Edição 1833 . 17 de dezembro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Especial
Onde estão os empregados?

O desemprego deixou de ser um
fenômeno ligado à estagnação. O
número de desempregados aumenta
até mesmo nos países que atravessam
uma fase de crescimento econômico


Divulgação
FÁBRICAS VAZIAS
Funcionários da GM em túnel de teste de aerodinâmicas: os ganhos tecnológicos eliminaram 11% dos empregos industriais na última década

Em sua fase de maior pujança, no fim do século XIX, a indústria de carroças nos Estados Unidos empregava 120.000 pessoas. Ao tornar obsoleta a tração animal, o advento do automóvel praticamente dizimou esses postos e houve quem antevisse o caos. Felizmente, aconteceu o contrário. O carro criou milhões de oportunidades de trabalho. Além dos empregos nas montadoras, surgiram as fábricas de autopeças, de estofamentos, de pneus e os escritórios de design. Os países abriram, alargaram e pavimentaram estradas. Milhares de empresas e centenas de cidades floresceram mundo afora quando os caminhões permitiram a distribuição dos produtos de forma rápida, beneficiando um grande número de consumidores. O mercado de trabalho se expandiu também quando entrou em cena o computador – para desespero dos que trabalhavam na indústria de máquinas de escrever. Entre as décadas de 70 e 80, 38 milhões de postos de trabalho foram fechados na indústria americana em conseqüência das mudanças tecnológicas. Em compensação, 75 milhões de vagas foram criadas em outras áreas. No Brasil, com os ganhos de produtividade da década de 90, cerca de 2 milhões de empregos sumiram da indústria, compensados pela criação de quase 5 milhões de vagas. Esse sistema pelo qual as vagas extintas são repostas com vantagem parece dar sinais de cansaço. Pela primeira vez, há indicações de que a economia mundial começa a destruir empregos num ritmo mais intenso do que é capaz de criar.


Reuters
EXPORTAÇÃO DE EMPREGOS
Call center de empresa americana funcionando em Bangalore, na Índia: ameaça para 3 milhões de vagas nos Estados Unidos

Estudos mais recentes divulgados pela Organização Internacional do Trabalho chamam atenção para uma nova realidade e falam na "redução drástica" do nível de emprego nos próximos anos. Jeremy Rifkin, professor da Wharton School, um dos papas do assunto, já trabalha na atualização de seu livro O Fim dos Empregos, lançado em 1995. Ele afirma que o desemprego mundial vai subir 15% até 2010. Pesquisa realizada pela consultoria americana Alliance Capital Management revelou que 22 milhões de vagas na indústria desapareceram nos últimos sete anos nas vinte maiores economias do mundo. O trabalho mostra que os cortes ocorreram numa fase em que o total de empresas abertas nesses países aumentou 30%. Perceba: mais fábricas, menos empregos. O Brasil registrou o maior recuo entre os países analisados, com uma queda de 20% de postos na indústria, seguido por Japão, China, Inglaterra e Rússia. Quando se considera a economia brasileira como um bloco, e não apenas o setor industrial, o cenário não é menos preocupante. O número médio de empregados nas companhias caiu 15% em comparação com cinco anos atrás.

Segundo um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade que reúne estatísticas das nações mais ricas do mundo, catorze dos dezenove países pesquisados registraram aumento na taxa de desemprego no último ano. E isso não significa que tais países estejam atravessando um período recessivo. Na China, onde a economia cresce a um ritmo de 8% ao ano, o governo advertiu que não há vagas para acomodar os jovens que saem da faculdade. Nos Estados Unidos, onde o PIB cresceu 8,2% no terceiro trimestre deste ano, calcula-se que 2 milhões de pessoas estejam desempregadas há mais de seis meses. Metade da força de trabalho já se vira por conta própria, com pequenas empresas prestando serviços ou fazendo consultorias. Nove em cada dez jovens que entram no mercado conseguem apenas trabalhos na informalidade, boa parte deles temporários. O desemprego parece ter estabelecido uma relação de convivência amigável com o desenvolvimento.

