para que isso seja possível, defende a entrada em
campo da liberal-democracia, após vinte anos de governos que classifica
como social-democratas de matizes variados. Guedes, Ph.D. em economia pela Universidade
de Chicago, é sócio da administradora de recursos Fiducia e está
entre os fundadores do Instituto Millenium, um fórum recém-criado
para difundir o ideário e as propostas liberais para o Brasil. Em seu escritório,
no centro do Rio de Janeiro, ele deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja O senhor se auto-intitula um dos últimos
economistas liberais do Brasil. O que é ser um economista liberal? Guedes
É acreditar que a força motora da civilização
é a Grande Sociedade Aberta, que vem sendo construída há
pelo menos 2.500 anos. Começou na Grécia, em Atenas. Isso inclui
a percepção de que os mercados são a maior máquina
de inclusão social já descoberta. O liberal-democrata é o
sujeito que compreendeu o processo de formação dessa grande sociedade
e sabe que a democracia e os mercados estão nas raízes da civilização
ocidental. Veja No
Brasil, já há algum tempo, atribui-se boa parte dos problemas nacionais
a políticas liberais ou neoliberais. Por quê? Guedes
Na melhor das hipóteses, devido a uma má leitura da realidade. É
irracional dizer que um país que gasta 40% do PIB no setor público
tem algo de neoliberal. Porque o Brasil já tem quarenta anos de dirigismo:
vinte com os militares e vinte com a social-democracia. Então, quando alguma
coisa não vai bem, dizem que a culpa é do liberalismo. É
brincadeira. Tivemos a social-democracia populista, com José Sarney, o
PMDB e o "tudo pelo social". A sofisticada, ou punhos de renda, com Fernando Henrique.
E a popular agora, com Lula. A matriz ideológica brasileira não
tem sequer um genezinho liberal. Na última eleição presidencial
foi a mesma coisa. Tinha o social-democrata José Serra, o social-reformista
Ciro Gomes, o social-sindicalista Lula, o social-populista Anthony Garotinho.
Veja Mas houve privatizações,
abertura do mercado, Lei de Responsabilidade Fiscal, superávit primário...
Guedes É claro que houve progressos. Armínio Fraga
(ex-presidente do Banco Central) fez o câmbio flexível, Sérgio
Werlang (ex-diretor do BC) criou o sistema de metas inflacionárias
e Palocci garantiu a estabilidade da moeda. Mas nas privatizações,
por exemplo, perdeu-se uma chance histórica. Quando começou o governo
Fernando Henrique, a União tinha 60 bilhões de dólares em
participações nas empresas estatais. E a dívida pública
federal também era de 60 bilhões de dólares. Tinha de ter
feito um processo radical e acelerado, e matado a dívida. Ou seja, a social-democracia
até acerta, mas é um modelo que funciona num ritmo incompatível
com as necessidades impostas pelo mundo atual. Levou vinte anos para derrubar
a inflação, vinte anos para soltar o câmbio. Isso é
intolerável. Veja
É por isso que o Brasil não cresce? Guedes
Há quase três décadas o Brasil parou de crescer. A estagnação
tem raízes no intervencionismo e no dirigismo lançados pelo governo
militar, irrigadas por uma democracia emergente que se perdeu em combates epidérmicos.
O centro do problema é o tamanho do Estado e sua voracidade. Porque, como
o Estado não pára de gastar, o juro acaba ficando muito alto. Isso
é incontornável. Não adianta xingar o BC. Isso só
se quebra com controle dos gastos públicos. Para o país ter lugar
no mundo globalizado, é preciso levar à frente as reformas, e a
social-democracia é muito lenta. O mundo não vai nos dar esse tempo.
Da mesma forma que a redemocratização devastou as hostes políticas
que apoiaram os militares, a social-democracia será devastada agora, porque
não há como fazer face à globalização sem reformas
profundas e ela não tem condições de promovê-las. A
mãe de toda a tragédia é o nível de gastos do governo.
Todo o resto é epifenômeno. Inclusive a corrupção.
Veja Por quê? Guedes
É Karl Marx quem diz o seguinte no clássico As Lutas
de Classe na França: "O incremento da dívida do Estado interessava
diretamente aos que governavam e legislavam através das Câmaras.
