|
|
Religião
Um
santo negócio
O Brasil já é o maior produtor
mundial
de Bíblias. Há versões
do
livro para cada tipo de fiel

Marcelo
Marthe
Desde a invenção da imprensa por Gutenberg, por volta
de 1440, a Bíblia mantém-se inabalável
no posto de maior best-seller da história. E o Brasil tem
dado uma contribuição significativa para que essa
situação se mantenha. Segundo a Câmara Brasileira
do Livro, em 2002 as editoras nacionais imprimiram nada menos do
que 8,6 milhões de Bíblias e faturaram 95 milhões
de reais com sua venda. Os números fazem do país o
campeão mundial nessa área. A principal razão
desse desempenho é o avanço das crenças evangélicas,
cujo total de adeptos passou de 13 milhões de pessoas em
1991 a 26 milhões em 2000, de acordo com o Censo. Como essas
religiões estimulam a leitura da Bíblia e seu
uso nos cultos, não é de estranhar que as editoras
evangélicas hoje sejam responsáveis por 57% desse
mercado. Entre as editoras católicas, que respondem pelos
43% restantes, a procura pelo livro sagrado também tem aumentado
graças, em especial, ao movimento da Renovação
Carismática, que incentiva a utilização da
Bíblia em suas missas festivas. O crescimento da demanda
faz com que surjam cada vez mais opções para os fiéis:
encontram-se atualmente no país doze traduções
diferentes das Escrituras, que se desdobram em 335 versões
para as mais variadas necessidades (veja
quadro).
Giselle Rocha
 |
| O
Museu da Bíblia, em Barueri: exportação
até para o Egito e a Nigéria |
A
maior usina de impressão da obra no país é
a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), instituição
sem fins lucrativos que integra uma rede internacional devotada
à difusão das Escrituras. Ligada a igrejas evangélicas,
ela é responsável por quase metade da produção
nacional de Bíblias e é a maior dentre todas
as suas congêneres, que estão presentes em mais de
200 países (a segunda no ranking é a Sociedade Bíblica
dos Estados Unidos). Sua gráfica, instalada em Barueri, na
Grande São Paulo, imprime dez exemplares da Bíblia
por minuto. Além de atender à demanda interna, a SBB
se dedica à exportação: no ano passado, remeteu
para o exterior 2 milhões de cópias do livro em catorze
línguas, incluindo uma edição em ioruba para
a Nigéria e outra em árabe, para o Egito. Na semana
passada, a instituição inaugurou um museu dedicado
à história da Bíblia e suas traduções
ao longo dos séculos. No universo católico, não
existe nenhuma instituição comparável à
SBB. As maiores editoras de Bíblias são a Ave-Maria
e a Paulus.
A SBB edita a Bíblia mais popular do país.
Trata-se de uma tradução clássica no meio protestante,
feita pelo religioso português João Ferreira de Almeida
no século XVII. Em suas várias versões, ela
vendeu 3,1 milhões de exemplares no ano passado. A segunda
Bíblia mais comercializada do país é
a católica Ave-Maria, publicada pela editora homônima,
da ordem dos padres claretianos. Com vendagem de 987 000 exemplares
em 2002, ela é baseada na Vulgata, a Bíblia
transcrita para o latim por São Jerônimo no século
IV e que por muito tempo foi a única aceita como oficial
pelo Vaticano. Essas Bíblias são aquelas que
a maioria dos fiéis carrega debaixo do braço quando
vai à igreja elas são feitas justamente para
isso, para serem fáceis de transportar e manusear.
Como texto sacro, fundador de várias religiões, a
importância primordial da Bíblia reside no seu
conteúdo, que muitos fiéis ainda hoje levam ao pé
da letra. Mas também é possível lê-la
de um ponto de vista estético é o que a tradição
literária do Ocidente vem fazendo há séculos.
Quem busca esse tipo de prazer tem à disposição
algumas opções, como a Bíblia do Peregrino
e A Bíblia Tradução Ecumênica.
A primeira foi vertida para o português a partir do texto
elaborado pelo padre espanhol Luís Alonso Schökel (1920-1998).
Especialista em poesia hebraica, Schökel deu atenção
especial aos livros versificados, como o Cântico dos Cânticos
e Jó. A segunda, lançada na França
em 1988 e editada no Brasil nos anos 90, é um trabalho especialmente
elegante e fluente, além de ter sido feito com muito rigor
científico, por um time de especialistas de várias
religiões.
No contexto de disputa ferrenha entre católicos e evangélicos,
as edições da Bíblia são uma
ferramenta estratégica. Os evangélicos são
os grandes adeptos dessa ferramenta, investindo pesado na segmentação
dos lançamentos. Hoje, encontram-se nas livrarias Bíblias
com formatos específicos para cada nicho que se quer evangelizar.
Há versões para crianças e adolescentes, para
mulheres e para idosos. As primeiras investem nas ilustrações
ou no acabamento diferenciado, como uma capa com revestimento em
jeans. Entre as segundas, a mais reputada é A Bíblia
da Mulher, co-editada pela SBB e Mundo Cristão. Seu objetivo
não é propor uma leitura feminista das Escrituras.
As organizadoras advertem sobre isso logo na apresentação,
ao dizer que não pretendem "torcer nem reescrever" o texto
conforme essa ideologia. As notas relativas aos versículos
do Gênesis que falam da criação da mulher exemplificam
o tipo de abordagem. Na Bíblia, lê-se: "Não
é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora
que lhe seja idônea". O comentário diz: "Ninguém
perde valor ao assumir com humildade o papel de auxiliador".
|