Edição 1833 . 17 de dezembro de 2003

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História
As vítimas do outro lado

Livro com imagens da morte
causada pelos ataques dos
aliados na Alemanha causa polêmica


Fotos Jörg Friedrich
Mortos e feridos: bombardeios ingleses e americanos mataram cerca de 600 000 civis durante a II Guerra

Galeria de fotos

O historiador alemão Jörg Friedrich provocou uma grande polêmica no ano passado com a publicação de O Incêndio – A Alemanha sob Bombardeio, livro em que narrava o sofrimento dos alemães sob o fogo aéreo aliado na II Guerra Mundial. Sua nova obra, Brandstätten (Lugares em Chamas), volta ao mesmo assunto. Desta vez, são texto e fotos chocantes de civis alemães mortos ou feridos em 240 páginas. As imagens mostram corpos de mulheres e crianças carbonizadas pelo efeito das bombas incendiárias, soldados alemães empilhando mortos e integrantes da juventude nazista recolhendo cadáveres de bebês nas ruas de Colônia. Somente nos últimos meses da guerra, cerca de 130.000 civis alemães foram mortos. A média chegou a ser de 1.000 pessoas por dia. O livro de fotos não deixa de ser uma continuação do anterior. Em O Incêndio – A Alemanha sob Bombardeio, Friedrich descreveu os bombardeios com base em depoimentos dos sobreviventes e questionou se a decisão do primeiro-ministro inglês da época, Winston Churchill, de destruir cidades alemãs sem alvos militares não deveria ser considerada um crime de guerra. O livro vendeu mais de 186.000 cópias e transformou-se num best-seller na Alemanha.

As fotos de Brandstätten mostram o sofrimento dos civis perdedores da II Guerra. Friedrich é um pesquisador respeitado, que já escreveu sobre os crimes do Exército nazista na Rússia e sobre o julgamento de ex-comandantes de Hitler. Para ele, a guerra dos aliados contra a Alemanha foi justa, o injusto foram os meios. O historiador não concorda com a tese, amplamente aceita até os dias de hoje, de que a destruição de diversas cidades alemãs foi conseqüência inevitável dos crimes cometidos por Hitler. "Mostrar o sofrimento dos civis alemães é um ato contra a guerra e, ao mesmo tempo, uma revisão da história. Ela não visa a negar a responsabilidade dos nazistas nem a diminuir o horror do massacre dos judeus", diz Friedrich.

A reação da imprensa alemã foi feroz. O diário Sueddeutsche Zeitung recomendou que o livro fosse jogado no lixo e acusou Friedrich de dar contornos estéticos a um evento histórico horrível. Outro jornal, o Die Zeit, publicou um artigo dizendo que o historiador alemão estava tentando fazer um paralelo não explícito entre as vítimas alemãs e os judeus mortos em campos de concentração e classificou a teoria de Friedrich como uma "hipótese problemática nos dias atuais". A destruição das cidades alemãs foi executada pelos comandantes das forças inglesas e americanas como uma estratégia para reduzir o apoio da população civil alemã a Hitler. Em cinco anos, os ataques aliados destruíram quase totalmente Dresden. Outras cidades tiveram de 70% a 80% de suas casas e prédios destruídos.

Os ataques aéreos alemães antes e durante a II Guerra estão bem documentados. Na Guerra Civil Espanhola, entre 1936 e 1939, os alemães, que apoiavam o golpista Francisco Franco, dizimaram a cidade de Guernica, na região do País Basco. A desculpa para o ataque aéreo, o primeiro contra uma população civil indefesa, era a existência de uma ponte que estaria sendo usada pelo inimigo. Depois de horas de bombardeio, uma das únicas construções que restaram de pé na cidade que inspirou Picasso a pintar os horrores da guerra era justamente a tal ponte. As cidades inglesas e soviéticas também sentiram o poder da Força Aérea nazista. Em agosto de 1942, 1 200 aviões alemães mataram 40 000 pessoas em Stalingrado. Em Londres, museus relembram os ataques no meio da noite. Para Friedrich, quanto mais se mostrar o sofrimento provocado pelas guerras, seja de que lado for, mais crescerá entre as pessoas o apreço pela paz.

 
 
 
 
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