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Patrimônio
Quero
minha múmia
Países como Egito e
Grécia exigem que seus
tesouros arqueológicos sejam devolvidos
AP
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| RAMSÉS
I: a múmia, roubada por um médico canadense há 150 anos,
foi devolvida ao Egito por um museu americano |
Peça
por peça, especialistas italianos estão desmontando
um obelisco de 24 metros e 165 toneladas que durante 66 anos ornamentou
uma praça em Roma. O monumento será devolvido à
Etiópia, de onde foi tirado em 1937 pelo Exército
do ditador Benito Mussolini. As formas geométricas do Obelisco
de Axum, de quatro faces, foram esculpidas há quase 2.000
anos. A Etiópia faz parte dos países liderados
por razões óbvias pelo Egito e pela Grécia
que lutam para receber de volta os tesouros arqueológicos
que durante séculos foram levados de seus territórios
por exércitos, exploradores e ladrões de tumbas estrangeiros.
As reivindicações têm dividido os especialistas
em antiguidades. De um lado estão governos e sociedades de
arqueólogos que acreditam que os tesouros culturais precisam
ficar nos países de origem, de onde nunca deveriam ter saído.
Do outro, diretores de museus e colecionadores que acham que as
peças têm de ficar onde mais gente possa vê-las
e onde tenham condições de ser guardadas e estudadas
com maior segurança. Eles temem que os artefatos devolvidos
a países conturbados tenham destino parecido com o das milenares
estátuas gigantes de Buda no Afeganistão, explodidas
com dinamite pelo governo fanático do Talibã, em 2001.
O Egito já conseguiu receber de volta centenas de estátuas,
escrituras e múmias do tempo dos faraós. "O processo
começou com o presidente Gamal Nasser, na década de
50, que queria a devolução de tudo o que tinha sido
levado do país desde 300 anos antes de Cristo", diz Antonio
Brancaglion, egiptólogo do Museu Nacional do Rio de Janeiro.
O caso mais recente foi o retorno da múmia de Ramsés
I, que estava nos Estados Unidos. Em outubro passado, a múmia
real foi recebida de volta com toda a pompa por uma banda militar
e um coro de crianças que cantavam: "Bem-vindo, Ramsés,
criador do valoroso Egito". O diretor da divisão de antiguidades
do Egito, o arqueólogo Zahi Hawass, deflagrou no ano passado
uma campanha agressiva de restituição de peças
históricas. Entre outros itens, exige a devolução
do obelisco da Place de la Concorde, no centro de Paris, do magnífico
busto da rainha Nefertiti, que está no Museu Egípcio
de Berlim, e da Pedra de Roseta, cujo texto trilíngüe
permitiu que os hieróglifos egípcios fossem decifrados
e que hoje está exposta no Museu Britânico, em Londres.
AFP
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| OBELISCO
DE AXUM: desmontado e empacotado para voltar à Etiópia,
depois de 66 anos em praça italiana |
Já o governo grego quer a devolução dos chamados
Mármores de Elgin que hoje estão no Museu Britânico
a tempo de ser exibidos durante as Olimpíadas de Atenas,
no ano que vem. As esculturas foram retiradas do Partenon e de outros
templos da Grécia Antiga por lorde Elgin, embaixador inglês
no Império Otomano, e levadas para a Inglaterra em 1811.
O caso é exemplar para explicar as complicações
desse assunto. A remoção salvou as preciosidades da
depredação pela qual passaram os templos gregos. A
resposta dos atuais proprietários de todas essas relíquias,
em geral, não agrada a gregos nem a egípcios: as peças
não serão devolvidas. A convenção da
Unesco que define as regras de devolução de objetos
históricos só vale para casos de roubos ocorridos
depois da data de sua assinatura, em 1972. Peças históricas
saqueadas antes disso só são devolvidas quando há
muita boa vontade dos atuais donos. Foi o que aconteceu com o Obelisco
de Axum. Só que, nesse caso, havia um estímulo importante
para a devolução: não pegava bem ficar com
um monumento que foi levado à Itália para servir de
símbolo do poder fascista.
Outro argumento dos diretores de museus que se mantêm irredutíveis
à onda de devoluções é que muitas das
peças foram compradas legitimamente ou dadas pelas autoridades
do país de origem, ainda que em transações
escusas. O busto de Nefertiti, por exemplo, foi levado em 1925 por
arqueólogos alemães que fizeram escavações
consentidas pelo governo do Egito. Os egípcios alegam que
os alemães não informaram que estavam em poder de
uma peça de alto valor artístico. Malandragens à
parte, os arqueólogos costumam dizer, de brincadeira, que
saquear sítios históricos é a segunda profissão
mais antiga do mundo. Toda a história de conquistas da humanidade
foi permeada pelo hábito de pilhar obras de arte e outros
objetos de valor cultural. A egiptologia surgiu assim, quando Napoleão
Bonaparte levou um grupo de 150 sábios em sua campanha militar
para o Egito. O Exército napoleônico carregou milhares
de relíquias para a França entre elas a Pedra
de Roseta. Se tivessem de devolver tudo o que foi surrupiado durante
séculos, os museus europeus ficariam vazios. E, enquanto
os países brigam para recuperar seus tesouros arqueológicos,
os ladrões de tumbas continuam pilhando seus patrimônios
culturais. Calcula-se que 80% do que é vendido no mercado
de antiguidades seja material ilícito. Nos últimos
cinco anos, cerca de 220.000 tumbas antigas foram saqueadas na China.
Segundo a ONU, o contrabando mundial de obras de arte e peças
históricas só é menor do que o tráfico
de drogas e de armas.
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