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Especial
Onde
estão os empregados?
O
desemprego deixou de ser um
fenômeno ligado à estagnação. O
número de desempregados aumenta
até mesmo nos países que atravessam
uma fase de crescimento econômico
Divulgação
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FÁBRICAS
VAZIAS
Funcionários da GM em túnel de teste de aerodinâmicas:
os ganhos tecnológicos eliminaram 11% dos empregos industriais
na última década |
Em
sua fase de maior pujança, no fim do século XIX, a
indústria de carroças nos Estados Unidos empregava
120.000 pessoas. Ao tornar obsoleta a
tração animal, o advento do automóvel praticamente
dizimou esses postos e houve quem antevisse o caos. Felizmente,
aconteceu o contrário. O carro criou milhões de oportunidades
de trabalho. Além dos empregos nas montadoras, surgiram as
fábricas de autopeças, de estofamentos, de pneus e
os escritórios de design. Os países abriram, alargaram
e pavimentaram estradas. Milhares de empresas e centenas de cidades
floresceram mundo afora quando os caminhões permitiram a
distribuição dos produtos de forma rápida,
beneficiando um grande número de consumidores. O mercado
de trabalho se expandiu também quando entrou em cena o computador
para desespero dos que trabalhavam na indústria de
máquinas de escrever. Entre as décadas de 70 e 80,
38 milhões de postos de trabalho foram fechados na indústria
americana em conseqüência das mudanças tecnológicas.
Em compensação, 75 milhões de vagas foram criadas
em outras áreas. No Brasil, com os ganhos de produtividade
da década de 90, cerca de 2 milhões de empregos sumiram
da indústria, compensados pela criação de quase
5 milhões de vagas. Esse sistema pelo qual as vagas extintas
são repostas com vantagem parece dar sinais de cansaço.
Pela primeira vez, há indicações de que a economia
mundial começa a destruir empregos num ritmo mais intenso
do que é capaz de criar.
Reuters
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EXPORTAÇÃO
DE EMPREGOS
Call center de empresa americana funcionando em Bangalore, na
Índia: ameaça para 3 milhões de vagas nos
Estados Unidos |
Estudos
mais recentes divulgados pela Organização Internacional
do Trabalho chamam atenção para uma nova realidade
e falam na "redução drástica" do nível
de emprego nos próximos anos. Jeremy Rifkin, professor da
Wharton School, um dos papas do assunto, já trabalha na atualização
de seu livro O Fim dos Empregos, lançado em 1995.
Ele afirma que o desemprego mundial vai subir 15% até 2010.
Pesquisa realizada pela consultoria americana Alliance Capital Management
revelou que 22 milhões de vagas na indústria desapareceram
nos últimos sete anos nas vinte maiores economias do mundo.
O trabalho mostra que os cortes ocorreram numa fase em que o total
de empresas abertas nesses países aumentou 30%. Perceba:
mais fábricas, menos empregos. O Brasil registrou o maior
recuo entre os países analisados, com uma queda de 20% de
postos na indústria, seguido por Japão, China, Inglaterra
e Rússia. Quando se considera a economia brasileira como
um bloco, e não apenas o setor industrial, o cenário
não é menos preocupante. O número médio
de empregados nas companhias caiu 15% em comparação
com cinco anos atrás.
Segundo
um relatório da Organização para a Cooperação
e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade que reúne
estatísticas das nações mais ricas do mundo,
catorze dos dezenove países pesquisados registraram aumento
na taxa de desemprego no último ano. E isso não significa
que tais países estejam atravessando um período recessivo.
Na China, onde a economia cresce a um ritmo de 8% ao ano, o governo
advertiu que não há vagas para acomodar os jovens
que saem da faculdade. Nos Estados Unidos, onde o PIB cresceu 8,2%
no terceiro trimestre deste ano, calcula-se que 2 milhões
de pessoas estejam desempregadas há mais de seis meses. Metade
da força de trabalho já se vira por conta própria,
com pequenas empresas prestando serviços ou fazendo consultorias.
Nove em cada dez jovens que entram no mercado conseguem apenas trabalhos
na informalidade, boa parte deles temporários. O desemprego
parece ter estabelecido uma relação de convivência
amigável com o desenvolvimento.
