Edição 1833 . 17 de dezembro de 2003

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Vinhos
"Bom e muito, muito bom"

Pesquisador busca a origem
do vinho e conta que os antigos
egípcios já classificavam a bebida

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Que o vinho tenha sido inventado antes da escrita e do arado, há 7.500 anos, diz alguma coisa sobre a humanidade? O filósofo francês Gaston Bachelard acha que sim. Ele escreveu que essa é mais uma das inúmeras provas de que a humanidade evoluiu movida mais pelo desejo que pela necessidade. Recentemente, o pesquisador americano Patrick McGovern, da Universidade da Pensilvânia, conseguiu reproduzir em laboratório uma mistura alcoólica que, segundo ele, serviu para embriagar os convivas que participaram no ano 700 antes de Cristo da cerimônia fúnebre em homenagem ao rei Midas, da Frígia, reino que ocupou uma região central onde hoje fica a Turquia. Parte do trabalho de McGovern, um arqueólogo molecular, consiste em recolher amostras microscópicas de restos de vinhos e uvas que resistiram aos milênios no interior de ânforas antigas. Com a mínima quantidade de material genético preservado, o cientista identifica a composição do líquido que esteve na ânfora e, no laboratório, refaz a mistura. "A bebida que embalou o enterro do rei Midas era adorável. Era uma mistura de vinho, cerveja e mel fermentado com água", diz McGovern, autor de um livro recente sobre a história da nobre bebida de uvas fermentadas. O livro se chama em inglês Ancient Wine: the Search for the Origins of Viniculture (Vinhos Antigos: a Busca das Origens da Vinicultura).

A ambição maior de McGovern é descobrir onde e quando foi feito o primeiro vinho. É um mistério de difícil solução. Ele acredita que a primeira incursão do homem na vinicultura só pode ter começado depois da Idade do Gelo, quando as duras condições de existência e a ausência de caça obrigaram a humanidade a se organizar em grupos maiores que os clãs, com regras rígidas de convivência e, claro, com sua economia baseada na agricultura. Por esses critérios, conclui ele, o vinho não pode ter mais de 10.000 anos. "Muito provavelmente diversos grupos humanos em diferentes regiões descobriram independentemente o processo de domesticação e fermentação da uva", escreveu McGovern. A razão é simples. A fermentação pode ocorrer em situações naturais, sem a ação humana. Algumas leveduras são introduzidas em uvas por vespas e outras pragas e, pronto, o conteúdo da uva se torna alcoólico. "Por tentativa e erro, as populações antigas acabaram por descobrir uma maneira de controlar o processo e reproduzi-lo em alta escala", diz o cientista.

Uma vez dominado o processo, o vinho se tornou uma bebida requisitada e tão valiosa quanto o azeite nas transações entre os povos das primeiras civilizações. Para os egípcios, há 5.000 anos, o vinho ocupava lugar superior ao da cerveja entre as bebidas alcoólicas. As ânforas de argila recebiam rótulos em que os fornecedores dos faraós classificavam os vinhos por sua origem e qualidade usando termos como "bom" e "muito, muito bom".

 

 

 
Foto AFP
 
 
 
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