Entrevista Geddel
Vieira Lima
"O PMDB não é
o PT"
O ministro da Integração
Nacional admite
que seu partido pode apoiar um tucano à
sucessão
de Lula, refuta comparações com
ACM e fala de fisiologismo e
nepotismo

Felipe
Patury
| Fernando Vivas
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"O PMDB não vai apunhalar
Lula. Mas é ilusão achar que vai apoiar um petista em 2010, 2014, 2018... Há setores
que não querem a aliança" |
O
PMDB foi o grande vitorioso da eleição municipal deste ano e ninguém
espelha melhor seu sucesso do que Geddel Vieira Lima, ministro da Integração
Nacional e cacique da legenda na Bahia. Sua corrente venceu em 33 cidades no estado
em 2004. Desta vez, conquistou 115. A musculatura do ministro impressiona até
seus aliados. Na Bahia, eles o encaram como potencial adversário do petista
Jaques Wagner, que quer se reeleger governador em 2010. Em Brasília, Geddel
é visto como uma das alavancas que empurrarão o PMDB para a chapa
do PT ou a do PSDB na sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. Esses dilemas ocupam boa parte de seu tempo, mas, na semana passada, Geddel
tinha outra preocupação: uma hérnia de disco, revelada por
uma bateria de exames médicos. Aos 49 anos, ele luta para evitar que o
sobrepeso 93 quilos para 1,70 metro comprometa sua saúde.
O
presidente Lula pode confiar no PMDB?
Pode. O PMDB não vai apunhalá-lo.
Mas também é ilusão achar que vai apoiar um petista para
presidente em 2010, 2014, 2018 e assim por diante. Só não haveria
dificuldade se o candidato fosse o presidente Lula. Há setores do PMDB
que não querem manter a aliança com o PT, mas eu defenderei o apoio
ao candidato de Lula. Disputaremos com eles de que lado a legenda estará:
se do governo ou da oposição. A verdade, porém, é
que os partidos costumam fazer alianças por um tempo determinado. O PMDB
não é o PT. É legítimo, portanto, que em dado momento
possa tomar uma atitude diferente. A aliança com o PT, a meu ver, é
mais coerente, mas eu seguirei a decisão do partido. Nunca vesti outra
camisa nem agitei outra bandeira que não a do PMDB. Não pretendo
mudar.
O PMDB tem o maior número
de prefeitos, deputados e senadores. Por que não disputa a Presidência
com um candidato próprio?
O partido não tem quadros à
altura para essa disputa. Entre as novas lideranças, há o governador
(do Rio de Janeiro) Sérgio Cabral, que merece destaque. Mas não
o vislumbro concorrendo à Presidência. Ele se voltou integralmente
para o Rio e não adotou no cenário nacional posturas que o credenciem
como candidato a presidente. Faltam lideranças nacionais no cenário
político. Hoje, as únicas lideranças do país são
Lula e o governador de São Paulo, José Serra. Há um quadro
novo surgindo, mas ainda não testado nas urnas, que é (o governador
de Minas Gerais) Aécio Neves. Fora esses nomes, a vida pública
nacional é só aridez.
Seu
partido está tentando eleger os presidentes da Câmara e do Senado.
Se conseguir, o governo se tornará refém do PMDB?
Só
acreditaria que Lula se tornaria refém se os líderes do PMDB fossem
canalhas que quisessem chantageá-lo. Não penso assim. O partido
tem a maioria nas duas Casas e faz uma reivindicação justa. Só
que quem quer Justiça recorre às cortes, não faz política.
Essas eleições podem solidificar ou esgarçar a relação
dos dois maiores partidos da base de Lula, e que, no meu entendimento, devem ser
o esteio da candidatura do governo em 2010. É por isso que precisamos encontrar
uma solução harmônica. O melhor para o governo é que
o PMDB fique com a Câmara e ceda o Senado.
O
PMDB tem seis ministérios, inúmeros cargos e aproveita as eleições
do Congresso para negociar outros postos. O partido é insaciável?
Se
isso está ocorrendo, considero lamentável.
Para
que o PMDB quer tantos cargos?