No
Brasil, a transformação no mundo do emprego ainda
não vem sendo percebida com a mesma intensidade porque a
crise econômica acaba servindo de explicação
para todos os males. As próprias autoridades do governo encarregadas
de promover empregos dão mostras de que ainda se iludem com
uma possível reversão no quadro geral quando a economia
voltar a crescer. O presidente Lula e seus ministros já repetiram
algumas vezes que seu governo irá criar 10 milhões
de empregos. Como, ninguém ainda entendeu. Os especialistas
que mantêm o pé no chão acreditam que o ano
de 2004 funcionará como um choque de realidade. "Temos um
encontro marcado com a triste novidade que já assola diversos
países", diz o sociólogo José Pastore, um especialista
em trabalho. "Quando a economia se reativar, o desemprego vai cair
um pouco, claro, mas verificaremos que as empresas têm condições
de produzir ainda mais com menos gente."
Estudo
preparado pela Fundação Getúlio Vargas informa
que apenas na década de 1990 a produtividade cresceu 25%
nos diversos setores da economia brasileira. Quando se analisam
os setores mais vibrantes, colhem-se dados igualmente impressionantes.
Em 1980, a indústria automobilística tinha um empregado
para cada quinze carros que produzia. Hoje, mantém um a cada
100 veículos que fabrica. As companhias aéreas conseguem
transportar duas vezes mais passageiros do que há vinte anos
sem contratar um só empregado. No setor têxtil, um
empregado produzia 7 toneladas de tecido por ano em 1991. Atualmente,
produz 30 toneladas. O desafio das empresas é de vida ou
morte. As companhias que não aumentarem a produtividade quebrarão,
e o preço social será a demissão de todos os
empregados. Já as que aumentarem a produtividade poderão
prosperar. O preço será a demissão de uma parte
dos empregados. Vê-se que até mesmo a prosperidade
passa pela demissão. Alguns economistas acreditam que o processo
de redução de vagas se encontra apenas num estágio
inicial.
Além
de redução na oferta de vagas, o mundo do trabalho
vem sofrendo modificações qualitativas em diversas
frentes. A primeira envolve uma separação conceitual
entre emprego e trabalho. É mais fácil achar trabalho,
principalmente do tipo temporário, do que emprego formal,
com carteira assinada. Há quinze dias, o IBGE divulgou um
estudo mostrando que a taxa de desemprego referente a outubro nas
seis maiores regiões metropolitanas do país subiu
em comparação com o mesmo mês do ano passado.
Os levantamentos do IBGE mostram que a oferta de trabalho sem carteira
assinada cresceu mais que o emprego formal. Outra mudança
significativa indica que várias atividades de nível
médio já pagam mais do que profissões de nível
superior. Essa é uma das conclusões do documento "Trabalhando
no século XXI", preparado pelo governo americano. Um controlador
de tráfego aéreo, profissional cuja carreira exige
apenas o 2º grau, pode ganhar até 16.000
reais por mês, informa o estudo, mais do que muito engenheiro.
Há
outra modificação curiosa nesse processo de enxugamento
na oferta de emprego. Quando a globalização começou,
muitos críticos sustentavam que o fim das fronteiras comerciais
permitiria às empresas originárias dos países
mais ricos explorar as riquezas das nações mais pobres,
tornando-as ainda mais pobres. De cinco anos para cá, tem-se
verificado algo novo. Surgiu um fluxo de migração
de empregos dos países ricos rumo aos países mais
pobres. Um trabalho recente estimou que nos próximos dez
anos 3,3 milhões de empregos deverão ser eliminados
nos Estados Unidos e transferidos para uma nação em
desenvolvimento.
A
Nokia fechou uma fábrica de telefones celulares nos Estados
Unidos para abrir outra na Zona Franca de Manaus, e de lá
abastecer o mercado americano. O Massachusetts General Hospital,
um dos melhores hospitais americanos, contrata radiologistas sediados
na Índia para interpretar exames de ressonância magnética
realizados nos Estados Unidos. Sai mais barato. Nos EUA, há
uma corrente que defende no Congresso a idéia de obrigar
as empresas a produzir artigos que levem pelo menos 70% de mão-de-obra
americana. Na União Européia, onde a revoada de empregos
rumo ao Terceiro Mundo também foi detectada, fala-se em criar
leis que contenham a migração dos empregos. Nessa
guerra, a Índia vem se dando bem porque o custo da mão-de-obra
pesa pouco no preço final do produto. Não é
o caso do Brasil. Embora ofereça aos investidores um dos
salários mais competitivos do mundo, o país convive
com uma legislação trabalhista do tempo das carroças.
Em decorrência de uma série de exigências legais,
um emprego com carteira assinada no Brasil custa ao patrão
um segundo salário e muitas vezes acaba rendendo uma ação
na Justiça com ganho de causa quase certo para o empregado.
No Brasil, o patrão nunca tem razão.
Com
reportagem de Monica
Weinberg
e Sandra Brasil
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