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Vinhos
"Bom
e muito, muito bom"
Pesquisador busca a origem
do vinho e conta que os antigos
egípcios já classificavam a bebida
Que
o vinho tenha sido inventado antes da escrita e do arado, há
7.500 anos, diz alguma coisa sobre a humanidade? O filósofo
francês Gaston Bachelard acha que sim. Ele escreveu que essa
é mais uma das inúmeras provas de que a humanidade
evoluiu movida mais pelo desejo que pela necessidade. Recentemente,
o pesquisador americano Patrick McGovern, da Universidade da Pensilvânia,
conseguiu reproduzir em laboratório uma mistura alcoólica
que, segundo ele, serviu para embriagar os convivas que participaram
no ano 700 antes de Cristo da cerimônia fúnebre em
homenagem ao rei Midas, da Frígia, reino que ocupou uma região
central onde hoje fica a Turquia. Parte do trabalho de McGovern,
um arqueólogo molecular, consiste em recolher amostras microscópicas
de restos de vinhos e uvas que resistiram aos milênios no
interior de ânforas antigas. Com a mínima quantidade
de material genético preservado, o cientista identifica a
composição do líquido que esteve na ânfora
e, no laboratório, refaz a mistura. "A bebida que embalou
o enterro do rei Midas era adorável. Era uma mistura de vinho,
cerveja e mel fermentado com água", diz McGovern, autor de
um livro recente sobre a história da nobre bebida de uvas
fermentadas. O livro se chama em inglês Ancient Wine: the
Search for the Origins of Viniculture (Vinhos Antigos: a Busca
das Origens da Vinicultura).
A ambição maior de McGovern é descobrir onde
e quando foi feito o primeiro vinho. É um mistério
de difícil solução. Ele acredita que a primeira
incursão do homem na vinicultura só pode ter começado
depois da Idade do Gelo, quando as duras condições
de existência e a ausência de caça obrigaram
a humanidade a se organizar em grupos maiores que os clãs,
com regras rígidas de convivência e, claro, com sua
economia baseada na agricultura. Por esses critérios, conclui
ele, o vinho não pode ter mais de 10.000 anos. "Muito provavelmente
diversos grupos humanos em diferentes regiões descobriram
independentemente o processo de domesticação e fermentação
da uva", escreveu McGovern. A razão é simples. A fermentação
pode ocorrer em situações naturais, sem a ação
humana. Algumas leveduras são introduzidas em uvas por vespas
e outras pragas e, pronto, o conteúdo da uva se torna alcoólico.
"Por tentativa e erro, as populações antigas acabaram
por descobrir uma maneira de controlar o processo e reproduzi-lo
em alta escala", diz o cientista.
Uma vez dominado o processo, o vinho se tornou uma bebida requisitada
e tão valiosa quanto o azeite nas transações
entre os povos das primeiras civilizações. Para os
egípcios, há 5.000 anos, o vinho ocupava lugar superior
ao da cerveja entre as bebidas alcoólicas. As ânforas
de argila recebiam rótulos em que os fornecedores dos faraós
classificavam os vinhos por sua origem e qualidade usando termos
como "bom" e "muito, muito bom".
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