Edição 1833 . 17 de dezembro de 2003

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Religião
Um santo negócio

O Brasil já é o maior produtor
mundial de Bíblias. Há versões
do livro para cada tipo de fiel


Marcelo Marthe

Desde a invenção da imprensa por Gutenberg, por volta de 1440, a Bíblia mantém-se inabalável no posto de maior best-seller da história. E o Brasil tem dado uma contribuição significativa para que essa situação se mantenha. Segundo a Câmara Brasileira do Livro, em 2002 as editoras nacionais imprimiram nada menos do que 8,6 milhões de Bíblias e faturaram 95 milhões de reais com sua venda. Os números fazem do país o campeão mundial nessa área. A principal razão desse desempenho é o avanço das crenças evangélicas, cujo total de adeptos passou de 13 milhões de pessoas em 1991 a 26 milhões em 2000, de acordo com o Censo. Como essas religiões estimulam a leitura da Bíblia e seu uso nos cultos, não é de estranhar que as editoras evangélicas hoje sejam responsáveis por 57% desse mercado. Entre as editoras católicas, que respondem pelos 43% restantes, a procura pelo livro sagrado também tem aumentado – graças, em especial, ao movimento da Renovação Carismática, que incentiva a utilização da Bíblia em suas missas festivas. O crescimento da demanda faz com que surjam cada vez mais opções para os fiéis: encontram-se atualmente no país doze traduções diferentes das Escrituras, que se desdobram em 335 versões para as mais variadas necessidades (veja quadro).

Giselle Rocha
O Museu da Bíblia, em Barueri: exportação até para o Egito e a Nigéria

A maior usina de impressão da obra no país é a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), instituição sem fins lucrativos que integra uma rede internacional devotada à difusão das Escrituras. Ligada a igrejas evangélicas, ela é responsável por quase metade da produção nacional de Bíblias e é a maior dentre todas as suas congêneres, que estão presentes em mais de 200 países (a segunda no ranking é a Sociedade Bíblica dos Estados Unidos). Sua gráfica, instalada em Barueri, na Grande São Paulo, imprime dez exemplares da Bíblia por minuto. Além de atender à demanda interna, a SBB se dedica à exportação: no ano passado, remeteu para o exterior 2 milhões de cópias do livro em catorze línguas, incluindo uma edição em ioruba para a Nigéria e outra em árabe, para o Egito. Na semana passada, a instituição inaugurou um museu dedicado à história da Bíblia e suas traduções ao longo dos séculos. No universo católico, não existe nenhuma instituição comparável à SBB. As maiores editoras de Bíblias são a Ave-Maria e a Paulus.

A SBB edita a Bíblia mais popular do país. Trata-se de uma tradução clássica no meio protestante, feita pelo religioso português João Ferreira de Almeida no século XVII. Em suas várias versões, ela vendeu 3,1 milhões de exemplares no ano passado. A segunda Bíblia mais comercializada do país é a católica Ave-Maria, publicada pela editora homônima, da ordem dos padres claretianos. Com vendagem de 987 000 exemplares em 2002, ela é baseada na Vulgata, a Bíblia transcrita para o latim por São Jerônimo no século IV e que por muito tempo foi a única aceita como oficial pelo Vaticano. Essas Bíblias são aquelas que a maioria dos fiéis carrega debaixo do braço quando vai à igreja – elas são feitas justamente para isso, para serem fáceis de transportar e manusear.

Como texto sacro, fundador de várias religiões, a importância primordial da Bíblia reside no seu conteúdo, que muitos fiéis ainda hoje levam ao pé da letra. Mas também é possível lê-la de um ponto de vista estético – é o que a tradição literária do Ocidente vem fazendo há séculos. Quem busca esse tipo de prazer tem à disposição algumas opções, como a Bíblia do Peregrino e A Bíblia – Tradução Ecumênica. A primeira foi vertida para o português a partir do texto elaborado pelo padre espanhol Luís Alonso Schökel (1920-1998). Especialista em poesia hebraica, Schökel deu atenção especial aos livros versificados, como o Cântico dos Cânticos e Jó. A segunda, lançada na França em 1988 e editada no Brasil nos anos 90, é um trabalho especialmente elegante e fluente, além de ter sido feito com muito rigor científico, por um time de especialistas de várias religiões.

No contexto de disputa ferrenha entre católicos e evangélicos, as edições da Bíblia são uma ferramenta estratégica. Os evangélicos são os grandes adeptos dessa ferramenta, investindo pesado na segmentação dos lançamentos. Hoje, encontram-se nas livrarias Bíblias com formatos específicos para cada nicho que se quer evangelizar. Há versões para crianças e adolescentes, para mulheres e para idosos. As primeiras investem nas ilustrações ou no acabamento diferenciado, como uma capa com revestimento em jeans. Entre as segundas, a mais reputada é A Bíblia da Mulher, co-editada pela SBB e Mundo Cristão. Seu objetivo não é propor uma leitura feminista das Escrituras. As organizadoras advertem sobre isso logo na apresentação, ao dizer que não pretendem "torcer nem reescrever" o texto conforme essa ideologia. As notas relativas aos versículos do Gênesis que falam da criação da mulher exemplificam o tipo de abordagem. Na Bíblia, lê-se: "Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea". O comentário diz: "Ninguém perde valor ao assumir com humildade o papel de auxiliador".

 

 

 
 
 
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