Sou doido mesmo

O cardiologista inventor da cirurgia que tira um bife do coração diz que prefere ser chamado de louco a deixar pacientes morrerem

Franco Iacomini

"Dissequei coração de cachorro, gato, carneiro, vaca, de tudo quanto era bicho. Foi assim que comecei"
Foto: Jader da Rocha  

Em meados do mês passado, o cirurgião mineiro Randas Vilela Batista, 50 anos, foi homenageado nos Estados Unidos como um dos quinze heróis mundiais da medicina, numa lista preparada pela revista Time e pela rede de televisão CNN. Ao retornar ao Brasil, foi preso no aeroporto de São Paulo porque, durante a viagem, brigou com os comissários de bordo. O motivo: em vez de ficar sentado na poltrona, insistiu em deitar-se com a cabeça no chão do corredor e os pés no encosto da poltrona para atenuar uma dor nas pernas. Foi interrogado pela polícia e liberado em seguida. A rebeldia no avião é uma das facetas do cirurgião que se recusa a aceitar algumas das regras mais elementares da cardiologia e que exatamente por isso se tornou uma celebridade internacional. Casado, com quatro filhos e trabalhando num hospital de beira de estrada numa cidade do interior do Paraná, Batista criou a ventriculectomia parcial esquerda. Apelidada de "cirurgia do naco", consiste em retirar um bife do ventrículo esquerdo para que o coração, com tamanho reduzido, volte a bombear sangue com força.

Veja Quem fica mais chocado com a idéia de cortar um pedaço do coração de um paciente, o leigo ou o médico?

Randas O médico fica mais chocado porque, para ele, o coração sempre foi um órgão intocável. Tirar um pedaço do ventrículo esquerdo, que injeta sangue na artéria aorta, seria impensável. É mesmo surpreendente, uma coisa muito louca. O paciente não se assusta: quando a gente fala que a cirurgia é boa, que a taxa de sobrevida é de 95%, ele aceita. Minha técnica é uma alternativa simples e barata para doentes de insuficiência cardíaca que não podem se submeter a transplantes ou não têm tempo de vida suficiente para ficar na fila de espera. Eu pego o coração grande, inchado e cansado, corto um pedaço e costuro o que sobrou. O coração volta a bater, menor e mais forte. Quando souberam que faço isso, começaram a falar que eu era louco. Podem falar: sou doido mesmo, mas dou uma chance para as pessoas viverem.

Veja Qual é a reação mais comum de seus colegas quando ouvem falar pela primeira vez da ventriculectomia?

Randas Schopenhauer falava que toda verdade passa por três estágios. No primeiro, ela é ridicularizada. No segundo, é veementemente antagonizada. Mas no terceiro estágio ela é aceita. Foi isso que aconteceu comigo. O duro foi levar as bordoadas que vieram antes. Dois médicos de Porto Alegre diziam que era impossível um paciente melhorar com essa cirurgia, e que se eu estivesse certo seria necessário reescrever todos os livros de cardiologia. Esses imbecis podem preparar as canetas, porque eu estou certo e eles estão errados.

Veja Suas idéias foram aceitas primeiro nos Estados Unidos e, depois, no Brasil. Como elas chegaram ao exterior?

Randas Toda essa repercussão aconteceu graças a um outro brasileiro, o Tomas Salerno, diretor da divisão de cirurgia cardiotorácica da Universidade Estadual de Nova York, em Buffalo. Ele veio aqui, viu umas dez cirurgias e quase caiu de costas. Foi ele quem me deu força e me levou aos Estados Unidos para promover a técnica. Mas lá o negócio também foi brabo. Um dia eu cheguei a um congresso americano e ninguém queria me deixar falar de jeito nenhum. Aí me inscrevi para comentar um artigo a respeito de redução do pulmão. Parabenizei o médico pelo trabalho, disse que estava muito bonito, que concordava com sua abordagem. Depois prossegui falando que estava fazendo o mesmo com o coração. Foi um escândalo.

Veja O senhor então já se acostumou a ser chamado de louco?

Randas Claro. É muito mais fácil me chamar de louco do que alguém admitir que foi idiota durante toda sua carreira. Alguns têm até coragem de admitir. Um cirurgião veio me dizer que já teve uns 10000 corações na mão e nunca percebeu uma coisa tão simples.

Veja Como foi que o senhor teve esse estalo?

Randas A curiosidade faz a gente descobrir as coisas. Quando eu era criança, meu pai fazia geléia de mocotó em casa, para vender lá em Minas. E quando ele ia ao abatedouro comprar mocotó, eu ficava mexendo em uma tina onde eles jogavam os corações dos bois mortos. Sempre fui fascinado por aquilo, por manusear aqueles corações de animais. Um dia, bem mais tarde, encontrei na minha chácara um búfalo morto. Tinha sido picado por uma cobra, que também morrera esmagada pelo corpo do animal. Eu dissequei os dois e percebi que, apesar de algumas diferenças de circulação, os corações eram iguais. Dissequei coração de cachorro, gato, carneiro, vaca, de tudo quanto era bicho que eu encontrava morto por aí. Assim eu cheguei a uma fórmula matemática que resume as dimensões de um coração saudável: a quantidade de massa muscular tem de ser igual a quatro vezes o seu raio elevado ao cubo. É uma aplicação da lei de Laplace sobre a tensão de parede, que a gente estuda durante a residência em cirurgia geral. Ficou fácil, qualquer paciente que não esteja dentro dessa proporção terá insuficiência cardíaca.