O que está embutido nessa pergunta
é a idéia de que os cargos só servem para facilitar o financiamento
de campanhas e para fazer outras mutretas. Se isso acontece, cabe aos órgãos
de controle e à imprensa denunciar. Quem estiver podre que se exploda,
pague seu preço. O que não se pode admitir é que o comportamento
de alguns apequene a atividade pública.
Mas
para que o PMDB exige ministérios, diretorias de estatais e outros cargos?
A
primeira e mais nobre razão é mostrar que pode melhorar o país.
A diretoria internacional da Petrobras, que é do PMDB, define investimentos
do Brasil no exterior. Onde está a ilegitimidade disso? No pressuposto
de que quem assumirá fará negócios espúrios. Esse
cargo implica a definição de políticas, assim como a presidência
de Furnas. É mesquinha a visão de que todo diretor de estatal é
descarado.
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| "Mandamos
para Santa Catarina comida, colchões, barracas... Reclamam dinheiro para a reconstrução
do estado, mas preciso dos documentos. Não mando verba por telefone nem faço festa
da galinha gorda com dinheiro público" |
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O PMDB exigiu a presidência de
Furnas e a diretoria internacional da Petrobras em troca da aprovação
da CPMF, em uma operação que pareceu chantagem.
Se isso ocorreu,
foi um erro. Mas não é verdade que todas as indicações
nasçam dessa maneira.
Os catarinenses
reclamam de atrasos na liberação de recursos para as vítimas
da enchente.
Não houve. Mandamos imediatamente para Santa Catarina
comida, colchões, barracas... Eles estão reclamando do atraso do
dinheiro para a reconstrução do estado, mas o problema se deve ao
governo estadual e aos municipais. Preciso que eles enviem os documentos necessários.
Não mando verba pública por telefone. Não faço festa
da galinha gorda com dinheiro público: jogar para cima e quem quiser que
pegue. Em momentos como este, sempre aparecem oportunistas querendo se projetar
em cima da desgraça alheia.
Não
é possível facilitar a liberação de recursos em casos
como o de Santa Catarina?
Já fizemos isso. Antes, o governo federal
exigia 22 documentos para fazer os repasses. Hoje, são quatro. Vou reduzir
para três, mas ainda assim os estados e municípios têm dificuldade
em enviar os documentos. Até liguei para o governador Luiz Henrique para
cobrar esses papéis.
O senhor
é o novo ACM?
Sou Geddel Vieira Lima. Não quero me espelhar
em um político que combati e que me combateu tanto. Na minha vida, não
há perseguições e ataques à honra, práticas
que me fizeram ter divergências profundas com o senador Antonio Carlos Magalhães.
O
senhor quer mandar na Bahia tanto quanto ele mandou?
Se dissesse que não
quero influenciar o destino do meu estado, estaria dizendo que sou um político
sem projeto. Mas longe de mim mandar como um coronel, como ACM fez. Sou de outra
geração. Sou contemporâneo do futuro, e não escravo
do passado.
Quando o senhor chegou
ao ministério, o PMDB tinha dezoito prefeitos na Bahia. Em dois anos, passou
para mais de 100. Como conseguiu essa proeza?
Foi absolutamente natural.
Depois que conquistamos o governo do estado em aliança com o PT, muitos
prefeitos que eram ligados a ACM vieram para o PMDB, porque pensaram que, assim,
poderiam ter mais verbas, mais obras. Só não foram para o PT porque
seria mais difícil se aproximar desse partido.
Para
esses prefeitos, o senhor é o novo ACM...
Eles perceberão
que o momento é outro e que a filiação ao PMDB não
implicará automaticamente o sucesso de sua gestão.
O
senhor será candidato a governador da Bahia em 2010?
Pode me chamar
de hipócrita e mentiroso se disser que não sonho com o governo da
Bahia, mas minha prioridade é preservar a aliança do PMDB com o
PT e o governador Jaques Wagner. Só que isso depende muito mais dele do
que de mim.
Que garantias o senhor
dará ao PT baiano de que não lhe fará oposição
em 2010?
