|
|
![]() |
Anna (Susanne Lothar, ao centro, de mordaça): ponto alto em filme forte |
| Foto: Divulgação |
Antes de comprar um
ingresso para assistir ao filme Violência Gratuita
(Funny Games, Áustria, 1997), já em cartaz em
São Paulo e com estréia prevista para esta semana no
Rio de Janeiro, é bom saber que nem todo mundo consegue
enfrentá-lo até o final. Não por ruindade. Indicado à
Palma de Ouro do Festival de Cannes, o prêmio mais
importante do cinema mundial depois do Oscar, Violência
Gratuita instiga o espectador, mas também o tortura
como poucos. Se isso serve de consolo, o filme não abusa
das cenas de pancadaria como fazem as produções de
Hollywood. É ainda pior que isso, com seu terror
psicológico à maneira germânica. Torcendo para que sua
aflição acabe logo
o que não acontece
,
quem vê o filme vai perdendo uma esperança atrás da
outra. Quem resiste acrescenta ao currículo um raro
exemplar de bom cinema. Isso porque, mais desconcertante
que a selvageria mostrada em cena, é o modo original
como o filme se articula. De clichê, ele só tem uma
coisa: a família européia endinheirada que vai passar
uma temporada de verão em sua bela casa à beira de um
lago. Todo o resto é imprevisível.
O grande mérito de Violência Gratuita é impor uma cumplicidade desconfortável junto ao público, coisa que faz através dos truques mais inesperados. Com isso, questiona também o voyerismo quase masoquista de quem fica ali, com o olhar preso à tela, espiando por duas horas o sofrimento alheio. É, portanto, duplamente cruel com o espectador. Sua trama, econômica, basta para questionar algumas futilidades da vida contemporânea, cinema incluso. No filme, a família que viaja para aproveitar o verão tem todos os motivos para sentir-se protegida. Está cercada de conforto. Sua casa de campo, luxuosa, é grande como um hotel. O portão de entrada tem controle remoto e o cão de guarda está sempre alerta. Na faixa dos 40 anos e com um filho de 10, o casal mantém tudo sob controle. Estão desempacotando os suprimentos de férias quando recebem a visita de dois rapazes esquisitos, alegando ser hóspedes de alguém da vizinhança. Segue-se uma pequena confusão e os donos da casa viram reféns dos intrusos.
Jogo duplo
Apesar desse argumento, a história não faz a linha
policial. Há pouca ação, algumas tomadas são
exageradamente longas e, desviando de um hábito comum a
filmes europeus, não se ouve em momento algum nenhum
diálogo mais elaborado. Ainda assim, o filme está longe
de provocar tédio. Seu segredo é funcionar como um jogo
duplo. O primeiro se dá entre os personagens. Outro, do
diretor com a platéia. Nos dois, predomina a tensão.
Onde foi exibido o filme conseguiu proezas. No festival
de cinema de Toronto, foi comparado ao clássico da
ultraviolência Laranja Mecânica (1971), de
Stanley Kubrick, e ao nem tão clássico mas igualmente
perturbador Assassinos por Natureza (1994), filme
dirigido por Oliver Stone a partir de um roteiro de
Quentin Tarantino.
Não é pouco para o diretor Michael Haneke, que nasceu na Alemanha e trabalha na Áustria, cuja filmografia, iniciada em 1989, indica uma obsessão por situações de brutalidade contra a família. Apesar de boas, as comparações também prejudicam o diretor, já que podem dar uma idéia errada sobre seu filme. Violência Gratuita, ao contrário dos outros, não se presta a tirar conclusões daquilo que mostra. Ajudado pela admirável atuação de Susanne Lothar, no papel de Anna, ponto alto do elenco, Michael Haneke fez um filme que, no fundo, é um exercício de perversidade para com o público. Sem apelação nem misericórdia, mas com muita competência.
Copyright © 1997, Abril
S.A. |