Edição 1833 . 17 de dezembro de 2003

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Patrimônio
Quero minha múmia

Países como Egito e Grécia exigem que seus
tesouros arqueológicos sejam devolvidos

 
AP
RAMSÉS I: a múmia, roubada por um médico canadense há 150 anos, foi devolvida ao Egito por um museu americano

Peça por peça, especialistas italianos estão desmontando um obelisco de 24 metros e 165 toneladas que durante 66 anos ornamentou uma praça em Roma. O monumento será devolvido à Etiópia, de onde foi tirado em 1937 pelo Exército do ditador Benito Mussolini. As formas geométricas do Obelisco de Axum, de quatro faces, foram esculpidas há quase 2.000 anos. A Etiópia faz parte dos países – liderados por razões óbvias pelo Egito e pela Grécia – que lutam para receber de volta os tesouros arqueológicos que durante séculos foram levados de seus territórios por exércitos, exploradores e ladrões de tumbas estrangeiros. As reivindicações têm dividido os especialistas em antiguidades. De um lado estão governos e sociedades de arqueólogos que acreditam que os tesouros culturais precisam ficar nos países de origem, de onde nunca deveriam ter saído. Do outro, diretores de museus e colecionadores que acham que as peças têm de ficar onde mais gente possa vê-las e onde tenham condições de ser guardadas e estudadas com maior segurança. Eles temem que os artefatos devolvidos a países conturbados tenham destino parecido com o das milenares estátuas gigantes de Buda no Afeganistão, explodidas com dinamite pelo governo fanático do Talibã, em 2001.

O Egito já conseguiu receber de volta centenas de estátuas, escrituras e múmias do tempo dos faraós. "O processo começou com o presidente Gamal Nasser, na década de 50, que queria a devolução de tudo o que tinha sido levado do país desde 300 anos antes de Cristo", diz Antonio Brancaglion, egiptólogo do Museu Nacional do Rio de Janeiro. O caso mais recente foi o retorno da múmia de Ramsés I, que estava nos Estados Unidos. Em outubro passado, a múmia real foi recebida de volta com toda a pompa por uma banda militar e um coro de crianças que cantavam: "Bem-vindo, Ramsés, criador do valoroso Egito". O diretor da divisão de antiguidades do Egito, o arqueólogo Zahi Hawass, deflagrou no ano passado uma campanha agressiva de restituição de peças históricas. Entre outros itens, exige a devolução do obelisco da Place de la Concorde, no centro de Paris, do magnífico busto da rainha Nefertiti, que está no Museu Egípcio de Berlim, e da Pedra de Roseta, cujo texto trilíngüe permitiu que os hieróglifos egípcios fossem decifrados e que hoje está exposta no Museu Britânico, em Londres.

AFP
OBELISCO DE AXUM: desmontado e empacotado para voltar à Etiópia, depois de 66 anos em praça italiana


Já o governo grego quer a devolução dos chamados Mármores de Elgin – que hoje estão no Museu Britânico – a tempo de ser exibidos durante as Olimpíadas de Atenas, no ano que vem. As esculturas foram retiradas do Partenon e de outros templos da Grécia Antiga por lorde Elgin, embaixador inglês no Império Otomano, e levadas para a Inglaterra em 1811. O caso é exemplar para explicar as complicações desse assunto. A remoção salvou as preciosidades da depredação pela qual passaram os templos gregos. A resposta dos atuais proprietários de todas essas relíquias, em geral, não agrada a gregos nem a egípcios: as peças não serão devolvidas. A convenção da Unesco que define as regras de devolução de objetos históricos só vale para casos de roubos ocorridos depois da data de sua assinatura, em 1972. Peças históricas saqueadas antes disso só são devolvidas quando há muita boa vontade dos atuais donos. Foi o que aconteceu com o Obelisco de Axum. Só que, nesse caso, havia um estímulo importante para a devolução: não pegava bem ficar com um monumento que foi levado à Itália para servir de símbolo do poder fascista.

Outro argumento dos diretores de museus que se mantêm irredutíveis à onda de devoluções é que muitas das peças foram compradas legitimamente ou dadas pelas autoridades do país de origem, ainda que em transações escusas. O busto de Nefertiti, por exemplo, foi levado em 1925 por arqueólogos alemães que fizeram escavações consentidas pelo governo do Egito. Os egípcios alegam que os alemães não informaram que estavam em poder de uma peça de alto valor artístico. Malandragens à parte, os arqueólogos costumam dizer, de brincadeira, que saquear sítios históricos é a segunda profissão mais antiga do mundo. Toda a história de conquistas da humanidade foi permeada pelo hábito de pilhar obras de arte e outros objetos de valor cultural. A egiptologia surgiu assim, quando Napoleão Bonaparte levou um grupo de 150 sábios em sua campanha militar para o Egito. O Exército napoleônico carregou milhares de relíquias para a França – entre elas a Pedra de Roseta. Se tivessem de devolver tudo o que foi surrupiado durante séculos, os museus europeus ficariam vazios. E, enquanto os países brigam para recuperar seus tesouros arqueológicos, os ladrões de tumbas continuam pilhando seus patrimônios culturais. Calcula-se que 80% do que é vendido no mercado de antiguidades seja material ilícito. Nos últimos cinco anos, cerca de 220.000 tumbas antigas foram saqueadas na China. Segundo a ONU, o contrabando mundial de obras de arte e peças históricas só é menor do que o tráfico de drogas e de armas.

 
 
 
 
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