O déficit do Estado era precisamente o verdadeiro objeto de suas especulações
e a fonte principal de seu enriquecimento. As enormes somas que passavam pelas
mãos do Estado davam, além disso, oportunidade para fraudulentos
contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações
e ladroeiras de todo gênero". É Marx quem diz que a corrupção
sistêmica é filha da escalada de gastos estatais. E essa é
uma lição a ser aprendida por nossos social-democratas. Não
podemos levar vinte anos para fazer as reformas. Veja
Por que as reformas não andam? Guedes
Quem estudou um pouquinho de física sabe que as estrelas que a gente vê
à noite não existem mais. São luzes emitidas há bilhões
de anos. Mas quando se olha o firmamento brasileiro vê-se a luz de um professor
auto-exilado porque lutou meritoriamente contra o regime político. E a
de um sindicalista corajoso, brasileirinho, que enfrentou os cães na porta
da fábrica. Eles merecem brilhar no nosso firmamento. Mas são ecos
do passado. Essa noite não existe mais, tem coisa nova acontecendo. Não
há dúvida de que quem está promovendo a reconstrução
econômica em todo o mundo é a liberal-democracia. Desde o pós-guerra.
Quem fez a reconstrução econômica da Inglaterra, que tinha
se tornado uma nação irrelevante? Lamentavelmente, para o desprazer
de muita gente, foi uma senhora chamada Margaret Thatcher (primeira-ministra
britânica que liderou a reforma do Estado em seu país na década
de 80). Veja O
senhor fala em social-democracia e liberal-democracia. Por que não esquerda
e direita, simplesmente? Guedes Esquerda e direita são
rótulos que ainda subsistem em países atrasados, entre os quais
eu incluo o Brasil. Nos desenvolvidos, as duas forças hegemônicas
são a social-democracia e a liberal-democracia. O socialismo é uma
utopia que se tornou irresistível para os intelectuais, apesar de ser um
equívoco intelectual completo. Quem são os economistas socialistas
que deixaram uma herança para a sociedade? Sobrou só o próprio
Marx, como um grande filósofo. O socialismo, para sua tragédia,
virou o ópio dos intelectuais. Virou uma religião. E por quê?
Porque cometeu o terrível equívoco de não compreender o que
estava acontecendo em matéria econômica. Baseado no desejo de igualdade,
de solidariedade, não percebeu o que estava acontecendo do ponto de vista
econômico. Veja
A redução da desigualdade não é necessária? Guedes
Sim, mas não da forma imaginada pelos socialistas. A alternância
desejável é entre a social-democracia e a liberal-democracia. É
o liberal-democrata de um lado, o social-democrata de outro, um com mais ênfase
na criação de riqueza, o outro com mais ênfase na redistribuição.
Mas nenhum dos dois pretendendo desorganizar o sistema de mercado que levou 2
500 anos para ser construído. Se uma sociedade está crescendo 2%
ao ano, é melhor colocar um liberal-democrata. Aí, quando ela estiver
crescendo 6%, você põe um social-democrata, taxa um pouco mais aqui
para financiar projetos sociais bolsa-família contra a pobreza absoluta,
bolsa-escola pela igualdade de oportunidades, seguro-desemprego e distribui
um pouquinho a quem ficou para trás. Por isso acredito que os próximos
vinte anos serão da liberal-democracia no Brasil.
Veja Estamos falando já das eleições
deste ano? Guedes Espero que sim. Existe um princípio
chamado pelos biólogos evolucionistas de Princípio de Gause, que
é a disputa de nichos ecológicos por espécies semelhantes.
Costuma ser uma luta feroz. Eu não gostaria que a disputa política
que vem aí fosse apenas uma manifestação do Princípio
de Gause, com o PSDB dizendo "você é corrupto" e o PT respondendo
"você é que é". Como liberal-democrata, assisto a isso com
um certo prazer, mas, como brasileiro, não. Espero que surja um candidato
liberal-democrata, com uma plataforma que se proponha a atacar os problemas hoje
disfarçados pelo fechamento cognitivo da social-democracia. O Estado gasta
100 bilhões de reais com folha de pagamento do funcionalismo, 150 bilhões
com aposentadorias, 150 bilhões com juros. E aí sobram só
10 bilhões para o Bolsa-Família. O eleitor está ávido
por mudança. E já mostrou no referendo sobre o desarmamento que
não aceita mais ser manipulado. Veja
O senhor foi um dos economistas não petistas que deram ao
governo Lula o benefício da dúvida. Qual sua avaliação
hoje? Guedes Antes da posse de Lula eu dizia que não
haveria um desastre. Mas também dizia que não havia o menor perigo
de dar certo. Hoje digo que Lula mostrou que não é o Hugo Chávez,
não é o Fidel Castro e não é o Evo Morales. Pedir
mais do que isso dele não é sensato. Ele revelou grande percepção
ao fazer um pouco mais do mesmo que tinha visto. Um pouco mais de gasto social,
um BC se aprimorando o tempo inteiro. O BC brasileiro é de Primeiro Mundo.