É o PT que tem de oferecer garantia. Em 2004, o PT participou
da campanha do prefeito de Salvador, João Henrique, ganhou cargos na administração
e, depois, lançou um candidato próprio. Que garantia Wagner dará
de que vê a mim e ao PMDB como parceiros, e não como simples tempo
de TV na campanha eleitoral? Se alguém pode acusar alguém, somos
nós. O PT mudou de lado em relação a João Henrique.
O
senhor está acusando o PT de traição?
O que ele fez
me deixa com o pé atrás em relação a 2010. Para continuar
nosso projeto, temos de compartilhar espaços. Não do ponto de vista
de verbas, mas de parcerias. Quero ter convicção de que nossos projetos
serão respeitados e que contaremos com o apoio do PT. Queremos participar
mais na definição de políticas de educação,
da saúde, da construção de estradas...
O
senhor começou a carreira com o senador ACM e depois se tornou seu inimigo.
Não obstante, recorreu ao apoio do deputado ACM Neto nas últimas
eleições municipais. Quando o presidente era Fernando Henrique Cardoso,
o senhor estava do lado do PSDB. Hoje, está com o PT. Como explica tantas
mudanças?
Quem tinha ligação com ACM era meu pai.
Apoiei o governo Fernando Henrique Cardoso por decisão de meu partido.
Fiz o mesmo em relação à candidatura de José Serra
(a presidente pelo PSDB, em 2002). Perdi e fui para a oposição.
Em 2006, propus uma repactuação ao povo da Bahia, que entendeu minha
situação e me reelegeu deputado federal.
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| "Pode
me chamar de mentiroso se disser que não sonho com o governo da Bahia, mas a prioridade
é a aliança com o PT e Jaques Wagner. Só que isso depende dele. Quero participar
da educação, da saúde, da construção de estradas..." |
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Dá para chamar sua adesão
a Lula de programática?
Foi circunstancial, mas, uma vez no ministério,
influenciei o governo de forma programática. Outra coisa: o presidente
Lula adotou uma política econômica que sempre defendi. É muito
próxima à do presidente Fernando Henrique e, por isso mesmo, responsável.
O
presidente gostará de ser comparado dessa forma ao seu antecessor?
O
presidente é um democrata.
O
ministro da Saúde, José Temporão, disse que a Fundação
Nacional de Saúde, controlada pelo PMDB, é corrupta. Ele está
certo?
Se ele tem informações para dizer isso, conta com
meu apoio.
Se ele está certo,
não seria co-responsável por manter os envolvidos, e, se está
errado, não seria leviano?
Concordo.
O
senhor disse que se sentia constrangido pela insistência do ex-senador Luiz
Estevão, cassado por corrupção, em disputar cargos. Também
se sente assim em relação a Renan Calheiros, que decidiu pleitear
a liderança do governo no Senado?
Sim, Renan está constrangendo
e expondo o partido de forma desnecessária.
E
quanto ao deputado Jader Barbalho, o senhor se sente constrangido?
O Jader
tem recato, não está pedindo cargo nenhum. Ele renunciou ao Senado
e voltou como deputado absolvido pelas urnas. Está, portanto, legitimado
no Parlamento.
O senhor considera
que as urnas substituem os tribunais?
Uma vez eleito, o sujeito tem legitimidade
para disputar posições no Parlamento.
O
senhor aprova o fato de que um acusado de corrupção renuncie para
não ser cassado e, depois, tente se reeleger para conquistar imunidade?
Não
vou emitir opinião. Na democracia, o juiz é o eleitor. Se a lei
permite e o eleitor elege, o político está legitimado.
Como
o senhor vê a resistência do Senado a eliminar o nepotismo?
É
natural. É da cultura do país. Sou é contra o abuso e a generalização.
Se você bota trinta parentes no gabinete, é um abuso. Também
é injusto massacrar uma pessoa competente só porque ela é
de sua família.
O senhor já
empregou um irmão e sua cunhada em seu gabinete e sua mulher era lotada
no gabinete de um de seus correligionários. Foi um abuso?
Não.
Minha mulher trabalhava no gabinete do Michel Temer, mas ela não era ainda
minha mulher. Meu irmão foi meu braço-direito. Se não houvesse
a lei antinepotismo, seria até hoje. Minha cunhada prestava um serviço
relevante.