Veja Da comparação entre os corações de animais até o primeiro paciente humano decorreu quanto tempo?

Randas Não foi muito mais do que uns seis meses. Eu nunca tinha feito essa cirurgia nem em animais. Mas estava operando um paciente com insuficiência cardíaca terminal e vi que ia perdê-lo. Existem duas maneiras de fazer um coelho correr: cenoura no nariz ou chumbo no rabo. Eu estava levando chumbo no rabo e decidi meter o facão e tirar um pedaço do coração do paciente. O que me fez fazer isso? Desespero. Eu estava com o paciente morrendo na mesa, tinha de fazer alguma coisa. A mesma coisa aconteceu quando nasceram os meus filhos mais velhos, gêmeos. Nós estávamos em Boston, já na clínica, mas o obstetra não conseguia chegar por causa de uma nevasca. Eu mesmo fiz a cesárea, e os dois nasceram bem. Hoje estão com 19 anos.

Veja A falta de testes antes de começar a operar seres humanos não lhe causou problemas?

Randas Fizeram o diabo comigo. Meus colegas me denunciaram no Conselho Regional de Medicina por estar fazendo cirurgia experimental em seres humanos. Eu disse que estava mesmo e mostrei meus resultados. "Se tiverem um tratamento melhor", falei, "eu mando todos os meus pacientes para vocês atenderem." Desde aquela época rezo todas as noites para Deus me proteger dos meus amigos. Um dia a Sociedade Brasileira de Cardiologia mandou uma comissão até aqui, talvez para fechar o hospital, e encontrou com uma equipe de americanos da Universidade Yale fazendo fotos e filmando.

Veja A cirurgia ainda é experimental?

Randas Não, hoje está sendo feita nos grandes centros do mundo inteiro. Ao todo, já foram realizadas mais de 2000 cirurgias. Eu sozinho fiz 800 600 aqui e umas 200 no exterior.

Veja Quais têm sido as taxas de mortalidade?

Randas Eu nunca falo em mortalidade, prefiro falar em sobrevida. Minha taxa de sobrevida é de 95% na sala de cirurgia. A chance de sair do hospital vivo é de 80% e a de viver dois ou três anos, 60%. Depois de um ou dois anos a sobrevida dessa cirurgia é igual à do transplante cardíaco. Com uma diferença: se você adicionar aos resultados do transplante cardíaco a quantidade dos pacientes que morrem na lista de espera, o resultado fica muito pior do que o nosso.

Veja Por que, em alguns casos, sua técnica é melhor que a do transplante?

Randas Tem muita gente que não pode se submeter ao transplante por estar com a pressão pulmonar muito baixa, por exemplo. E tem paciente que entra no hospital com insuficiência cardíaca e sai imunodeprimido, porque os transplantados tomam drogas para reduzir a imunidade e evitar a rejeição. O doente fica na corda bamba: ou é infecção ou é rejeição. Ou ele toma muita droga contra a rejeição e fica sujeito às infecções ou reduz a quantidade de medicamentos e pode ter rejeição. Já a ventriculectomia pode ser aplicada em qualquer doente que tenha insuficiência cardíaca terminal e um coração grande. Isso corresponde à maior parte da clientela do transplante.

Veja Muitos visitantes estrangeiros ficam chocados quando vêem suas condições de trabalho em Campina Grande do Sul. O senhor nunca pensou em fixar residência em um dos locais onde leciona, nos Estados Unidos?

Randas Em uma dessas universidades me disseram: "Fica aqui que nós vamos te deixar rico". Eu respondi que já era rico, porque rico é quem tem 1 dólar além de suas necessidades. Vou guardar para que, se meu caixão não vai ter gavetas? Eu acho o lado social da medicina muito importante, e aqui eu posso exercê-lo. Aqui eu tenho liberdade para aplicar tudo o que eu aprendi e também posso me dedicar a melhorar as coisas que eu aprendi. Aqui você tem o direito de fazer algo melhor, nos Estados Unidos não.

Veja Os médicos americanos têm menos liberdade de tratamento do que os brasileiros?

