Edição 1834 . 24 de dezembro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Memoráveis aventuras
nas Arábias

Que é mais colonizado: não fazer uma viagem
de medo
dos EUA ou fazê-la só para mostrar
não ter
medo deles?

Se havia algo capaz de excitar o imperador dom Pedro II eram pirâmides, múmias e hieróglifos. Imagine-se então o entusiasmo com que encetou suas duas viagens ao Egito, em 1871 e 1876. A primeira durou mais de quinze dias e, segundo o biógrafo Heitor Lyra, foi "uma correria desenfreada por desertos e por cidades, por vales e por montes, o imperador à frente, arrastando atrás de si uma comitiva que protestava impaciente e já quase esgotada de cansaço". O imperador estava no céu. Para os acompanhantes, porém, era o inferno. Seu camerista, Nogueira da Gama, escreveu: "Percorremos todo o Egito, desde Alexandria até o Cairo, novo e velho, a Arábia, Mênfis, suas pirâmides e antiqüíssimas sepulturas, atolados até os joelhos em montes de areia movediça e abrasadora, sob aquele clima africano, e imagine-se o que sofremos".

Mais de um século depois, eis outro governante brasileiro enfeitiçado por uma pirâmide. "Não podemos entrar naquele buraco?", perguntou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao divisar uma abertura no pé da pirâmide de Quéops, nas proximidades do Cairo, na última segunda-feira. Os assessores preocuparam-se, mas ele foi em frente. Enfiou-se por um túnel estreito, ao qual se seguia uma rampa, e lá foi, seguido da numerosa corte de ministros, governadores, deputados e senadores. Os mais prudentes apelavam para que voltasse, mas ele ia em frente, intimorato como o imperador, e com igual tendência a arrastar os acompanhantes em aventuras desgastantes. E foi, e foi – até se dar conta de que não dava mais e iniciar uma complicada retirada. O caminho era tão estreito que a volta tinha de ser feita de costas. A custo, o presidente conseguiu caminhar de lado. "Marisa, cuidado com a cabeça", avisava à mulher. "Se eu cair, derrubo todo mundo", alarmava-se a primeira-dama. Foi meio assustador. Ao ver-se de novo a céu aberto, o presidente suava dentro do terno e da gravata, o mais inconveniente dos trajes para semelhantes sortidas.

Essa foi a face, digamos, de "esporte radical" da visita presidencial a cinco países árabes, mas houve de tudo. Deseja-se uma face carnavalesca? Eis o senador Ney Suassuna vestido de árabe, posando para os fotógrafos em frente ao hotel em Abu Dabi, alegre e à vontade como numa terça-feira gorda no Clube Monte Líbano. Mais Carnaval? Eis a escola de samba Gaviões da Fiel evoluindo no salão onde os brasileiros ofereciam jantar para 650 pessoas em Dubai. Um toque de mil e uma noites? Eis-nos na recepção que a rainha Fátima, dos Emirados Árabes Unidos, ofereceu a sete mulheres da comitiva, capitaneadas pela primeira-dama Marisa. Elas foram homenageadas com aromatizantes distribuídos pelos corpos e um banquete de arromba. De quebra, ganharam, cada uma, um conjunto de colar, brincos e pulseira de ouro. Uma pitada de bom humor do presidente? Ei-lo encerrando, no Líbano, discurso de exaltação da amizade entre os dois povos com a frase: "Samos tudo brimo". O português errado, com "brimo" por "primo", passava por uma imitação dos imigrantes árabes no Brasil. Fica-se a imaginar o apuro do tradutor para transmitir a idéia, se é que ele próprio entendeu algo.

A viagem de Lula entrará nos anais como uma memorável extravagância diplomática. Às vezes lembrou os bandos de brasileiros que no exterior visitam os museus fazendo piada com os objetos expostos e entre um passeio e outro se entregam à batucada. Considerando os políticos, assessores, Gaviões da Fiel, o médico do presidente e até uma pessoa incluída na qualidade de "amigo" (Mohamed Ali Laila, de São Bernardo), quase todos acompanhados das mulheres, difícil chegar ao número exato de membros da comitiva – mas era grande, daquelas que só países do Terceiro Mundo costumam produzir. Dada a manifesta intenção do Itamaraty de estreitar relações com tais países, nada mais adequado. A delegação, no tamanho como nas peripécias em que se envolveu, era animada por um inconfundível espírito terceiro-mundista.

Quanto à parte menos festiva, a caravana notabilizou-se por atravessar mais do que um deserto onde o sol estava quente e queimava a nossa cara, como diz a marchinha. Afundou-se numa das áreas de mais densa presença de censura, presos políticos e proscrições em geral da face da Terra, se não for a mais. "A viagem é de negócios", insistiam o chanceler Celso Amorim e outros membros da delegação. Era uma defesa. Procurava-se com isso tirar uma conotação política, que implicasse apoio a ditaduras. Mas a argumentação traía uma falácia. Presidentes não fazem viagens de negócio. Ficaria até feio se fizessem. A presença de um presidente é sempre política. Em outra linha de defesa, Amorim atribuía a "mentalidades colonizadas" as críticas à viagem. Os colonizados em questão temeriam desagradar aos Estados Unidos, com demonstrações de amizade para com inimigos dos americanos, como a Síria e a Líbia. Difícil é escolher entre o que é mais colonizado. Se deixar de fazer uma viagem de medo dos Estados Unidos ou se fazê-la só para mostrar que não se tem medo deles.

 
 
 
 
topo voltar