|
|
Cinema
Como
se ergue um reino
Com
O Senhor dos Anéis O Retorno do Rei,
o diretor Peter Jackson finaliza a tarefa de dar
forma à saga escrita por J.R.R. Tolkien
Isabela
Boscov
Fotos divulgação
 |
ação
 |
| Ian
McKellen, como Gandalf: o mais poderoso de todos os magos também
faz fila no refeitório |
Viggo
Mortensen, como Aragorn: no novo filme, figura central de um
elenco à altura do tom épico |
A
ambição era muito semelhante: criar uma saga
heróica passada num universo fantástico e detalhada
em três filmes que, ao final, poderiam ser vistos como um
só. Tanto Matrix, de 1999, quanto O Senhor dos
Anéis A Sociedade do Anel, de 2001, foram também
entregues a diretores que ainda não haviam passado pelo teste
do mercado de massa os americanos Larry e Andy Wachowski,
no primeiro caso, e o neozelandês Peter Jackson, no segundo
, mas com visões muito firmes e controle quase total
sobre seus projetos. Ambos dependiam ainda de um volume maciço
de produção e efeitos especiais pioneiros. Os caminhos
seguidos por cada um é que se mostraram muito diferentes.
Matrix, com seu tom pop e pós-moderno, parecia de
longe o projeto mais próximo do público atual. O
Senhor dos Anéis, que se encerra agora com O Retorno
do Rei, de pop não tem nada. Adaptado da obra do escritor
inglês J.R.R. Tolkien, é uma história de valentia
à moda antiga, com muitos cavaleiros e espadas, e sem nenhuma
ironia. O que se especulava é que o filme pregaria aos já
convertidos os fãs de Tolkien , mas não
faria muito mais fiéis além deles. O saldo dessas
duas trajetórias, porém, é curioso. Com a decepção
gerada pelo segundo e terceiro episódios, Matrix se
consagrou como o modelo de trilogia a evitar: vazio, gratuito e
mercantilista. O modelo a seguir é O Senhor dos Anéis:
coeso, audacioso sempre que se faz necessário (e só
quando se faz necessário) e vigorosamente centrado nos seus
personagens. Não há dúvida de que o que fez
a diferença, aqui, foi a integridade com que o diretor Peter
Jackson abordou a adaptação, além de sua capacidade
de liderança.
Divulgação
 |
| A
Batalha de Pelennor: 200 000 soldados em cena, boa parte deles
fruto de efeitos especiais |
De
acordo com todos os relatos, Jackson, de 42 anos, é incansável.
Em junho, quando VEJA passou uma semana no set, em Wellington, na
Nova Zelândia, ele pilotava as filmagens adicionais com o
elenco de O Retorno do Rei. Nesse último capítulo,
os hobbits Sam e Frodo (Sean Astin e Elijah Wood) cumprem a etapa
mais sofrida de sua peregrinação, a que leva ao vulcão
em que o anel forjado por Sauron, o senhor do mal, terá de
ser destruído. Ao mesmo tempo, Sauron reúne seus exércitos
para uma batalha final contra Aragorn (Viggo Mortensen), Gandalf
(Ian McKellen) e seus aliados. À medida que concluía
as cenas, Jackson editava o material rodado, corria com a pós-produção
(que iria até o fim de outubro) e já supervisionava
os primeiros desenhos de cenários e figurinos para a refilmagem
de King Kong que deverá lançar em 2005, e que
desde já gera muita expectativa. Em vez de atualizar a história,
o diretor decidiu ambientá-la no mesmo período em
que foi lançado o filme original o início da
década de 30. E, claro, vai rodá-lo na Nova Zelândia,
com sua equipe. Jackson, que é um doce-de-coco, mas tem fama
de ser também um negociador duro, vai ganhar pelo novo trabalho
o recorde, para um diretor, de 20 milhões de dólares,
a ser depois descontados de seus 20% sobre a bilheteria. Diante
da grita dos outros estúdios, a Universal argumenta que não
está pagando um salário, e sim um pacote completo:
da concepção à supervisão das cópias,
o diretor cuida de tudo. É só dar o dinheiro a ele
e ir jogar golfe. Jackson, aliás, gera seu próprio
calor, tanto que sua equipe garante nunca tê-lo visto de calças
compridas. Mesmo nas temperaturas congelantes dos Alpes do Sul neozelandeses,
que serviram de locação a algumas cenas da trilogia,
o diretor não se separou de suas bermudas "sempre
as mesmas", brinca o inglês McKellen.
Fotos divulgação
 |
lgação
 |
| Gollum,
do primeiro modelo em argila ao formato final: o primeiro grande
ator digital |
O feito
de Jackson vai além da trilogia. Com uma produção
de cinema apenas esporádica, a Nova Zelândia teve de
se reinventar para hospedar a produção de O Senhor
dos Anéis. Os móveis usados nos filmes, e hoje
guardados nos imensos armazéns no subúrbio de Miramar,
em Wellington, estão ainda em perfeito estado: na falta de
cenógrafos em número suficiente, eles foram confeccionados
por artesãos que vivem de fazer mobília de verdade.
