Edição 1833 . 17 de dezembro de 2003

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Perfil
O peso de não ser Guga

Maior promessa do tênis nos anos 80,
Marcelo Saliola cobra para contar
como fracassou na carreira


Daniela Pinheiro

 
Renata Ursaia

AS FASES DE SALIOLA
Hoje (acima), em uma das quadras em que dá aula; posando com os troféus meses antes de desistir da profissão (abaixo, à esq.); e brilhando como o mais novo da ATP: ele culpa a família por seu desânimo com a carreira

Carol do Valle
Jota Carvalho

Em 1988, quando tinha apenas 14 anos, o tenista Marcelo Saliola quebrou um recorde mundial. Tornou-se o mais jovem jogador do mundo a figurar no ranking da célebre ATP – Associação dos Tenistas Profissionais. A façanha foi parar no Guinness Book. Até hoje não foi superada. No mesmo ano, Saliola venceu torneios como o Orange Bowl e o Port Washington, feitos até então inéditos para um atleta brasileiro. Com resultados brilhantes e um talento indiscutível, Saliola era a mais auspiciosa promessa do tênis brasileiro. Especialistas o consideravam tão genial quanto o americano Jimmy Connors, o número 1 do mundo nos anos 70. Seu estilo agressivo de jogo era comparado ao de Andre Agassi. Seu prestígio era tamanho que a indústria Rainha o contratou como garoto-propaganda de uma linha de tênis. Mesmo com tudo a favor, tudo deu errado. Na semana passada, "Saliolinha do Brasil", como era chamado, falava para uma tímida platéia em uma academia de São Paulo. Aos 29 anos, ele discorria sobre a dura rotina de treinamentos, a insuportável pressão paterna e a atração por noitadas e garotas, fatores que o levaram a abandonar a carreira no auge. "Parei por razões psicológicas e emocionais. O tênis tinha se tornado uma tortura, um massacre, a pior coisa da minha vida. Eu quase pirei", afirma.

Saliola, hoje um professor particular de tênis, passou a cobrar para falar de seu fracasso profissional. Em palestras que duram duas horas, e custam cerca de 3 000 reais, ele explica – com uma lucidez impressionante – os episódios que o levaram a largar tudo. Saliola não se envergonha de revelar, por exemplo, que teve de passar por três anos de sessões de psiquiatria para se livrar de traumas adquiridos na adolescência. "Eu era um menino e rodava o mundo em competições. Era eu e eu", lembra. Até hoje, ele não consegue viajar sozinho nem dormir de luz apagada. Mas nada é tão contundente em seu depoimento quanto o momento reservado ao pai, morto há dez anos, a quem chama de maior incentivador e "enterrador" de sua carreira. "Meu pai era um jogador de basquete frustrado. Ele transferiu toda aquela insatisfação para mim. Se eu errasse uma bola, ele me xingava. Se fechasse um set, ele urrava de felicidade. Era uma tortura psicológica", lembra.

A palestra tem vários momentos perturbadores. É possível sentir certo constrangimento ao ver Saliola ser comparado a seus amigos o tempo todo. Por onde vá, ele tem de engolir a indefectível pergunta: "Por que você não virou um Guga?" Sua resposta aos ouvintes é: "Não estava no meu sangue". Apesar de ter passado dos 6 aos 17 anos nas quadras, ter largado a escola só para treinar, ele acredita que o fazia por hábito, e não por vocação. "Se você não tem o empenho, não vai para a frente. Para mim, era muito fácil, então eu era levado por osmose", diz. Enquanto a maioria dos atletas segue uma vida quase monástica, Saliola não admitia controle. "Durante a temporada, a gente ia dormir às 10 da noite. Ele nunca chegava antes das 2 da manhã. Era só com a mulherada", lembra o amigo Fernando Meligeni. Certa vez, Saliola quebrou um telefone em sua casa depois que o treinador não permitiu que ele fosse a um churrasco de escola, já que estavam a dez dias de um torneio. "Todo mundo só pensa na parte bela do tênis: o jogador beijando um cheque de 250 000 dólares. Mas isso é a cena rara. A cena comum é uma vida de privações, de momentos solitários e de total desapego pela família e pelos amigos. Ele não agüentava isso", diz o técnico Marcelo Meyer, que treinou Saliola por oito anos, além de Cássio Motta e Meligeni. Quem o acompanhou afirma que Saliola também teria sofrido uma "síndrome de Romário". "Ele falava: 'Por que vou treinar tanto se boto a bola onde quero?' E realmente o fazia", lembra a psicóloga esportiva Regina Brandão, que acompanhou a seleção pentacampeã de futebol e o assistiu nos últimos dois anos da carreira. A alta confiança o fazia desprezar treinos e horários. "Ele treinava transtornado. Havia uma tremenda pressão da família", diz ela.

Um dia, a casa caiu. Regina afirma que, depois de um torneio em Brasília, no qual derrotou Emilio Sanchez, que era o 12º jogador do mundo, ele saiu gritando: "Se pisar de novo numa quadra de tênis, eu vomito". A pior parte foi contar ao pai. Saliola saiu de casa e ambos ficaram uma semana sem se falar. "Foi uma catarse. Eu tinha de romper com tudo", diz. No dia seguinte, não tinha o que fazer da vida. "Eu passava o dia vendo desenho animado e à noite ia para bares e boates. Foram seis meses assim." Os estimados 100.000 dólares (naquela época, os valores pagos no esporte eram de outra grandeza) que havia ganho durante a carreira foram gastos parcimoniosamente nos anos seguintes. "Nem me lembro com o quê", afirma. Nesse meio tempo, foi dar aulas particulares em um grande clube. Mas manteve o hábito de não jogar. O sucesso dos amigos ele acompanha a distância. "São poucos os momentos em que senti uma certa inveja. Eles venceram porque suportaram todas as pressões. É isso que faz um atleta completo. Não basta ter talento, como eu tinha. É talvez mais importante ter sangue de barata", diz. Há dois anos, arrendou duas quadras, nas quais orienta cinqüenta alunos. "Se me dessem 1 milhão de dólares não voltaria. Ninguém nunca me perguntou se eu queria jogar tênis na vida."

 
 
 
 
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