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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Memoráveis
aventuras
nas Arábias
Que
é mais colonizado: não fazer uma viagem
de medo dos
EUA ou fazê-la só para mostrar
não ter medo deles?
Se
havia algo capaz de excitar o imperador dom Pedro II eram pirâmides,
múmias e hieróglifos. Imagine-se então o entusiasmo
com que encetou suas duas viagens ao Egito, em 1871 e 1876. A primeira
durou mais de quinze dias e, segundo o biógrafo Heitor Lyra,
foi "uma correria desenfreada por desertos e por cidades, por vales
e por montes, o imperador à frente, arrastando atrás
de si uma comitiva que protestava impaciente e já quase esgotada
de cansaço". O imperador estava no céu. Para os acompanhantes,
porém, era o inferno. Seu camerista, Nogueira da Gama, escreveu:
"Percorremos todo o Egito, desde Alexandria até o Cairo,
novo e velho, a Arábia, Mênfis, suas pirâmides
e antiqüíssimas sepulturas, atolados até os joelhos
em montes de areia movediça e abrasadora, sob aquele clima
africano, e imagine-se o que sofremos".
Mais
de um século depois, eis outro governante brasileiro enfeitiçado
por uma pirâmide. "Não podemos entrar naquele buraco?",
perguntou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao divisar
uma abertura no pé da pirâmide de Quéops, nas
proximidades do Cairo, na última segunda-feira. Os assessores
preocuparam-se, mas ele foi em frente. Enfiou-se por um túnel
estreito, ao qual se seguia uma rampa, e lá foi, seguido
da numerosa corte de ministros, governadores, deputados e senadores.
Os mais prudentes apelavam para que voltasse, mas ele ia em frente,
intimorato como o imperador, e com igual tendência a arrastar
os acompanhantes em aventuras desgastantes. E foi, e foi
até se dar conta de que não dava mais e iniciar uma
complicada retirada. O caminho era tão estreito que a volta
tinha de ser feita de costas. A custo, o presidente conseguiu caminhar
de lado. "Marisa, cuidado com a cabeça", avisava à
mulher. "Se eu cair, derrubo todo mundo", alarmava-se a primeira-dama.
Foi meio assustador. Ao ver-se de novo a céu aberto, o presidente
suava dentro do terno e da gravata, o mais inconveniente dos trajes
para semelhantes sortidas.
Essa
foi a face, digamos, de "esporte radical" da visita presidencial
a cinco países árabes, mas houve de tudo. Deseja-se
uma face carnavalesca? Eis o senador Ney Suassuna vestido de árabe,
posando para os fotógrafos em frente ao hotel em Abu Dabi,
alegre e à vontade como numa terça-feira gorda no
Clube Monte Líbano. Mais Carnaval? Eis a escola de samba
Gaviões da Fiel evoluindo no salão onde os brasileiros
ofereciam jantar para 650 pessoas em Dubai. Um toque de mil e uma
noites? Eis-nos na recepção que a rainha Fátima,
dos Emirados Árabes Unidos, ofereceu a sete mulheres da comitiva,
capitaneadas pela primeira-dama Marisa. Elas foram homenageadas
com aromatizantes distribuídos pelos corpos e um banquete
de arromba. De quebra, ganharam, cada uma, um conjunto de colar,
brincos e pulseira de ouro. Uma pitada de bom humor do presidente?
Ei-lo encerrando, no Líbano, discurso de exaltação
da amizade entre os dois povos com a frase: "Samos tudo brimo".
O português errado, com "brimo" por "primo", passava por uma
imitação dos imigrantes árabes no Brasil. Fica-se
a imaginar o apuro do tradutor para transmitir a idéia, se
é que ele próprio entendeu algo.
A
viagem de Lula entrará nos anais como uma memorável
extravagância diplomática. Às vezes lembrou
os bandos de brasileiros que no exterior visitam os museus fazendo
piada com os objetos expostos e entre um passeio e outro se entregam
à batucada. Considerando os políticos, assessores,
Gaviões da Fiel, o médico do presidente e até
uma pessoa incluída na qualidade de "amigo" (Mohamed Ali
Laila, de São Bernardo), quase todos acompanhados das mulheres,
difícil chegar ao número exato de membros da comitiva
mas era grande, daquelas que só países do Terceiro
Mundo costumam produzir. Dada a manifesta intenção
do Itamaraty de estreitar relações com tais países,
nada mais adequado. A delegação, no tamanho como nas
peripécias em que se envolveu, era animada por um inconfundível
espírito terceiro-mundista.
Quanto
à parte menos festiva, a caravana notabilizou-se por atravessar
mais do que um deserto onde o sol estava quente e queimava a nossa
cara, como diz a marchinha. Afundou-se numa das áreas de
mais densa presença de censura, presos políticos e
proscrições em geral da face da Terra, se não
for a mais. "A viagem é de negócios", insistiam o
chanceler Celso Amorim e outros membros da delegação.
Era uma defesa. Procurava-se com isso tirar uma conotação
política, que implicasse apoio a ditaduras. Mas a argumentação
traía uma falácia. Presidentes não fazem viagens
de negócio. Ficaria até feio se fizessem. A presença
de um presidente é sempre política. Em outra linha
de defesa, Amorim atribuía a "mentalidades colonizadas" as
críticas à viagem. Os colonizados em questão
temeriam desagradar aos Estados Unidos, com demonstrações
de amizade para com inimigos dos americanos, como a Síria
e a Líbia. Difícil é escolher entre o que é
mais colonizado. Se deixar de fazer uma viagem de medo dos Estados
Unidos ou se fazê-la só para mostrar que não
se tem medo deles.
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