Índios
O
território é do Brasil
O
STF mantém a demarcação da Raposa Serra do Sol, mas põe
um freio no frenesi demarcatório da Funai e das ONGs estrangeiras

Leonardo
Coutinho
Fotos Alan Marques / Folha
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Resgate da Constituição
O ministro Direito lembrou que os índios
têm o usufruto da terra, mas não a posse |
O
Supremo Tribunal Federal encerrou, na semana passada, o mais conturbado processo
de demarcação de reserva indígena da história recente
do país: o da Raposa Serra do Sol, em Roraima. Oito dos onze ministros
do STF mantiveram a extensão contínua de uma área de 17.000
quilômetros quadrados, que abarca quase 10% do território daquele
estado, faz fronteira com a Venezuela e a Guiana e só é habitada
por 19.000 índios. A sentença sairá apenas em 2009 por causa
de um pedido de vista do ministro Marco Aurélio Mello. O julgamento, porém,
não será alterado. A manutenção da reserva na sua
configuração atual atende à reivindicação dos
caciques que lá vivem, mas, graças ao voto do ministro Carlos Alberto
Menezes Direito, até agora acompanhado pela maioria de seus colegas, foi
dado um basta ao frenesi demarcatório da Fundação Nacional
do Índio (Funai) e impedida a viabilização de uma idéia
maluca, acalentada por padres marxistas e ongueiros estrangeiros: a da criação
de uma nação indígena no norte do país.
Em
seu voto, Direito fez dezoito recomendações que, acatadas por seus
pares, se tornaram regras e serão seguidas na definição de
novas reservas. Elas significam o resgate de princípios constitucionais
esquecidos nos processos de demarcação. O primeiro deles é
que os índios não são donos das reservas. Elas são
e sempre serão da União. Ou seja, de todos os brasileiros. Quando
cria uma reserva, o estado dá aos índios o usufruto da terra, mas
não o poder de eles ou a Funai fazerem o que bem entenderem, muito menos
o de vetar a entrada da polícia ou das Forças Armadas. O Supremo
resolveu que só podem ser demarcadas áreas já ocupadas por
índios em 1988, quando a Constituição foi promulgada. A decisão
liquida, assim, a "teoria do indigenato", que postulava que, se a terra
tivesse pertencido a uma etnia séculos atrás, continuaria a ser
dela. A corte proibiu o aumento das reservas existentes, pondo fim ao drama de
fazendeiros que corriam o risco de ter suas propriedades devoradas por aldeias
em expansão.
As decisões
do Supremo solucionam a maioria dos conflitos envolvendo as 227 reservas que,
hoje, se encontram em processo de demarcação e as 426 já
regularizadas. Mas Roraima não será pacificado. Até os anos
80, o estado era um exemplo de convivência étnica. Daí em
diante, uma série de demarcações atrapalhadas opôs
índios e não-índios. A Raposa Serra do Sol foi a maior delas.
O uso exclusivo de uma área gigantesca por índios aculturados implicará
a extinção de fazendas legalizadas no século XIX e o fechamento
de unidades produtoras de arroz. Seis mil brancos, negros, mestiços e também
índios terão de arranjar trabalho em outro lugar.