O mesmo vale para os talheres dos elfos, ou as catapultas dos orcs,
ou ainda as roupas e adereços, todos inteiros após
anos de aproveitamento intenso: por não poder contar com
gente especializada no faz-de-conta, o diretor recorreu a profissionais
que não estão para brincadeira. Formou um time tão
grande e eficiente, e criou um clima de tal entusiasmo com o cinema,
que abriu um novo mercado. Hoje a Nova Zelândia não
produz apenas filmes como Encantadora de Baleias, um sucesso-surpresa
nos Estados Unidos e na última Mostra BR de Cinema, em São
Paulo e, claro, como o próprio Senhor dos Anéis,
cujos dois primeiros episódios acumulam uma renda de 1,8
bilhão de dólares. Graças à sua variedade
de paisagens, a essa nova oferta de mão-de-obra e aos incentivos
que o governo vem oferecendo, o país passou a sediar também
filmagens americanas de todos os calibres, de uma comédia
modesta com Burt Reynolds (Without a Paddle) a uma superprodução
com Tom Cruise (O Último Samurai).
Divulgação
 |
| A
maquete da cidade de Osgiliath: dez novos bebês no departamento
|
Essa
capacidade de improvisar é o orgulho dos neozelandeses, que
a chamam de "engenhosidade kiwi". Se ainda hoje a Nova Zelândia
é remota, no tempo da navegação a vela ela
era literalmente o fim do mundo. Qualquer encomenda feita à
Inglaterra demorava pelo menos seis meses para chegar. Como raramente
é prático esperar um semestre por um arado, ou uma
arma, os colonos se acostumaram a se virar sozinhos e o hábito
ficou. Para filmar cenários em miniatura, por exemplo, e
depois casá-los às cenas rodadas com os atores e aos
efeitos digitais, é preciso dispor de gruas robotizadas que
repitam um mesmo movimento de câmera quantas vezes seja necessário,
com precisão de milímetros, para que a justaposição
com os outros elementos fique perfeita. São aparatos imensos
e com custo de milhões de dólares. Dada a escala de
O Senhor dos Anéis, vários desses seriam precisos,
o que tornaria a despesa proibitiva. O time de Jackson coçou
a cabeça, foi atrás de bons engenheiros neozelandeses
e terminou por construir suas próprias gruas, com peças
de fundo de quintal. Custo: cerca de 20.000
dólares a unidade. Precisão: absoluta, diz, com um
brilho nos olhos, Alex Funke, o chefe da área. Em junho,
Funke ainda enfrentava um cronograma esmagador, de 200 novas tomadas
a ser completadas em trinta cenários diferentes. O trabalho
já vinha de tão longe que, desde o início de
O Senhor dos Anéis, dez bebês aumentaram as
famílias do departamento de miniaturas.
Divulgação
 |
| Miranda
Otto, a Lady Éowyn, com Mortensen: perucas de cabelo russo |
Qualquer
número que se refira a O Senhor dos Anéis é,
por definição, acachapante. A equipe técnica
chegou a empregar 2.400 pessoas ao mesmo
tempo, e recrutaram-se 26.000 figurantes.
Mais de 48.000 armas brancas foram confeccionadas,
além de quase 1.000 armaduras
e 300 perucas de cabelo natural, adquirido em Moscou, onde os preços
são mais convidativos. Isso sem contar os 15.000
trajes e os 25.000 objetos de cena, segundo
uma estimativa conservadora. Para a Batalha de Pelennor, a seqüência
mais dramática de O Retorno do Rei, foi preciso varrer
a Nova Zelândia em busca de 250 cavaleiros de primeira classe.
Como não havia homens que bastassem, colocaram-se várias
mulheres, em trajes masculinos, no meio da tropa. Isso, claro, sem
falar naquele número que poderia ter posto tudo a perder:
500 milhões. De dólares 300 milhões
investidos na produção do filme e 200 milhões
para custear a distribuição e o marketing. Se A
Sociedade do Anel tivesse sido um fracasso, ou um sucesso apenas
mediano, o estúdio New Line teria se tornado a bola da vez,
pela decisão intimorata de rodar três filmes de um
só golpe. Hoje, ao contrário, a New Line é
objeto de inveja, para a satisfação (e saúde)
do produtor Mark Ordesky, que bancou a aposta de Jackson junto ao
estúdio e no início do mês completou quase quatro
dezenas de viagens de ida e volta entre Wellington e Los Angeles.