No Brasil, a transformação no mundo do emprego ainda não vem sendo percebida com a mesma intensidade porque a crise econômica acaba servindo de explicação para todos os males. As próprias autoridades do governo encarregadas de promover empregos dão mostras de que ainda se iludem com uma possível reversão no quadro geral quando a economia voltar a crescer. O presidente Lula e seus ministros já repetiram algumas vezes que seu governo irá criar 10 milhões de empregos. Como, ninguém ainda entendeu. Os especialistas que mantêm o pé no chão acreditam que o ano de 2004 funcionará como um choque de realidade. "Temos um encontro marcado com a triste novidade que já assola diversos países", diz o sociólogo José Pastore, um especialista em trabalho. "Quando a economia se reativar, o desemprego vai cair um pouco, claro, mas verificaremos que as empresas têm condições de produzir ainda mais com menos gente."

Estudo preparado pela Fundação Getúlio Vargas informa que apenas na década de 1990 a produtividade cresceu 25% nos diversos setores da economia brasileira. Quando se analisam os setores mais vibrantes, colhem-se dados igualmente impressionantes. Em 1980, a indústria automobilística tinha um empregado para cada quinze carros que produzia. Hoje, mantém um a cada 100 veículos que fabrica. As companhias aéreas conseguem transportar duas vezes mais passageiros do que há vinte anos sem contratar um só empregado. No setor têxtil, um empregado produzia 7 toneladas de tecido por ano em 1991. Atualmente, produz 30 toneladas. O desafio das empresas é de vida ou morte. As companhias que não aumentarem a produtividade quebrarão, e o preço social será a demissão de todos os empregados. Já as que aumentarem a produtividade poderão prosperar. O preço será a demissão de uma parte dos empregados. Vê-se que até mesmo a prosperidade passa pela demissão. Alguns economistas acreditam que o processo de redução de vagas se encontra apenas num estágio inicial.

Além de redução na oferta de vagas, o mundo do trabalho vem sofrendo modificações qualitativas em diversas frentes. A primeira envolve uma separação conceitual entre emprego e trabalho. É mais fácil achar trabalho, principalmente do tipo temporário, do que emprego formal, com carteira assinada. Há quinze dias, o IBGE divulgou um estudo mostrando que a taxa de desemprego referente a outubro nas seis maiores regiões metropolitanas do país subiu em comparação com o mesmo mês do ano passado. Os levantamentos do IBGE mostram que a oferta de trabalho sem carteira assinada cresceu mais que o emprego formal. Outra mudança significativa indica que várias atividades de nível médio já pagam mais do que profissões de nível superior. Essa é uma das conclusões do documento "Trabalhando no século XXI", preparado pelo governo americano. Um controlador de tráfego aéreo, profissional cuja carreira exige apenas o 2º grau, pode ganhar até 16.000 reais por mês, informa o estudo, mais do que muito engenheiro.

Há outra modificação curiosa nesse processo de enxugamento na oferta de emprego. Quando a globalização começou, muitos críticos sustentavam que o fim das fronteiras comerciais permitiria às empresas originárias dos países mais ricos explorar as riquezas das nações mais pobres, tornando-as ainda mais pobres. De cinco anos para cá, tem-se verificado algo novo. Surgiu um fluxo de migração de empregos dos países ricos rumo aos países mais pobres. Um trabalho recente estimou que nos próximos dez anos 3,3 milhões de empregos deverão ser eliminados nos Estados Unidos e transferidos para uma nação em desenvolvimento.

A Nokia fechou uma fábrica de telefones celulares nos Estados Unidos para abrir outra na Zona Franca de Manaus, e de lá abastecer o mercado americano. O Massachusetts General Hospital, um dos melhores hospitais americanos, contrata radiologistas sediados na Índia para interpretar exames de ressonância magnética realizados nos Estados Unidos. Sai mais barato. Nos EUA, há uma corrente que defende no Congresso a idéia de obrigar as empresas a produzir artigos que levem pelo menos 70% de mão-de-obra americana. Na União Européia, onde a revoada de empregos rumo ao Terceiro Mundo também foi detectada, fala-se em criar leis que contenham a migração dos empregos. Nessa guerra, a Índia vem se dando bem porque o custo da mão-de-obra pesa pouco no preço final do produto. Não é o caso do Brasil. Embora ofereça aos investidores um dos salários mais competitivos do mundo, o país convive com uma legislação trabalhista do tempo das carroças. Em decorrência de uma série de exigências legais, um emprego com carteira assinada no Brasil custa ao patrão um segundo salário e muitas vezes acaba rendendo uma ação na Justiça – com ganho de causa quase certo para o empregado. No Brasil, o patrão nunca tem razão.

 

Com reportagem de Monica Weinberg
e Sandra Brasil



 
 
 
 
topo voltar