Randas O sistema americano é muito castrativo. Há médico que vem conhecer a minha técnica e volta para os Estados Unidos com medo de utilizar o que aprendeu. Ele opera, melhora a saúde de um paciente que está morrendo. Quando o paciente sai do hospital, vem um advogado e propõe entrar com uma ação para ganhar 5 milhões de dólares. O sujeito ganha a ação, o médico vai à bancarrota. Se, ao contrário, você deixar o doente morrer e for jogar golfe, não acontece nada com você. Ainda vão bater palmas se você fizer um buraco com uma tacada só. É por isso que o golfe é tão popular nos Estados Unidos. Eu não estudei quarenta anos para ter de telefonar para um advogado antes de decidir se vou operar ou não. Esse sistema não protege o doente, porque em uma situação de risco o médico vai deixar o doente morrer.

Veja Muitos médicos e proprietários de hospitais reclamam muito do SUS, dos valores pagos pelo governo. Qual é sua opinião a respeito do sistema?

Randas Eu acho que o SUS é ótimo. Acho que faz até mais do que deveria. Para mim, o SUS deveria atender apenas aos indigentes. Qualquer paciente que não fosse catalogado dentro do espectro do indigente teria de pagar um seguro ou ter algum tipo de programa de saúde. Profissionais liberais, gente de classe média não devem internar-se por conta do SUS. Reduzir a clientela para dar um atendimento decente aos brasileiros carentes é a saída para o SUS.

Veja Se o senhor fosse convidado para assumir uma secretaria ou mesmo o Ministério da Saúde, aceitaria?

Randas Eu não aceitaria. Eu entendo um pouco da saúde individual, dentro da minha especialidade. Mas para tratar da saúde como um todo, a partir de um cargo como esse, é preciso entender muito de política. Não me sinto preparado para isso, mas apenas para fazer cirurgias cardíacas. É o que eu gosto de fazer. Há muito dinheiro mal gasto quando se trata de governo. O primeiro investimento tem de ser nas pessoas. Não adianta nada investir tanto em obras. Eu digo aqui para o meu pessoal que um hospital é feito de neurônios, não de tijolos. Nosso hospital não poderia fazer mais pelos seus doentes se tivesse paredes de brilhante e chão de ouro. Um bom neurônio leva uns quarenta anos para construir, ao passo que um bom hospital eu levanto em seis meses.

Veja Como foi o convite para que o senhor fosse tratar do presidente russo, Boris Ieltsin?

Randas Eu estava em Praga, no final do ano passado, quando me procuraram para falar que Yeltsin estava com insuficiência cardíaca e precisava ser operado. Eu falei que não tinha como ir até Moscou porque já tinha compromissos, ia viajar para Houston, nos Estados Unidos. O Michael Debakey, americano, e o Renate Akchukin, russo, chefes da equipe médica que acompanhava o presidente, marcaram um encontro comigo em Houston. Mostraram os dados, explicaram as condições do paciente, disseram que ele estava com o coração grande. Eu ia indicar a cirurgia do naco, mas o Debakey me alertou para os riscos. "Se der certo, ótimo", ele me falou. "Mas se não der nós vamos todos para a Sibéria." Aí eu vi que o negócio era indicar as quatro pontes de safena e pronto. Foi o que fiz. O caso dele era limítrofe. Eu, se tivesse um paciente nas condições dele aqui no Angelina Caron, tirava um pedaço. Mas se eu opero Ieltsin e por alguma circunstância qualquer ele morre, a culpa fica sendo da cirurgia. Se ele viesse a morrer durante uma operação consagrada, não teria problema.

Veja Os seus pacientes e os seus colegas não estranham o seu linguajar duro?

Randas Às vezes eu sou mesmo meio agressivo, mas isso é normal. Se eu chamo alguém de macaco dentro da sala de cirurgia, é porque ele está fazendo alguma macaquice. Eu não quero ofender ninguém, eu quero estimular as pessoas. As pessoas estranham. Se elas não são capazes de entender isso, o problema é delas, não meu. Como bom mineiro, eu falo de maneira simples, não gosto de ser pedante. Não vou buscar um palavreado mais complicado só porque eu sou médico. Não nego a minha mineirice, não tenho vergonha da minha infância em Minas, que foi muito boa. Vivi em fazenda, tomando o leite quente da vaca. Para ser feliz na vida, o homem não pode negar a sua raça, por mais simples que seja a sua origem.

Veja Como foi que o senhor, um especialista em cirurgia cardiovascular, veio parar no hospital de uma cidadezinha do interior?

Randas Foi por acidente. Eu sempre quis ter um cachorro Labrador, e em Curitiba, onde moro, não tinha nenhum criador. Em 1984 eu vi um anúncio no jornal de uma pessoa vendendo uma ninhada em São Paulo e fui lá ver os animais. Quando eu estava voltando, o meu carro derrapou em um lugar que é até apelidado de "curva do óleo". Eu capotei sete vezes. Cheguei aqui com cinco costelas e a omoplata quebradas. A primeira coisa que eu fiz depois que acordei foi perguntar se o hospital não estava precisando de um cirurgião cardíaco. No começo eles não estavam acreditando, mas acabaram topando. O cachorro também sobreviveu. O nome dele é Dafi e está conosco até hoje.




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