Uma
produção que é um monstro de várias
cabeças e uma montanha de dinheiro em jogo: seriam justificativas
razoáveis para um set com temperatura e pressão equivalentes
às de um reator nuclear. Em Miramar, ao contrário,
reinava a paz, apesar da atividade e dos dias de trabalho que se
estendiam por dezoito horas. Nada de relações-públicas
tentando manter a imprensa confinada, ou de astros isolados em trailers
luxuosos. Meses antes do lançamento de cada filme, Peter
Jackson analisava sua primeira montagem atrás de furos ou
cenas que ainda deixavam a desejar, e reunia seu elenco para tomadas
adicionais. Todos voltavam à Nova Zelândia e agiam
segundo a moda da terra: com o máximo de bom humor e sem
stress. Dos atores principais aos puxadores de cabos, todos faziam
fila, à hora da refeição, para se servir dos
mesmos pratos e comer na mesma tenda improvisada, sem estrelismos.
De certa forma, é como se O Senhor dos Anéis
fosse o maior filme independente de todos os tempos. E Jackson,
ao que parece, encontrou a fórmula para um casamento feliz,
a julgar pelos seus planos para King Kong. Para que ele não
acabe em divórcio, o melhor é manter o clima de namoro,
com os donos do dinheiro numa casa, nos Estados Unidos, e o dono
do filme em outra na Oceania, a uma distância prudente
de 11.000 quilômetros.
Tudo
o que um épico quer ser
Divulgação
 |
| Wood,
como Frodo: a peregrinação chega ao fim |
Enumerar as falhas de O Retorno do Rei (The
Lord of the Rings The Return of the King, Nova
Zelândia/Estados Unidos, 2003) é, diante
dos acertos desse último capítulo da trilogia,
uma mesquinharia mas pode ajudar a entender suas
qualidades. Depois de uma abertura esplêndida,
na primeira hora o filme, que estréia no dia
25 no país, engasga aqui e ali e demora a engrenar.
Vários dos diálogos trazem ainda os vincos
do texto escrito. O filme se encerra um pouco depois
do necessário. E, embora tenha sido criada pelo
lingüista e escritor inglês J.R.R. Tolkien
entre as décadas de 30 e 50, a história
tem as limitações clássicas das
sagas de origem medieval, nas quais ele se inspirou:
o que se tem aqui é o bem contra o mal, sem zonas
cinzentas entre os dois extremos. O que é surpreendente,
entretanto, nesse terceiro filme como nos dois anteriores,
é que só haja problemas de ritmo na primeira
hora (são 200 minutos de projeção),
que tantos dos diálogos soem críveis
quando não emocionantes , que as diversas
histórias paralelas se equilibrem, e que se escape
do maniqueísmo e do tom triunfalista tão
comuns às sagas. A verdade é que, por
mais empolgante que possa ser no papel, a obra de Tolkien
é uma massa intratável, que derrotara
todas as tentativas de adaptação até
aqui. Que o diretor Peter Jackson não só
tenha feito jus às possibilidades que ela engendrava,
como seja capaz de entregar um filme que, em muitos
aspectos, supera sua fonte, é um feito admirável.
Mais ainda quando se lembra que O Senhor dos Anéis
é uma fantasia, um gênero que, como o próprio
diretor admite, está sempre a um pequeno passo
de descambar para o paródico. Não dar
esse passo, portanto, é outra conquista.
Jackson se mostra sempre no seu melhor nas passagens
sombrias e épicas, e há muitas dessas
em O Retorno do Rei, em que a própria
existência humana está em jogo. Se o hobbit
Frodo não destruir o anel de Sauron tarefa
que se torna cada vez mais penosa para ele , o
senhor das trevas vai triunfar. O mesmo acontecerá
se Aragorn, o rei do título, não assumir
plenamente seu posto de liderança. Da luta solitária
de Frodo, portanto, à colossal Batalha de Pelennor,
todos os personagens são colocados contra seus
limites uma contingência que mostra também
o valor do elenco escolhido por Jackson. Relutar sem
recuar, aceitar que não há vitória
sem perda ou mostrar coragem apesar do medo são
lugares-comuns desse tipo de ficção, que
poderiam cair facilmente no vazio sem atores como Viggo
Mortensen, Elijah Wood, Miranda Otto e Bernard Hill
para lhes dar corpo. O que o diretor põe em relevo,
no entanto, é menos a oposição
entre bem e mal, ou nós e eles, e mais um pensamento,
digamos, metafísico: o bem sabe do que o mal
é capaz, mas o mal é incapaz de compreender
o bem e imaginar que sacrifícios se podem fazer
em nome dele, e é essa a sua fraqueza. Nos momentos
em que, com a ajuda de seu elenco, da trilha sempre
soberba de Howard Shore e do seu instinto para criar
imagens arrebatadoras, Jackson consegue pôr essa
idéia em evidência, O Retorno do Rei
cresce para além dos limites do fantástico
e entra na categoria dos verdadeiros épicos.
|
|
|