Capital da fumaça

Pesquisa revela que estudantes de Porto Alegre
são os que mais consomem drogas

Ricardo Villela

Foto: Liane Neves
Programa Folharada, da Bandeirantes: estúdio decorado com folhas de maconha

Uma pesquisa feita com estudantes de escolas públicas em dez capitais brasileiras, e divulgada na semana passada, surpreendeu os gaúchos. Ela mostra que os estudantes de Porto Alegre são os que mais consomem drogas no país. Um em cada três adolescentes da capital gaúcha já experimentou pelo menos uma vez algum tipo de droga. No Brasil inteiro a média é de um para quatro. A conta não inclui cigarro ou bebidas alcoólicas. Os estudantes de Porto Alegre lideram o consumo de maconha. "O índice é impressionante, maior do que imaginávamos", diz Helena Maria Barros, uma das responsáveis pelo levantamento.

A pesquisa, encomendada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, Cebrid, ouviu 15.000 estudantes nas dez maiores capitais brasileiras e limita-se a mostrar os números de uso de drogas, sem analisar as causas. Alguns especialistas, no entanto, apontam como hipótese mais provável para o alto consumo em Porto Alegre o maior poder aquisitivo da população. Mais da metade dos estudantes gaúchos que declararam já ter experimentado drogas pertence às classes A e B. "Quanto maior o poder aquisitivo, maior a possibilidade de consumir drogas, que, afinal, custam dinheiro", afirma o psiquiatra Sérgio de Paula Ramos, chefe do serviço de Dependência Química do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre. "Se a pesquisa fosse realizada nas escolas particulares, onde os estudantes são mais ricos, provavelmente os resultados seriam bem mais alarmantes."

Programa na TV Cenas de jovens consumindo e defendendo a legalização da maconha droga cujo efeito é motivo de controvérsia entre médicos e especialistas são cada vez mais comuns nas grandes cidades brasileiras. O tema aparece em letras de música, adesivos de carros e camisetas. Nada se compara, porém, ao que acontece em Porto Alegre. Ao entardecer, grupos de estudantes se reúnem para fumar maconha às margens do Rio Guaíba e nos parques dos bairros de classe média. Na televisão local há até um programa que se dedica ao assunto. Chama-se Folharada e vai ao ar de segunda a sexta, no começo da tarde, na afiliada gaúcha da Rede Bandeirantes. O estúdio é decorado com reproduções de folhas de maconha. "Fuma-se maconha em tudo quanto é lugar em Porto Alegre", diz a apresentadora do programa, Kátia Sumam, 40 anos. "É uma mudança de costume. A própria polícia anda relaxando ao se dar conta de que há coisas mais importantes a fazer do que prender um garoto que leva um baseado no bolso."

Apesar de alguns dados preocupantes, a pesquisa tem de ser lida com cuidado. O Brasil ainda possui um dos menores índices de consumo de drogas entre jovens. Pesquisas similares feitas na Inglaterra e nos Estados Unidos mostram que mais da metade dos adolescentes experimenta drogas antes de completar 19 anos. "O fato de haver 25% de estudantes brasileiros que já experimentaram alguma droga indica que 75% nunca consumiram nenhuma. Não deixa de ser um bom sinal", diz Helena. Outra ressalva a ser feita é a diferença entre experimentar e ficar dependente. Apenas 3,3% dos estudantes brasileiros declararam fazer uso freqüente de alguma droga.

Com reportagem de Alexandre Oltramari




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