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Cervejas
A
real guerra das cervejas
A
AmBev tem o pior ano desde sua criação,
em 1999, e acusa a concorrente Schincariol
de sonegação

Leandra
Peres
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"Nós
da AmBev e a Molson tínhamos juntos, em 2002, 81% do
mercado e pagamos 94% do total do imposto de cerveja efetivamente
arrecadado. Portanto, outros estão sonegando. As autoridades
deveriam investigar a Schincariol e outros fabricantes para
acabar com a sonegação."
Miguel Patrício, diretor de marketing
da AmBev |
"A
AmBev quer nos prejudicar. Nunca perdemos um processo. Cinco
das nossas fábricas recebem incentivos de governos. Não
conseguiríamos isso se tivéssemos pendências
tributárias."
Adriano Schincariol, diretor de marketing da
Schincariol |
A batalha
de gritos ("Experimenta!, Experimenta!") e silêncios ("Faça
o teste surdo") a que se assiste na televisão todos os dias
é apenas a parte mais visível da guerra que divide
os maiores fabricantes de cerveja do Brasil. O verdadeiro combate
entre a Schincariol, fabricante da Nova Schin, a que grita, e a
AmBev, que pede silêncio, dona das marcas Skol, Brahma e Antarctica,
está sendo travado longe do público. As armas são
dossiês, gravações, certidões com desmentidos
das gravações e investigações feitas
por empresas privadas. Na semana passada, pela primeira vez, a AmBev
explicitou sua maior queixa a respeito da concorrente Schincariol,
a quem acusa de financiar sua milionária campanha publicitária
em parte com dinheiro que deveria estar usando para pagar impostos.
"Enfrentamos concorrência desleal, pois os números
da Schincariol não batem. Pelos dados que eles próprios
divulgam na imprensa, o negócio deles é insustentável
financeiramente. A não ser que fabriquem dinheiro, só
podem estar sonegando", diz Miguel Patrício, diretor de marketing
da AmBev. Responde Adriano Schincariol, diretor de marketing da
Schincariol: "Passamos pela mesma fiscalização a que
se submetem todos os nossos concorrentes. A AmBev quer nos prejudicar,
mas não vamos entrar nesse tipo de disputa. Vamos brigar
como sabemos, com marketing e bons produtos".
A
gota de água dessa guerra foi uma brilhante campanha de propaganda
feita para a Nova Schin pelo publicitário paulista Eduardo
Fischer. Em noventa dias, ao custo estimado de 80 milhões
de reais, Fischer conseguiu elevar a participação
de mercado da Schincariol de 10,1% para 14,1%, segundo dados da
ACNielsen. O salto é estrondoso. Cada 1% no mercado de cerveja
do Brasil vale 80 milhões de reais em faturamento. Descontados
custos e impostos, esse 1% significa que o fabricante coloca limpo
no caixa 26 milhões de reais. A Nova Schin ganhou 4 pontos
em três meses. Como o mercado brasileiro está estagnado,
cada caixa de cerveja vendida por uma marca significa que o concorrente
deixou de vender uma caixa. "Perdemos espaço em 2003 e agora
nos resta trabalhar e voltar aos 70% de mercado que tínhamos
antes", diz Carlos Britto, o executivo da AmBev que ocupará
o primeiro posto da empresa no próximo ano. A AmBev e os
publicitários que a atendem não discutem os números
da Nielsen nem a qualidade da campanha de Fischer. A contestação
que eles fazem é de outra ordem. Para a AmBev, as razões
do sucesso da concorrente devem ser buscadas em outros números,
os que a Schincariol divulga em reportagens na imprensa.
Nesses
números, a AmBev enxerga um negócio que não
é sustentável. "A Schincariol está deficitária
há anos e não admite nenhuma alavancagem de empréstimo
a não ser 170 milhões de reais tomados ao Finame.
Como gastou 120 milhões de reais em marketing neste ano e
está prevendo gastar mais 140 milhões em 2004, a pergunta
de onde está saindo o dinheiro para pagar tudo isso não
é leviana", diz Ricardo Mello, gerente de marketing da AmBev.
Mello reforça seu raciocínio com mais uma argumentação:
"A Schincariol dá desconto de 30% nas garrafas de 600 mililitros
retornáveis, que representam, de longe, o segmento mais lucrativo
do mercado de cervejas. Oito de cada 10 reais de faturamento vêm
das garrafas de 600 mililitros. O desconto mais a margem que fica
com os distribuidores anula os ganhos deles nesse mercado". Confrontada
com a análise feita pela AmBev, a Schincariol responde a
VEJA, por escrito: "Isso é totalmente improcedente. A apuração
de prejuízos nem sempre resulta em geração
negativa de caixa. Depreciação, amortização
de despesas de exercícios anteriores influem de forma significativa
nos resultados e não representam saídas de caixa".
Em entrevista, Adriano Schincariol informa que em 2003 o caixa da
empresa foi menos pressionado com a diminuição dos
pagamentos de dívida em moeda estrangeira pela valorização
do real e conclui: "Já em 2003 os resultados serão
positivos, mesmo com o elevado investimento em marketing".
Com
o mercado estagnado, o custo altíssimo das campanhas de publicidade,
a concorrência acirrada e pagando os juros reais mais altos
do mundo, os fabricantes de cerveja simplesmente não podem
sobreviver em um ambiente tisnado por sonegação. Do
preço de uma garrafa de cerveja, 33% são impostos.
Uma cervejaria que sonegue integralmente esse valor tem uma vantagem
competitiva sobre as demais que nem mesmo o gigantismo de uma ou
a excelência do produto de outra são capazes de anular.
"Esse é um setor que requer acompanhamento constante. Já
detectamos irregularidades de muitos tipos em várias empresas",
disse a VEJA Jorge Rachid, secretário da Receita Federal.
O Brasil é o quarto maior produtor do mundo e cada brasileiro
bebe por ano 48 litros de cerveja, o que coloca o país entre
os dez maiores consumidores. A partir de 2004, numa medida apoiada
por todas as grandes marcas, a Receita Federal exigirá dos
fabricantes de cerveja a instalação de um equipamento
lacrado que mede a quantidade de bebida produzida em cada fábrica,
tornando a sonegação uma operação mais
difícil.
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