Salvou a social-democracia brasileira. E é o mais apedrejado, justamente
por ser o único que cumpriu aquilo a que se propôs: manteve o poder
de compra dos salários, das aposentadorias, da poupança pública.
Fez a parte dele. Veja
Qual o principal erro dos últimos governos no Brasil? Guedes
Foi não terem percebido as oportunidades do mundo globalizado.
O discurso é aparentemente moderno, fala-se em choque de capitalismo e
outras coisas, mas nós não mergulhamos de cabeça no capitalismo.
Usa-se um discurso moderno para atrair dinheiro externo. Mas persiste uma visão
de que a globalização é negativa. E não é.
Veja Mas há
perdedores na globalização. Guedes É
questão de ponto de vista. Quando há maior penetração
de comércio global, há uma tendência à equalização
dos salários. Então o americano ou o brasileiro que trabalham numa
montadora vão ganhar menos, mas o salário do chinês que passa
a ter emprego numa montadora na China vai subir. Quem olha com uma visão
local diz que o capitalismo está destruindo salários e empregos.
Mas quem está olhando o mundo fala assim: o salário do americano
caiu 30 dólares e subiu 1 dólar o salário de 1 milhão
de chineses. O capitalismo não está espoliando. Está redistribuindo.
Só que quem está no Brasil assiste ao salário caindo e ao
juro lá em cima e diz: a culpa é do neoliberalismo. Mas se você
perguntar a um chinês o que ele acha do neoliberalismo ele vai responder:
"Neolibelalismo, sim, muito bom". Veja
O difícil é lidar com as reações locais.
Guedes Esse é outro desafio. É claro que regionalmente
está havendo impactos colossais. Os australianos espancam brasileiro, os
franceses batem nos imigrantes, os skinheads alemães surram os turcos.
Estamos assistindo a cenas explícitas de barbárie provocadas pelos
impactos locais da nova ordem. Essa arbitragem global que comprime os salários
da parte mais avançada e puxa para cima os da China, da Rússia,
da Polônia, da Hungria apavora o francês, o alemão. Se além
disso há as correntes migratórias, ou seja, se além de o
sujeito perder o emprego porque a fábrica mudou para a Índia começa
a chegar uma porção de turcos e marroquinos, é importante
que se tenha isenção para garantir que a civilização
continue. Porque não vale a pena escaparmos da armadilha social-democrata
e cairmos no nacional-socialismo, no Le Pen (Jean-Marie Le Pen, líder
da extrema direita francesa), no fechamento de fronteiras, na indústria
nacional. Veja Que
futuro se vislumbra para o mundo diante de tantos desafios? Guedes
Estamos no meio do deslocamento de placas tectônicas, de uma mudança
brutal. Mas a economia mundial vai bem. Até pouco tempo atrás tínhamos
apenas duas turbinas no mundo os Estados Unidos e a China. Agora temos
novos atores muito dinâmicos. A Rússia, o Leste Europeu, a Índia.
O Japão começou a sair do estado cataléptico, e mesmo a Europa,
que está naquele processo de euroesclerose há anos, começa
a se flexibilizar, lentamente mas começa. Esse é o lado bom. O lado
ruim é o risco de ter tudo sincronizado, porque o capitalismo é
um mecanismo humano. Ou seja, falha toda hora. E, quando falha, é melhor
que não esteja todo mundo sincronizado, porque aí se estabelecem
mecanismos de compensação que impedem que todos afundem juntos.
Veja E quanto ao
Brasil? O que se pode esperar? Guedes O potencial é
enorme. O Brasil está tão longe da fronteira de produção,
com 50 milhões de pessoas fora do mercado, excesso de impostos, enrijecimento
institucional e disfunções burocráticas, que, se houver uma
desregulamentação, o país crescerá 12% ao ano durante
dez anos seguidos. A riqueza de um país é construída em cima
do capital educacional de seus indivíduos, do capital organizacional de
suas empresas, do capital institucional de sua classe política e da ação
descentralizadora do Estado atacando os problemas de desigualdades de oportunidades,
desigualdades educacionais, desigualdades de renda. É nisso que o Brasil
tem de apostar. |